domingo, 27 de dezembro de 2009

Uma luz no porão

"cuide bem de sua fé, faça tudo para a sua fé render..."






Outrora, em meados de 1993 quando tinha acabado a faculdade de direito e não tinha nenhum rumo a tomar, resolvi prestar concursos públicos. Logo eu que odiava rotinas, burocracia, protocolos, provas, autoridades e coisa que o valha. Mas a estabilidade....a respeitabilidade(perante a família é claro)....e principalmente senão exclusivamente o salário eram motivos fortes. Então para me concentrar na árdua batalha, montei meu bunker no porão da vovó. E lá ficava com aquelas apostilas ridículas e um abajurzinho sofrível tentando assimilar os "interesses difusos em espécie" ou mesmo os elementos "essenciais" do direito administrativo. As horas passavam lentas até o esperado grito da vovó lá em cima. - Hora do lanche; e a empregada descia com uma bandeja de prata com um pratinho e uma fatia de pão-de-ló + uma jarrinha de suco de caju. Bendita vovó! Tudo ia bem, mas o tédio e a minha falta de interesse pelo código comercial falavam mais alto. Comecei a olhar para os lados e a contar o número de desenhos na cortina, a quantidade de pontos no tapete...o número de revistas dispostas na estante...;Ato contínuo e como não tinha mais nada de interessante para fazer resolvi ler as revistas. Era uma grande coleção da extinta revista Cruzeiro. E foi lá que descobri os textos da Raquel de Queiroz, colunista assídua que na edição de 01 de agosto de 1959 publicou o texto intitulado "Nada é sagrado" que transcrevo agora parcialmente : "Todo o artista, quando não erige a si próprio um pedestal, pelo menos se isola, sem querer misturar com as demais raças dos homens, de quem não se considera igual(...) "Em busca dessa sinceridade Jean Jacques não se peja de contar que obrigava a pobre Tereza a enjeitar os filhos dele na roda dos expostos. Dostoiévski esmiuça até a exaustão os seus espasmos de epilético, a terrível embriaguez de seu vício incurável - o jogo. Gide expõe, perversamente as nuanças mais íntimas do seu desvio, e, achando pouco, não nos poupa sequer o espetáculo da frustração e ressentimento que é a vida da triste Emanuèlle O'Neill, esse arasta a família toda para a ribalta - a mãe morfinômana, os irmãos, o pai alcóolatra. E não se diga que eles foram grandes a despeito disso. Não, eles se chamam grandes precisamente por causa disso." Legal não? E assim prossegui lendo Raquel, dentre outros iluminados jornalistas e escritores no porão até que não precisei mais do abajurzinho sofrível , das apostilas e dos lanchinhos, diga-se, deliciosos. Que Saudades da vovó! Passaram-se 16 anos ou mais e nesse tempo todo prestei apenas um concurso público. Não passei. Graças aos céus! Ou a Raquel de Queirós...sei lá! Tanto faz.
Luiz Tinoco Cabral

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Atiraram outra vez no dramaturgo


Pois é conheci o Bortolotto por citações de escritores atuais que prezo, blogs restritos etc; pouco espaço na mídia, muita bebida e outras cositas mas pra encarar o excesso de talento e a falta de reconhecimento. Cheguei a ler seu ótimo blog atirenodramaturgo.zip.net/, um puta cara legal, tem uma banda de blues, recita poemas pornográficos, ressuscitou como ambiente cultural a praça Roosevelt no centro de São Paulo, tem peças com uma temática atual, amigos interessantes, um desapego comercial etc. De repente eu que nunca assisto o “Jornal Hoje” sou brindado por uma triste notícia na TV: Dramaturgo leva quatro tiros e seu estado é grave. Reagiu a um assalto ao teatro. Pasmem! Assalto a teatro que cobra 15 reais a entrada e vive provavelmente de subsídios ínfimos e por insistência e boa vontade de uma militância cultural amiga e fiel . Dura realidade. E agora a mídia dá o sofrível espaço sensacionalista como deram para o Marcelo Fromer, o Marcelo Yuca etc. É de estarrecer a hipocrisia, o tom vago e rotineiro da notícia que antecedeu a notícia com certeza muito mais esperada - a do Mengão campeão. Ninguém percebe que demorou quarenta e sete anos para aquele artista chegar ao seu estágio?,Para aquele talento brasileiro com todas as dificuldades começar e continuar a florescer a despeito do descaso geral e tiros diários? Que o cara é influência para uma enormidade de artistas e pessoas insatisfeitas com o “status quo” que só gera porcarias e excrescências como esta que entrou pela TV agora a pouco?
E a jornalista para garantir seu emprego na emissora termina o Jornal rindo e desejando boa tarde! Como ter uma boa tarde depois de uma merda desta! Merda de notícia, merda de jornalismo. E na dúvida tive que entrar em sites de amigos do Mário como a Clara Averbuch e o Mirisola para saber que o seu estado é estável e não grave e que o grande dramaturgo, músico e escritor Mário Bortolotto vai sair desta se Deus quiser. E o brasileiro continua vibrando com o Mengão campeão....jornalismo canastrão....político ladrão....abre o olho mermão!
E fique esperto porque vc que é atuante, inteligente, consciente, faz teatro experimental, música, poesia e escreve livros acima da média pode ser o próximo. E nada disso interessa. Só a cor e a quantidade do seu sangue rubro neste mundo negro.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

a bala que liberta



Lento caminhou para fora de casa. Olhou para os dois lados. Atravessou a rua. Suspirou cansado. Limpou o suor frio da testa. Pegou um revólver calibre 38 e atirou na própria boca. Será que o barulho acordou sua esposa? Seus filhos? Toda a sociedade? Será que um vira-lata sujo lambeu seu sangue na calçada? Quem foi que disse que a vida é uma doença degenerativa e sexualmente transmissível?

Pornopopéia Reinaldo Moraes

Como deixar de comentar este que foi o livro que mais me surpreendeu no ano? Reinaldo Moraes consegue não só escrever um livro ou um capítulo intrigante mas vários PARÁGRAFOS intrigantes e bem escritos(na sua maioria). O livro inteiro é uma profusão de idéias extravagantes num contexto aparentemente desconexo mas que conecta perfeitamente com a idéia principal do livro e a característica do seu personagem central Zeca - cineasta maldito falido drogado e prostituido(uma Cristiane F de 42 anos) ; mas que não abre mão de sua personalidade de suas idéias. Politicamente incorreto ao extremo vai desnudando toda a hipocrisia das vidas "bem vividas" daqueles que tem o barbear rente e macio já enaltecido por Mirisola. (Sempre Mirisola...). E vamos vivendo uma vida desregrada que pode terminar tanto numa suruba num templo metido a Hindú, como nas praias quase privadas da fictícia Porangatuba, nos puteiros de Paraty, nas bocas de fumo da grande São Paulo, ou mesmo nos balcões imundos do Bar Bitch. Personagens inesquecíveis como o mineiro Nissim, sua esposa ambígua, a dona da pousada, sua amiga milionária, o Dr. advogado Margarido que sempre introduz as conversas com "meu querido", as prostitutas cocainômanas do Bar Bitch, a caiçara linda e dentuça do Bar da "Ilha das Rocas", o caseiro, o menino/maurícinho que passa, o empresário, o traficante, o policial corno, o travesti....enfim nosso personagem Zeca hedonista e com a crítica aguçadíssima, baseada na sua cultura geral peculiar não deixa escapar ninguém. Nem mesmo ele. Sobra merda, sangue e esperma pra todo mundo nesse ventilador giratório chamado Pornopopéia. Leia se tiver estômago! A refeição é farta e estranhamente rica. E já encomendei o "Tanto faz" livro de estréia do autor que em 1981 tornou-se "cult" e narra a estória de um estudante bolsista que vai para Paris abandona os estudos para vivenciar uma outra Paris - quem sabe aquela do submundo de Santiago Gamboa, Hemingway ou mesmo do catalão Henrique Vila-Matas cada qual fazendo suas descobertas a seu tempo. E é isso aí: "estudando e lendo vou crescendo" - li no para-choque do caminhão. Tchau - vou comer um miojo com salsicha a la Reinaldão.



terça-feira, 24 de novembro de 2009

É O FIM


fim
somos como rosas que nunca se esforçaram por florir
quando devíamos ter florido
e é como se o sol ficasse desgostoso com a espera.
- charles bukowski -

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Arte e criação

"Venus" de Franz Goethe


Vai uma dica de um blogeiro André Freitas baseada nos ensinamentos do grande escritor e pensador Alemão Johann Wolfgang Von Goethe (amiguinho de Schopenhauer) que procuro utilizar no meu dia a dia e principalmente na literatura: "Goethe dizia que toda busca envolve vários erros. Quem não tem coragem de errar não dá um passo novo e prefere trilhar caminhos que já foram trilhados, citando e analisando o que já foi dito antes.É preciso livrar-se do compromisso com o êxito para poder criar. O êxito, como objetivo, é castrador da criatividade e pode até significar concessão à mediocridade" A.F. Nesse sentido uma música que fiz para a nossa banda Sábios Insanos "para viver com arte". Enfim - este blog não é de auto-ajuda mas não deixa de procurar uma motivação. Um alento. Especialmente quando estou lendo "Pornopopéia" e podendo observar todos os dias o desprendimento e os acertos involuntários de outro grande escritor que definitivamente não tem medo de ser feliz. Isso é talento.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Monstros Invisíveis Chuck Palahniuk

foto extraída do blog clube da luta baseado no outro livro (famoso) de Chuck

Vendo uma foto de Chuck Palahniuk sou remetido a imagem de Jack Kerouac, aquele tipo de brutamontes das letras. Daquele escritor com braços sarados que gosta de porrada, droga, sexo, maluquices e escatologia. É essa a pilastra de sua literatura. O livro "Monstros Invisíveis" era para ser o seu primeiro romance mas foi reiteradamente recusado pelas editoras por ser "doentio demais". É mole? Depois o cara arrebentou com o "Clube da Luta"(vide foto acima) e os editores estão publicando qualquer coisa que ele escreva. Escreve e vende, escreve e vende para cinema já que seus livros parecem roteiros. Esse então primeiro romance é descaradamente um roteiro de cinema naquilo de mais atual já que num mesmo parágrafo e/ou capítulo vamos para o passado para o presente para infância, juventude e vamos correndo os anos da personagem principal de trás para frente de frente para trás sem uma cronologia reta e pontiaguda(diga-se careta). "Corta para", "corta para"....Escritor de estilo. Com certeza queridinho dos Festivais de Sundance. Mas tirando as brincadeiras de lado, gostei da coisa toda. É a história de uma mulher/modelo que depois de um acidente de carro/tiro fica com o rosto totalmente desfigurado tem que fazer um balanço/auto-análise e reinventar a sua vida. O livro passa então a fazer uma séria de críticas a sociedade de consumo que eleva a beleza ao patamar único de satisfação e projeção social. Vc é aquilo que vc parece e não aquilo que vc é! Entendeu? Portanto o livro sai da mesmice de historinha de cinema pra entreter e vai um pouco além! Entra realmente na estética literária e não a estética meramente cinematográfica também presente e isto é muito salutar. Cria um climão próprio: operações plásticas, mundo "fashion" vidas reinventadas a cada momento, uma transexual de nome Brandy Alexander, criação das irmãs Reines(hilárias), a própria protagonista, seu irmão ambíguo, o namorado duvidoso, enfim ninguém é o que parece ser e as pessoas vão mudando de nome e de objetivos até um final surpreendente e maluco que não vou dizer aqui para não tirar o tesão. Alguém ainda tem tesão enquanto lê? Eu tenho. Inclusive quando vou ao cinema. Ontem fui ver o novo Tarantino - Bastardos Inglórios e me deliciei com a originalidade e as piadas inglórias. Pano rápido. Corta para o relógio que tenho que sair. Como diria o Brad Pitt no filme em seu italiano macarrônico Arrivederci amore mio.


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Van Gogh e a literatura


Carta de Van Gogh a seu irmão Theo: "talvez eu gostasse de escrever sobre muitas coisas, mas a vontade passou a tal ponto que vejo inutilidade nisso". Assim mesmo, curto e grosso - escrever é inútil. Quatro dias depois de escrever a frase acima o cara se matou com 4 tiros no peito. Essa constante relação da literatura com a morte. Alguns escrevem para não morrer outros pintam quadros, outros plantam árvores. Alguns ganham dinheiro. Outros colecionam relacionamentos, carros, ilusões.... Mas no fundo todos sabemos como a Márcia Denser . No fundo, no fundo e um pouco além de nossas motivações não nos resta muita coisa. A vida afinal de contas é... BESTA! E está ficando cada vez mais...leiam o belo artigo da Márcia Denser no site Congresso em foco. E eu ainda escrevo...e sigo escrevendo....mas a frase acima seria ótima para encerrar este blog não? Porém meu desespero e desilusão ainda é pouco. E ainda amo muito o lóbulo branco e tosco da minha orelha esquerda.



segunda-feira, 12 de outubro de 2009

BLOW-UP - DEPOIS DAQUELE BEIJO


Foi a primeira vez que fui beijado por Antonioni. Era um adolescente interessado. Não tinha a percepção de sua obra que tenho hoje. Revendo o filme que tanto me impressionou, vejo que ele permanece vivo. E como....
A princípio por mostrar a Londres de nossos sonhos tropicalistas, suas ruas, suas cores sombrias, seus tijolos vermelhos, seus carros negros. Só por isso vale o filme.
Aliás a idéia de Antonioni é essa. São vários filmes dentro do mesmo. A música incidental de Herbie Hancock em contraste com os silêncios das árvores, com os silêncios do filme em si. É o cinema como tem que ser. A imagem diz mais que mil sons, mil trejeitos e mil efeitos especiais.
Mas a estória em si que não se revela também é reveladora(Heim???). Um assasinato. Será? Ou será apenas uma forma de mostrar a vida de um fotógrafo na Londres efervescente? Da Londres do Rock e da benzedrina, da maconha, do vinho tinto. Da London London das festas regadas a muita droga e The Yardbirds?
Ou será a paranóia de um fotógrafo e sua desorientação e de suas modelos desorientadas, de uma época com várias, tantas opções que não se consegue vislumbrar uma certa sequer?
Caminhamos pelo filme vendo pessoas apáticas assistindo um show e desesperadas em busca de um souvenir(pedaço de guitarra jogado na platéia). Mímicos jogando um tênis imaginário; um vendedor de antiguidades que maltrata seus compradores e não quer se desfazer de seus pertences; uma passeata em fila militar de pacifistas contra a guerra; modelos perdidas e vendidas em busca de auto-afirmação e/ou diversão pura e simples. A aquisição de uma élice de avião antiga pelo puro deleite e prazer estético.
Na realidade Michelangelo Antonioni é um voyeur e um crítico sutil de sua sociedade. Basta a lente na realidade, basta a lente....
Sem contar que o filme conta com a belíssima Vanessa Redgrave e é inspirado em uma obra de Julio Cortazar.
Aula de cinema. Obra de arte. Imperdível!(aliás como todo o conjunto de Michelangelo Antonioni) . E este filme é de 1966. Não se fazem mais filmes como antigamente!
Boa noite; Beijo na testa!!!!!Durma com esta!

OH! BARBARELLA!!


Recomendo este filme para estilistas, travestis, cartunistas, drag queens, hippies tardios, descolados em geral....e principalmente para heterosexuais voyeristas que ainda não conhecem a angelical carinha e as adoráveis pernas de Jane Fonda no filme que lhe levou ao estrelato.
O filme é meio retrô, meio psicodélico, ficção-científica e baseado numa história em quadrinhos onde uma mercenária das galáxias(Barbarella), num mundo futurista e pacífico tem como missão encontrar o grande "Duran Duran" e barrar os seus anseios de dominar o universo com uma arma poderosa.
De quebra a mercenária até então civilizada, descobre toda a delicia do mundo pagão e atrasado, sexo selvagem, bárbaro, e transforma sua missão numa adorável ode ao sexo em contraposição ao sexo do futuro sem contato físico.
Enfim, uma deliciosa bobagem, com toques artísticos indiscutíveis e com uma protagonista deliciosa, Jane Fonda, no auge de sua beleza e usando as roupas mais extravagantes e sexys do planeta.
Para se ter uma idéia o filme começa com um strip-tease de Jane Fonda, flutuando e com uma roupa de astronauta. Cena impagável.
Vale a pena dar uma espiadela. E pensar que eu nem tinha nascido, o homem ainda não tinha pisado na lua e Woodstok ainda era um embrião. O filme é de 1968.
E como diria o Seu Jorge: "é isso aí"!



domingo, 4 de outubro de 2009

Emerson Wiskow e seu "Ovos de Touro"



provável auto-retrato extraído do site do Emerson "cavalos não correm deitados"

Eu gosto do Wiskow e é só. Poderia criticar o seu livro, dizer que tem erros de português gritantes, que as estórias muitas vezes não são devidamente aproveitadas, que falta surpresa em muitas delas mas não. Gosto do Wiskow. Da maneira como ele desenha e disponibiliza seus textos; gosto dos seus gostos e referências, o velho Buk, Gutierrez, mulheres gostosas, bares etc. Gosto da sua peregrinação em busca do auto-conhecimento como escritor. E gosto de algo que supera qualquer falha dele. Sua cara-de-pau! no sentido de ausência de pudores como escritor. A literatura está aí para quem quiser e isso é muito bom. E ele explora tudo isso muito bem aparentemente sem segundas intenções. O que é um alento. Seu anti-profissionalismo é salutar e sua crítica ao Daniel Galera melhor ainda. Tá certo - o cara (Daniel)conseguiu escrever um romance e isso já é muita coisa em um País como o nosso. Mas ele não é essa coisa toda! Dá pra compreender?Gosto inclusive de algumas fixações recorrentes. Me identifico. Wiskow é um grande voyeur! Seus suicidas, suas vagabundas, suas bundas com muita carne, seus prostíbulos decadentes, os bares gelados que não tenho por aqui(Rib 40 graus). Nem vou dizer que não gosto de marcianos, cigarros, mulheres verdes, uma cabeça-decepada, um encontro com Jesus na Zona, exaltação ao próprio pinto. Não! Não vou! Porque gosto do Wiskow e é só. Como um irmão de uma confraria secreta e restrita.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Incompletos Albano Martins Ribeiro

Ler Albano Martins Ribeiro não é fácil. Vc tem que entrar no site http://www.osviralata.com.br/ que dedica-se à publicação divulgação e distribuição de literatura independente, fazer um depósito e pedir o livro do autor supra que aliás e o proprietário e único empregado da editora independente como ele faz questão de frisar. O livro chega no prazo sem nenhuma cartinha num envelopinho padrão e causa um certo estranhamento. "- Como é que coube um livro de 100 páginas nesse envelopinho?" De quebra você tem que aturar as letrinhas miúdas de um mini pocket book e ficar amassando as páginas no meio para ler as linhas na íntegra sem malabarismos . Porém a surpresa é boa ou seja vale o pequeno sacrifício. Afinal para ler bestsellers bem encadernados e que não dizem nada é só ir na livraria mais próxima. Albano tem aquela escrita que chega como o vento, nua, com os acontecimentos da vida. Ele narra as putarias e sacanagens do cotidiano e das relações humanas(de amor ou...nem tanto). E se pudesse escolher entre os vários bons contos ficaria com o excelente "sexta à noite, no purgatório" que narra às desventuras de um personagem que, na esperança de um sorriso antigo e vibrante de sua companheira, tem que aturar uma reunião social nitidamente de conveniências numa noite gris. Peço "vênia" ao escritor para transcrever um trechão do conto que pode dizer muito mais do autor e do livro do que estas minhas "vênias" e "mal traçadas letras" urgh! Brincadeira heim!? Esse latinismo e essas frases feitas não me pertencem(influência do Garófilo - meu professor de Filosofia do Direito). Mas voltando ao assunto vamos lá: "pois é, Nina querida, eu sabia que ir a essa festa não era a melhor coisa a fazer naquela noite. Mas você disse tantas vezes que fazia questão, e eu acabei indo de sapatos duros com a roupa errada a um lugar de valetes surdos e anões, cheio de homens arrogantes mulheres putas e burras vestidas de vermelho e preto, de uísque bom e traiçoeiro, um lugar cheio de gente em que a gente se sente sozinho, sozinha, um lugar onde há pratos e pratos e garfo garfo garfo e faca faca faca e colher colher colher e taça taca taça, mas onde não se serve comida, só pães anões com micro-manteigas e quibes de pó-de-arroz com cheiro de peixe, telões que passam jogos de futebol ao vivo, um lugar onde há gêmeas idênticas identicamente horrorosas, onde só as mulheres inatingíveis dançam, onde os mágicos não tem assistentes de maiô e você chupa o pau - como ninguém o saberia fazer - dos canalhas de cabeça cúbica e sorriso de fauno que patrocinam seus projetos". AMR Uau! Inferno ou purgatório? Lembrei-me até de um conto do Mirisola "basta um verniz para ser feliz". Lembrei-me inclusive de Bukowski pela crueza e simplicidade que o conto chega à conclusão acima - ao grand finale. Tô até vendo a carinha do Albano , com ressaca, barbinha por fazer, coçando a testa e digitando o texto com ênfase, com verve com raiva. São os momentos únicos....É isso aí Albanão! pau no cú deles e delas , desses faunos e "deusas", daqueles que tem "o medo de mostrar o rabo, sujar a gravata".(essa é do Mirisola). E assim mesmo no seu estilo - sem vaselina!!!!!
Portanto caros e infindáveis leitores - entrem no site, naveguem com a devida atenção, descubram boas novidades, comprem o livro que é baratinho e aproveitem para adquirir(de graça) os e-books "O cabotino" do Polzonoff e "Ovos de Touro" do Wiskow. VIVA A LITERATURA INDEPENTENTE!!!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Paris não tem fim - Enrique Vila-Matas


Acabo de ler o ótimo livro acima do escritor catalão que descreve a época em que ele vadiava por Paris para tornar-se um escritor; morava num pequeno apartamento da escritora Marguerite Duras e seguia os passos do célebre escritor Ernest Hemingway. Foi a descoberta do ano! Ora, um livro que dá vontade de ler novamente não é uma descoberta? E quando dá vontade de conhecer os outros livros do autor? Sem dúvida! Enrique é fá de Borges e demonstra uma capacidade intelectual muito além dos escritores imaturos atuais. Tá certo que ele não é novinho, coisa e tal, mas demonstra muita segurança na escrita e principalmente nas citações. Livro de escritor que lê. Que vive o dia a dia de escritor. Que conviveu com escritores. Também com loucos como o personagem real Bouvier "eram somente as palavras de um louco. Muitas vezes, porém, os loucos anunciam o que vai acontecer". E dentre as pérolas extraídas temos aquele personagem boêmio Parisiense que muito rico e herdeiro investia seu dinheiro em uma pesquisa sem fim com um tema esdrúxulo apenas para sustentar uma infinidade de estagiários, estudantes e pretensos escritores. E vamos passeando por uma Paris vibrante e seus cafés como o "des amateurs" e o "Flore" ou mesmo o Bar do Ritz enquanto o autor ainda jovem tenta escrever o seu primeiro romance "A assasina ilustrada".
De repente na página 107 temos a seguinte citação do camarada René Char "a perdição do crente é encontrar sua igreja".
E ao acabar o livro fiquei com a impressão de que encontrei a minha. Bem longe dos evangélicos...chatérrimos...E pra quem não gostou deste post fica uma citação de Jacques Prevért que grifei na página 230 que dizia que "tinha um pé na Rive Droite, outro na Rive Gauche, e o terceiro na bunda dos imbecis". Ulalá!!!
A tradução é de Joca Reiners Teron e já temos no Brasil traduzido "A viagem vertical" "Bartebly e companhia" "O mal de Montano" e para lançar o novo "Suícidios exemplares". Leiam Enrique Vila-Matas - sem medo de ser feliz.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Pulp e o velho Buk

Saúde! Acabo de ler mais um livro do velho Buk "Pulp", o último de sua vida onde um detetive atabalhoado Nick Belane, entre tardes e noites de realidade insuportável e momentos de intensa depressão tenta desvendar alguns mistérios e justificar sua profissão insólita. Uma brincadeira de Bukowski com o gênero, tachado de subliteratura. Porém o que o velho Buk faz não pode nunca ser tachado de "baixo clero". Trata-se de uma paródia, uma imitação burlesca do gênero para atingir outra finalidade já que o grande mistério a ser desvendado é a própria morte representada por um pardal vermelho. Um belo livro. Um belo final para este escritor iluminado que soube conservar seu estilo único até seus 73 anos, influenciando uma infinidade de escritores até os dias de hoje. A foto acima é pra ilustrar uma de suas grandes paixões: A bebida - "voltara ao meu velho amigo, uísque escocês com água. O uísque escocês é uma bebida que a gente não gosta imediatamente. Mas, depois que se acostuma, ele opera uma mágica". Realmente - há momentos que só um velho e bom uísque escocês é capaz de superar a solidão e a velhice ou a solidão da velhice tão bem descrita no livro: "Portanto, agora, ali estava eu. Sentando ouvindo a chuva. Se eu moresse agora, ninguém verteria uma lágrima em todo o mundo. Não que precisasse disso. Mas era estranho. Até onde um trouxa pode ficar solitário? Mas o mundo estava cheio de velhos rabugentos como eu. Sentados ouvindo a chuva e pensando para onde foi todo mundo. Aí é que a gente sabe que está velho, quando fica pensando para onde foi todo mundo. Bem. não foram para lugar nenhum. Não precisavam ir. Três quartos estavam mortos." E nessa busca improvável para desvendar mistérios quase insoluveis vamos nos deparando com personagens que parecem extraídos de algum gibi ou filme de gangsters : Cindy Bass , Jeannie Nitro, Billy French, Dona Morte, Johnny Temple....
Portanto mais um livro memorável para ser lido sem ser levado a sério, aliás como sugerido pelo próprio autor em sua dedicatória: "dedicado à subliteratura". Mas não deixe de ler nas entrelinhas: afinal o velho Buk é o velho Buk e a morte é um pardal vermelho que abre o bico e nos mostra um enorme espaço vazio com um enorme vórtice amarelo mais dinâmico que o sol.
E infelizmente em 1994 o fulgor intenso da luz amarela invadiu e envolveu o nosso herói das letras e das garrafas. A chuva fina que cai lá fora me convida a verter lágrimas que engulo já que o velho Buk com certeza não aprovaria. Vivamos intensamente enquanto é tempo. Mais um brinde!!!!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

perna cabiluda

Só mesmo entrando no portal de curtas do Brasil http://www.portacurtas.com.br/ para acompanhar uma insólita história de uma perna sem corpo que perambula pelas ruas de Recife e desperta os maiores surtos de imaginação, medo, desejo e curiosidade em toda uma população.
É a magia da literatura popular de cordel que por muitas vezes apresenta-se com qualidade indiscutível e eternizou seres lendários como Raul Seixas.
Bom também ver o poder que o rádio desperta no imaginário popular e Chico Science em ação(saudades!) e finalmente entender aquela música da "perna cabiluda" do Zé Mané e coisa e tal.
O Pernambucano é acima de tudo um....contador de histórias. Meu sogro, seu Reginaldo, não nega.
O curta-metragem em questão(documentário) é de Beto Normal, Marcelo Gomes, João Júnior e Gil Vicente . Mesma turma que realizou o ótimo "Cinema, Aspirinas e Urubus"
E como o vento vem descendo...descendo...de Recife a Ribeirão Preto, sigo aguardando ansiosamente o último Chico de Assis "Baixio das Bestas" que está começando a passar no Canal Brasil (já que no cinema eu perdi!)
Saravá pra todos(assistam curtas - entrem no portal acima) e CUIDADO COM A PERNA CABILUDA!
Quanta à ilustração acima a mesma não tem nenhuma relação com o texto. É que por uma questão estética não ia colocar uma "perna cabiluda" no meu blog. Então vai uma antítese. Só pra agradar meu sogro! Afinal..."é disso que o povo gosta"

Brincando com Clarice


Um outro final para uma crônica de Clarice Lispector:

“A tarde, sentada nos degraus de uma escada, em rua deserta do Grajaú, a menininha pobre, ruiva, solitária estava com um soluço seco a incomodá-la.
Nisso, veio passando um cachorro basset ruivo. Parou diante da menina, sem latir. Fitaram-se mudamente. Sem emitir som, eles se pediam: um solucionaria o problema de solidão do outro.
O cachorro foi embora. Incrédula, os olhos da menina acompanharam-no até vê-lo dobrar a outra esquina. “Mas ele foi mais forte do que ela. Nem uma só vez olhou para trás.”
C.L.


Final punk noir decadente:

Mas o tempo passou....a menina que esperava o bonde cansou da espera inútil e foi para casa descansar eternamente. Os bondes já eram.

O sol escaldante deu lugar a uma lua cheia, “noir” e mórbida que resplandecendo negrume transformou a menina em mulher.

Com a lua cheia “dark” e nebulosa o cão virou homem que virou lobisomem. O famoso Lobisomem do Grajaú. Terror das operárias que voltam das fábricas no frio indolente das madrugadas escuras.

E naquela malfadada noite o terrível lobisomem inconseqüente movido por seu lado humano animalesco violentou aquela mulher com toda a brutalidade em todas as posições. De frente de lado, papai mamãe, 69, cachorrinho. Com o passar do tempo tiveram vários e juntaram os trapos.

A tampa e a panela. O problema e a solução.

Hoje encontramos no Grajaú, ao som de tiroteios, um casal de velhos vermelhos com uma ninhada de bassets ruivos às margens da represa Billings dando comida aos cadáveres e fezes que boiam em suas águas. Cheiro de esgoto no ar.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Manifesto Insano


Confesso que no início relutei.

Porém agora depois de um ano entrego sem pudores: participo de uma banda de música “Sábios Insanos”; nos reunimos todos os sábados numa chácara cercada de árvores, passarinhos e cerveja Cristal para tocar The Clash, Sex Pistols, Titãs, Paralamas, Ultraje, Beatles, Eric Clapton, Stones, Tim Maia, Made in Brazil(está é da Manú Zappa/vocalista), Mutantes, Mamonas, Roberto Carlos, Raul, Secos e Molhados, Wander Wildner, Falcão...Arrigo...Martinho... e uma infinidade de outros intérpretes e compositores, bem como algumas músicas próprias. Importante: Tudo sem um roteiro pré-determinado.

Ou seja voltei a ser adolescente de novo. Com 40 anos. A “sabedoria insana” me mostrou que as coisas básicas e simples é que devem valer a pena e ser prioridade nesse meu segundo e derradeiro round de vida.

E hoje para mim o básico é minha paixão “insana” pela música. Não a música clássica tocada em teatros imponentes que também gosto. Não importa se a música é boa ou não se sei tocar ou não. O importante é a reunião, cerveja, os amigos, o bate-papo. E também, claro... a música, o som em toda sua naturalidade e improviso....de preferência Rock and Roll básico. Cru. (até pode rolar um samba! Um “Seu Jorge”!)

Na banda heterogênea e vasto/eclético repertório estão alguns velhos amigos de infância(Os Deléos Fernando e “Jão”) , minha irmã Chris , meu sobrinho André Tinoco a super tatuada Manú Zappa (e quem vai chegando pode tocar!). Pessoas maravilhosas que se reúnem não para ganhar dinheiro, não com finalidades sociais espúrias tão em voga, mas apenas pela reunião nesses tempos em que músico fica o dia inteiro com a cara no monitor como diria o Mirisola: “manipulando seu próprio autismo”.

Meu amigo e mestre Hell “cara rapaz” já me disse isso. O músico hoje perdeu aquele tesão de tocar em grupo; De ficar uma tarde juntos numa garagem ou galpão tirando uma onda e uma música; De se reunir com outros músicos; De improvisar. Hoje tudo é tão eletrônico, tão frio...tão estúdio...., tão computador....tão partitura...tão certinho que o legal é o erro (ou o acerto involuntário). A esculhambação. E nisso a banda é muito boa. Na imperfeição.

Tem uma moça que dizendo-se empresária passou alguns sábados por lá tentando formatar a banda, criar uma “identidade comercial”. Coitada – quebrou a cara e sumiu!(apesar de ser uma ótima pessoa...bem intencionada....e ter deixado metade do nome da banda) Ninguém ali é muito chegado à ordem e progresso.- Aliás sempre achei que a ordem é contrária ao progresso mas isso é outra história -. A banda faz jus ao seu nome, ou seja, um retrocesso/volta às origens movido à insanidade sábia(???); faz jus àquilo que falei lá em cima quanto a “coisas básicas” e do eterno retorno. Nosso objetivo, ou pelo menos o meu é a falta de pretensões. Tocar por tocar...Pra ver onde vai dar. (... rimou/dá até música). É o famoso tesão do Roberto Freire.

Um dia também apareceu um músico “profissa” por lá dizendo que música é 97% transpiração e 3% inspiração. Com todo o respeito discordo. Queremos inverter ou subverter esse percentual. Inclusive o Sr. Pedrazzi está como sempre convidado a ajudar. E muito.

Portanto(e voltando ao manifesto) se alguém me perguntar porque um bando de velhacos(as) quase carecas, mezza calabreza, mezza mussarela se reúnem para tocar rock and roll todo sábado a tarde, tirar uma onda, uma música. Respondo: Não sei...não quero saber...E pergunto – Quem é que pode saber???? Porque por trás de uma ação tem que haver uma intenção?

Uma coisa é certa : os “Sábios Insanos” não vão tocar na Capital !!! A banda passará intencionalmente “a francesa” pelos anos vindouros tocando o seu réquiem antítese da atualidade. Com muito prazer! Obrigado!

Podem fechar as cortinas que o sooommm vai começar a rolar!!!!! E seja o que Deus quiser!
rsssssss

LUIZ TINOCO CABRAL

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Plínio, Lourenço, Marcelos, Daniel , lenha e outros

peça baseada em Plínio Marcos


Aqui estou eu lendo Plínio Marcos, Lourenço Mutarelli, Marcelo Mirisola, Marcelo Rubens Paiva e Marcelino Freire. E o louco do Wiskow. Fui na feira do livro, ver o Mutarelli e o Marcelo. De quebra vi também o Cony e um poeta sei lá o nome dele acho que era Ricardo.

O que dizer sobre Plínio Marcos: Guimarães Rosa da baixada santista. "Das quebradas do mundaréu"

Mutarelli : cartunista depressivo, romancista genial. Tomou 7 doses de Jack Daniels às custas do Cachaça.

Mirisola: um tremendo farsante. Finge tão completamente que finge ser sua dor a dor que deveras sente. E o que pode ser melhor? Saiu da Praça Roosevelt e foi morar no Rio. Pode esperar muita coisa no ventilador.

Marcelo Rubens Paiva: Agora sei o que este cara fica fazendo nas madrugadas da Rua Augusta.(vide foto acima). Ele e o Santiago Nazarian. O bom cientista tem o laboratório que merece.

Marcelino Freire: Achei meio chatinho. Aquela coisa de escritor dos excluídos com pretensões sociais. Um angú de sangue. (melhor quando escreve sacanagem).

E o Wiskow: nosso Bukowski tarado sem bebidinha para acompanhar. (uma mistura de Bukowski com Mutarelli).

E o Cony : tá com mais de 80 e merece meu respeito. E só.

E o tal poeta Ricardo: sei lá. É do sul. Escreve pra crianças e gosta de saraus (urgh!!!)

E a feira do livro de Ribeirão Preto: melhor momento - passagem do som - João Bosco. Tomando um chope no Pinguim. (um não...vários!)

Depois de tudo isso passei um final de semana em Brotas, descendo rio e aquecendo na lareirinha(lenha: 6 reais) . E dá-lhe Daniel. (urgh!).

Este post resurgiu das cinzas. Obrigado ao Mutarelli que está me ensinando "como produzir efeito sem causa". Isso aqui é uma doença, uma demência, uma esquizofrenia.

E desce a lenha, desce a lenha...(essa é de graça - serventia da casa).

segunda-feira, 22 de junho de 2009

vida é luta vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal


Quando vejo este filme chego a uma única conclusão: A vida é trash!!! Como a cara deformada do Mickey Rourke, como as porradas no estomago que levamos diariamente. A trilha sonora da vida é heavy metal. E os anos 90 com sua falta de tudo na área cultural não conseguiu enterrar o Accept, AC/DC, Quiet Riot e o Robertinho do Recife. E viva a Marisa Tomei subindo e descendo no palco escuro da danceteria suspeita. No meio da vida trash resplandece algum resquício de beleza.

domingo, 3 de maio de 2009

crise, crise, crise, crise....

kiss - Andy Warrol


Acho que é até lugar comum já que escuto esta frase quase todo o dia no elevador, mas nunca é demais repetir "não aguento mais essas crises". Crise educacional, crise do sistema de saúde, crise ambiental, possibilidade de endemia, crise no futebol, crise econômica, acho que nos meus quarenta anos nunca estive em um período tão, digamos, crítico.
Mas a solução é simples e veio de uma fonte um tanto quanto improvável - O Presidente do México. "fiquem em casa, não há lugar mais seguro". É verdade. Se todo mundo ficar em casa acaba a crise ou pelo menos não teremos mais que ouvir sobre ela no elevador. Ademais todo este texto só tem uma razão de ser e literária já que este blog não trata de política economia ou outras coisas similares enfadonhas e entediantes.
É que a muito tempo atrás lendo um livro eu grifei a seguinte frase: "A infelicidade do ser humano provém do fato de ele não querer ficar quieto no seu quarto, onde é o seu lugar" Patrick Suskind. Será que o presidente do México leu "O Perfume"?
Mas deixando tais pertinentes questionamentos de lado(O Lula com certeza não leu!) por enquanto só nos resta esperar...esperar....esperar as malditas crises passarem. Elas vem e vão no balanço do mar ou no balanço das horas mostrando que os acontecimentos tomam rumos independentes de nossos desejos. Sinto pena: pena dos aflitos. O sonho é constantemente corroído por uma ferrugem porcinamente cinza e insistente, que vai dominando e enfeiando o espaço, tornando a sala suja e gasta. A brutalidade dos fatos contra a sensibilidade da alma do poeta que insiste em ver o imaginário, sonhar com o intangível e ver escapar o mundo utópico na palma de sua mão. E assim vamos caminhando...caminhando....esperando Godot. E para quase finalizar uma frase de Milan Kundera, colhida no livro Risíveis Amores: "...mas é sempre o que acontece na vida: imaginamos representar um papel numa determinada peça e não percebemos que os cenários foram discretamente mudados, de modo que, devemos atuar num outro espetáculo".
Em tempos de crise lembre-se que o melho alento está na arte, na leitura nos livros. E já que é melhor ficar em casa ? Vai um livrinho aí? Nesses tempos absurdos talvez Samuel Beckett seja uma boa pedida!!! abraços.

sábado, 2 de maio de 2009

coisa de louco


Sabe aqueles dias em que vc acorda, olha no espelho e indaga: - Sou louco?!?
Pois não é só você. Bernardo Bertolucci a muito tempo atrás dizia que a sua maior angústia e medo, relacionava-se ao sentimento de loucura, de não mais conseguir separar a realidade da ficção, emfim, o famoso "medo de enlouquecer".
Mas enfim o que significa esse medo?
É o medo de ser tachado de maluco, da exclusão social, da perda dos direitos civis e de expressão.
A acusação de loucura é a arma dos "normais" contra os "diferentes", que buscam o intangível e fazem girar o mundo.
Bertolucci viveu na pele essa acusação. Foi condenado por obscenidade quando realizou sua obra-prima "O Último Tango em Paris"; foi preso e perdeu o direito de votar, passando então a pertencer a casta restrita da minoria, devido ao patrulhamento indócil contra as minorias em seu País.
Então quando estiver se achando louco. Lembre-se de Jung:
"Não podemos escapar de ser influenciados por conteúdos psíquicos, é nossa condição natural; por isso sempre fico desconfiado quando alguém me assevera que é muito normal, pessoas normais em excesso são apenas loucos compensados. O homem realmente normal não tem necessidade de ser sempre correto, ou de sublimar sua normalidade, ele pode ser possuído por uma idéia, uma convicção, um sentimento, ele pode viver todos os lados de si mesmo e fazer muitas coisas loucas"
Portanto não saia por aí gritando em altos brados aquele jargão daquele impagável personagem interpretado pelo saudoso Francisco Milani: "EU SOU NORMAL!!!!!!!!!!!"
"eu juro que é melhor/ não ser um normal/ se eu posso pensar que Deus sou eu..."(balada do louco - Arnaldo Baptista e Rita Lee); afinal "loucura pouca é bobagem" (Luciano Alves e Sérgio Dias).

quinta-feira, 30 de abril de 2009

em pac ei



Quando vejo um processo demorar 20 anos, vejo que a civilização errou. Kafka estava certo.
Quando vejo edifícios "neo-clássicos" e condomínios fechados. Oscar Niemeyer estava certo.
Quando vejo um carro custar uma pequena fortuna e uma massa homogênea querendo comprá-lo – Marx estava certo.
Quando vejo um fila para comer um Mac Donald’s, e, pasmem, pagar por "aquilo". Fidel e Che estavam certos.( e quem diria... o engomadinho do Príncipe Charles também!)
E se vejo uma infinidade de jovens que não leram Hamlet. Paulo Francis(que não morreu) estava certo
E se vou pela marginal engarrafada... se respiro a merda do Tietê.... se um ladrão quebrou meu vidro e levou meu cd...e se ninguém mais houve a Tetê....Quem estava certo?
Pensando bem...Cazuza estava certo quando cantou que as idéias não correspondem aos fatos....
E se a camada de ozônio não lhe protege mais a cabeça... se cai mais uma árvore na Amazônia... se matam frangos na Europa e porcos no México... se acontece mais uma tragédia na Indonésia...e se chove ácido na China...Esqueça!
VIVA O "CRESCIMENTO"!!!!!!! VIVA O "PAC"!!!!

O sucesso e o fracasso

Há uma distância muito pequena entre o sucesso e o fracasso. O sucesso é quando se têm um objetivo e êxito na empreitada; o fracasso é a desistência.

Marcelo acordou tarde aquela manhã; olhou para o seu quarto sujo e sentiu o odor bolorento de seus armários encardidos. Vestiu uma roupa mofada e, como sempre, saiu para tomar um café preto de coador na padaria da esquina. Dois reais o café e um pão com manteiga passado na chapa suja e encardida como o seu quarto, como sua alma.

Na banca olhou as manchetes do dia; muito sangue, corrupção e sujeira...

Comprou os classificados e passou a lê-los desanimadamente. Lindo dia para procurar emprego pensou sarcasticamente. Lindo dia para se matar, também pensou. Cara ou coroa. Oh! PERDEU.

Saiu em busca de mais uma vaga improvável de “serviços gerais”; afinal dentro da generalidade poderia se dar bem, quem sabe?

Chegando no primeiro “centro de recursos humanos” encontrou uma fila considerável; pobres miseráveis como eu – pensou. Um homem com uma pança de mamute proeminente logo lhe indagou:

–Cadê sua CTPS Sr. Marcelo.
– Perdi, mas posso providenciar uma segunda via é só vocês me contratarem;
- MEU SENHOR!?...passar bem o próximo. Olhares de reprovação.

Atravessou a cidade e foi em busca de outra vaga . Desta vez a fila não era considerável e sim ultrajante; falou para dentro:

– Esses filhos-da-puta... tenho minha dignidade.

Sorriu sarcasticamente para aqueles seres autômatos que na fila se encontravam e saiu em passos largos e vagos. Olhares de reprovação. Teria que dormir com mais esta. Na frente dos patrões sempre era um cabritinho. Como aquele que comeu no Sítio de seu avô em Aramina, Minas Gerais em sua primeira experiência sexual. Afinal de contas também já foi dominador um dia; já teve um animal subjugado à sua própria vontade. Agora pastava pelos campos de concreto armado do Senhor e seus senhores.

– Não devia ter comido aquele cabritinho! Que pecado... – pensou.

Mas o tempo é o senhor do esquecimento. Uma vez lendo um Milan Kundera de segunda mão pensou em ser escritor. Mas para tanto tinha que ser alguém, tinha que ser exilado, ter uma estória política, seqüestrar um político importante ou coisa que o valha. Não tinha culhões para tanto; Era apenas um desempregado fodedor de cabritinhos.

- Chega de devaneios – pensou.

No terceiro pretenso emprego não tinha fila, mas logo viu que não se tratava de coisa séria. Não lhe pediram a carteira, não lhe pediram referências e lhe mandaram para os fundos de um armazém porcamente imundo como sua vida para carregar pedaços de boi nas costas. E por lá ficou num misto de necessidade, desespero e indiferença.

No fim do dia com sua roupa embolorada e úmida agora embebida em sangue de boi recebeu sua diária e a notícia que já esperava:

- Pega essa grana e cai fora vagabundo – serviço só para hoje. MUITO FRAQUINHO.

E esse “muito fraquinho” foi lhe acompanhando no caminho às margens dos trilhos do trem...no subúrbio...até o seu bairro...até o bar do seu João...onde torrou sua mísera diária em pinga barata que logo lhe subiu na cabeça e deu uma amplitude a seus pensamentos e “máximas” que jamais tinha sentido.

Lembrou então que o dia estava mais do que lindo para se matar. A “máxima” veio-lhe à cabeça: “o fracasso é a desistência...”

Definitivamente não teria mais que dormir com este “muito fraquinho” nas costas – pensou pela última vez.

fim da linha ou deadline


Aqui estou eu o escritor solitário, em frente ao computador no meu escritório no 11º. Andar tentando escrever um texto por encomenda. E nada.
Cabeça solta no ar voando....voando...e aterrisando no deserto sem miragens, sem coqueiros e sem mulheres nuas. O deadline chegando.
Tenho que escrever uma crônica, e este “ter” não deixa o “ser” acontecer. Que rima horrível!!! Maldito ofício! E ainda tem tema obrigatório: “Dia de Fúria em concessionária”. Meu Deus do Céu! Minha Virgem Maria!!! E o deadline...
Lembrei-me do Michael Douglas e seu filme “Um dia de Fúria”...alguém já escreveu e filmou sobre o tema com certeza melhor do que eu que sequer começo a desdobrar o assunto; Inveja.
Logo eu um pobre cronista modorrento, buscando inspiração nas paredes brancas do apartamento; outra riminha pobre e sofrível. E o deadline à espreita.
Para não perder o deadline precisava mesmo era de um ghostwriter.(penso). Que abuso de estrangeirismos!; Este texto está uma merda, mesmo sabendo que o uso excessivo de palavras de baixo calão podem transformar o texto numa bosta só!
E quanto mais escrevo mais merda, mais bosta vejo . A redundância, as riminhas e os palavrões novamente....
Lembrei-me subitamente daquele cara que em 1967 num acesso de fúria quebrou o violão no Festival de Música. Como era o nome dele mesmo?Ah....Sérgio Ricardo.(...) grande Sérgio Ricardo (...) E daí?
Sem saber a razão dos Deuses veio em mente aquela música “hoje é festa lá no meu apê” do cantor e compositor Latino! (???) Agora o texto desandou de vez.... Próximo passo: pornografia
Mas escapei dos sites de sacanagem. O deadline falou mais alto.
Fico no youtube vendo várias vezes um vídeo do World Trade Center caindo....desmanchando em fúria....como o tema proposto...como eu; ato contínuo passei para terremotos na Bolívia, maremotos na Indonésia, rebeliões de presos no Brasil.....E NADA.
Maldita falta de idéias Batman!!! ; evite o lugar-comum...evite o lugar-comum...evite os estrangeirismos” (penso). Esse (penso/penso...). Evite os parêntesis...(penso).
O deadline e o estrangeirismo redundante novamente.
Lembrei-me de Ernest Hemingway: “escreva positivamente e com vigor”(...) “- Mas como barba branca? Como? Quem é você para me dizer isso? Logo você que enfiou uma espingarda de dois canos na boca e puxou o gatilho?!”
E após a citação supra ocorreu-me, data vênia, uma frase de um amigo: “quem cita muito não tem idéias próprias” (mais uma citação/mais um parêntesis agravado por um latinismo rebuscado e obviamente desnecessário).
E no turbilhão de falta de idéias, talento, redundâncias, estrangeirismos, lugares-comuns, inveja, parêntesis, rimas pobres, palavrões, latinismos, rebuscamentos e citações, minutos antes do redundante deadline....quem veio-me novamente à cabeça? Sim. Ele: Sérgio Ricardo...O GRANDE...
No meu escritório no 11º. andar arranco com fúria incontida o computador da tomada e mando tudo janela abaixo; o que por óbvio não poderia ser janela acima.
Saio na sacada e grito bem alto como o Sérgio Ricardo: “- VOCÊS GANHARAM! VOCÊS GANHARAM!” (mais uma citação).
E nesta situação extrema termino este texto com a minha velha caneta Bic. (como vocês podem ver)
FIM

terça-feira, 28 de abril de 2009

Seu Jorge Luis Borges e o Informe de Brodie


O cara nasceu em 1989, morreu em 1986. Apesar de ser argentino, dizem...que tinha ascendência portuguesa. Viveu na Europa, mais especificamente em Genebra onde está sepultado. Era um apaixonado por livros e esteve envolvido com as vanguardas de seu tempo. De formação aristocrática , rato de biblioteca e tarado por enciclopédias, escreveu...escreveu...e especializou-se em contos.
Se você procurar em qualquer livraria virtual verá a quantidade de livros escritos por ele e sobre ele. Destaque para "Aleph". Além de contos também escrevia ensaios, poesias etc.
De tanto ouvir falar dele, "personagem borgiano" comprei e li numa sentada o livro "O informe de Brodie" . A princípio relutante já que o tema é de uma crueza total e muito distante da nossa realidade. Tratam-se de contos sobre personagens dos Pampas argentinos, de personagens esquecidos pelo tempo, de estórias de homens comuns, salvos do esquecimento pelo escritor que faz ressalvas em seus contos sobre o caráter ficcional de suas estórias que podem ter sido incrementadas ou não pelo narrador, considerando-se o grande lapso temporal entre os fatos e os relatos ou informes.
Os personagens possuem sensibilidade de pedra a ponto de matar uma mulher para não atrapalhar a amizade entre dois compadres. Duelos são comuns pelos motivos mais banais. Pistolas, facas... A vida nos Pampas só vale a pena enquanto vivida no limite da crueza e maldade. Morrer e viver é apenas um detalhe. A natureza exuberante observa impassível às tragédias.
Temos ainda um conto onde observamos a covardia de um personagem que passa a vida a esconder um crime.
O conto "O informe de Brodie" é uma brincadeira "a la" Pero Vaz de Caminha" sobre um relato de um mundo imaginário e deliciosamente ficticio.
Enfim, Borges é um especialista em contos e escreveu o livro supra já maduro, com todos os requintes de grande escritor que é, dominando a linguagem e a estória como poucos. Alta literatura.
Anotar no livrinho de cabeçeira. (alguém ainda tem isso?) : LER MAIS BORGES, LER MAIS BORGES...

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Marcelino Freire...que figura


Que figura... me deparei com um programa, acho que no Canal Senado onde rolava uma entrevista com Marcelino Freire, que ganhou o Jabuti, principal prêmio literário do Brasil.
O cara escreveu “Contos Negreiros” (livro que abocanhou o Jabuti), “Angu de Sangue” ‘eraOdito” entre outros
Que figura....o cara é meio gordinho, cabeludo, bardudinho, tênis “all star”,, camiseta desalinhada, calça jeans etc. Aquele sotaque pernambucano “arretado”, falando coisa bem interessantes sobre a literatura atual.
Essa coisa do escritor sair do pedestal. Tipo: onde tiver uma festa literária eu vou! É só convidar e eu vou! Essa coisa de escritor ficar recluso não ta com nada! Se estou escrevendo e um amigo me liga para tomar cerveja . “eu vou tomar cerveja” A tuberculose já tem cura....e por aí vai.
Ressalta a importância de “pegar o leitor a unha”, brigar com o espaço cada vez mais saturado, competir com 120 canais com a internet e tudo o mais.....
Que figura...verdadeiro agitador cultural, lendo seus contos observamos uma desenvoltura surpreendente, liberdade de expressão e o que é melhor, humor, muito humor de mais um escritor que se mostra sem papas na língua, sem preconceitos, verdadeiro escritor contemporâneo brasileiro, demonstrando que idéias boas são mais importantes do que todo um rebuscamento desnecessário de linguagem e outras chatices que tornam a literatura inacessível e não competitiva.
Marcelino nasceu em Pernambuco, Sertânia, em 1967 e incorpora está nova literatura, com desenvoltura e sem vergonha de experimentar, já tendo inclusive obras adaptadas para o teatro e televisão.
Entrem no blog http://www.eraodito.blogspot.com/ e não deixem de ler os contos “Caderno de Turismo” e “Homo Erectus”
Entrem ainda no site http://www.releituras.com.br/ para ler os contos “Amor de Poeta” e “Curso Superior” com destaque para este último que é o retrato do jovem atual com diploma embaixo do braço.
"O meu medo é que mesmo com diploma debaixo do braço andando por ai desiludido e desempregado o policial me olhe de cara feia e eu acabe fazendo uma burrice sei lá uma besteira será que vou ter direito a uma cela especial hein mãe não sei" MF
Mais um escritor desta geração que “tem um olhar de gilete. E não é auto-referente como nos anos 70”, chupinzando uma frase de Heloisa Buarque de Holanda da Ilustrada de hoje. O escritor hoje está com as antenas ligadas e viradas para todos os lados.
Ta dado o recado! Leu , leu...se não leu o pau comeu!
Que figura...(ele ou eu?)

Deus o céu e o inferno aqui na Terra


"A música sempre vai achar um caminho até nós, com ou sem negócios, política, religião ou qualquer outra baboseira ligada a ela. A música sobrevive a tudo e, como Deus, está sempre presente"


E por falar em Deus li recentemente "Eric Clapton - A Autobiografia". Verdadeiro "junkie" na vida, gênio da guitarra, tocou e conviveu com nada menos que Jimi Hendrix, Beatles, Rolling Stones, B.B. King....
Nessa vida "junkie" experimentou todas, dormiu com as mulheres mais interessantes do planeta, tornou-se alcoólatra e perdeu o filho em um trágico acidente;
Aos 42 anos se recuperou, ficou rico, casou, comprou um iate teve três filhas e passou a caçar faisões e colecionar Patek Philippes.
Entre crises e recuperações com muita sinceridade Eric Clapton nos mostra toda sua trajetória; do "Cream" até o "AA".
Simples como um Blues. Um ser humano e suas encruzilhadas. Uma verdadeira lenda que sobreviveu.
E sem dúvida alguma a vida , assim como a música eram bem mais interessantes antes do dinheiro abundante..dos faisões mortos...dos relógios precisos...

terça-feira, 21 de abril de 2009

Será?


Ah Ah Ah!!!! E por que não? Por que não brincar com a divindade se ela insiste em ser tão onipresente e ausente ao mesmo tempo? Ora até Carlos Drummond de Andrade já tirou um sarro: "E se Deus é canhoto/e criou com a mão esquerda?/Isso explica, talvez, as coisas deste mundo". Portanto sonhe com Deus! Viajando no espaço sideral numa nave amarela ouvindo "Light a Candle" do Neil Young.

se necessário: http://myspace.com/neilyoung

Luiz Tinoco Cabral

Paulinho Camargo


Olá Regis tudo bem!
- Fala Tinooocooo!
- Então como é que chama aquele pintor que você foi na exposição do Cauim!
- Paulinho Camargo - tá sempre no cinema Cauim! tel 92337454 - Mas não sei se é do seu gosto heim?
- Liguei para o cara....meio ressabiado marcou comigo adivinhem onde?
Chegando no Cauim a primeira impressão não foi boa!(dele comigo). O papa da arte social de protesto deve ter pensado; Quem é este mauricinho de camisa Lacoste que quer comprar meus quadros????
Depois de uns 15 minutos o gelo quebrou - descobrimos amigos em comum. O Regis - o meu primo Marcos Almeida Prado etc. No caminho já botei um Winton Marsalis no carro e o Paulinho adora Jazz. Chegando em seu apartamento os quadros enormes estavam todos apinhados em vários cantos. A casa tá com umas enormes goteiras e caiu um raio e detonou o som do Paulinho(Paulinho praguejou adoidado!!!).
Depois de duas horas vendo os quadros mais inverossímeis e originais, uns muito belos, outros de meter medo em criança(pela temática), escolhi um quadro lindo, chorei muito(no preço) e fechado o negócio chamamos uma transportadora(para o quadro) e já saimos de volta para o meu escritório onde, modéstia parte, o quadro ficou perfeito. Valeu o investimento!
Enquanto esperavamos, muita conversa. Paulinho já foi casado várias vezes, amigado outras mais, teve vários filhos, adora um Pink Floyd, uma cerveja e por óbvio é apaixonado pela pintura. Aliás seus quadros lembram algumas capas dos discos do Pink Floyd, e ele me disse que pinta sempre ouvindo música(por isso que estava puto com o raio!).
Enfim Paulinho é uma figuraça e sua arte é no mínimo muito original de um pintor com muita personalidade e consciência artística. Uma mistura de Dali com Picasso, flertando entre a abstração, cubismo e surrealismo.
Pra finalizar o dia deixei o Paulinho adivinhem onde?
a) No Pinguim?
b) No Pasquim?
c) Na Torre de Marfim?
d) No Cauim?

o amor esqueçe de começar...e o livro de terminar



O Amor Esquece de Começar...e o livro de terminar. Então terminei com ele na página 100.
Sei que é politicamente incorreto dizer isso, inclusive sem conhecer o conjunto da obra e o conjunto de uma única obra(vide parágrafo anterior), o autor tá meio que na crista, o blog dele é legal, mas...vá lá: Fabrício Carpinejar é um porre!!! Mil desculpas as minhas amigas e amigos sensíveis de plantão.
Por muito tempo relutei em conhecer tal obra do tal autor, por tratar-se de livros de poesia, algo que encontra-se distante das minhas buscas atuais(principalmente determinado tipo de poesia e considerando às críticas que li). Mas na Feira do Livro me deparei com um livro de crônicas do cara e resolvi arriscar. "O Amor Esqueçe de Começar" – belo título – meio pomposo mas bonito.
Porém...e sempre tem um porém... não dá para encarar crônica do tipo: "O amor é imprevisível(...)O amor cria sua própria necessidade(...) O amor ilude(...) O amor é como um rio, não deixa de barulhar represado de pedras(...)
Caçamba! Não é mais prático e objetivo e menos cansativo dizer que- O amor: é imprevisível, cria sua própria necessidade, ilude e é como um rio.(???)
Porra tá "barulhando" demais no meu ouvido! Parece até aquela merda de álbum de figurinhas para menininhas debilóides : "Amar é..." "Amar é..."
E tem inúmeras crônicas desse tipo, quer ver? Tá com saco? Então vá lá: "A dor do outro não requer meteorologia(...) A dor do outro é caseira(...) A dor do outro é destelhada(...) A dor do outro é uma árvore ao avesso..."
Ai! Ai! Ai! Doeu não!!!????
Quer brincar mais um pouco – é só abrir aleatoriamente em qualquer página: IHHHH! Caí numa boa: "Gostaria de dormir(...) Gostaria de dar três voltas na chave(...) Gostaria de parecer inteligente(...) Gostaria de me assustar(...) Gostaria de recolher as migalhas(...) Gostaria de sussurrar comida(...) Gostaria de conduzir um táxi(...) Gostaria de espalhar vaga-lumes pela grama..."
Prezado Fabrício Carpinejar, por acaso você não gostaria de catar coquinhos na ladeira também???? Ou ver se eu estou na esquina??? Ah! Ah! Ah!
Hoje estou atacado. Baixou o santo do João Gordo misturado com o Macaco Simão.
Mas o que me irritou mesmo não foi isso. É que além de ser redundante criando imagens de gosto duvidoso o cara tem também a pretensão de ser a Lya Luft de calças. Explico :
"Ser pai não é instruir o filho a lavar o carro, a mijar de pé, a fazer churrasco, a falar palavrão, a desenhar a letra, a namorar a perder a virgindade, a sair de uma desilusão. Não, não é isso.
Ser pai é somente compreender." F.C.
Discordo em gênero e espécie. Com a devida "vênia" ser pai é compreender e instruir.
Mas se fosse só ainda vá lá – escreve uma crônica sobre "gíria masculina" e cria uma situação onde um homem encontra uma antiga colega e comenta com a esposa que: "a garota é de uma beleza exótica".
Que homem em sã consciência falaria isso para a esposa nesses termos???
Completa ainda(pasmem) dizendo que: "beleza exótica, na gíria masculina, talvez renda um caso. É o jeito de ele falar da sensualidade dela, de destacar a volúpia"
Gente...liberdade poética é uma coisa...desconhecimento do tema é outra!
Concluindo. Trata-se de um livrinho bom para você deixar naquela banqueta ao lado da privada no lavabo. As visitas vão achar a capa bonita, você um cara sensível e terão um belo incentivo para castigar a porcelana.

Meu Deus...como eu sou mal...

um banquinho e um doidão


O livro Vale Tudo, o Som e a Fúria de Tim Maia, Nelson Motta, Editora Objetiva, tem tudo para emplacar(e emplacou). A vida de Tim Maia é altamente turbinada, movida a bauretes, garrastazzus, skankzinhos, pó, Chivas Regal e laricas mil.
Muitas frases de alto garbo: "O problema do gordo é que se ele beija, não penetra, e, quando penetra, não beija"
"fiz uma dieta rigorosa, cortei álcool, gorduras e açucar. Em duas semanas perdi 14 dias"
Misturas gastronômicas inusitadas com guaraná, suco de caju e goiabada para sobremesa.
Romantismo à flor da pele: "Vamos dar uma binbadinha?"
Alta filosofia: "Tudo é tudo e....nada é nada"
E por fim muito som e soul, afinal: "quem não dança segura a criança!"
E depois de tantas e todas no domingo, 15 de março de 1998, "o coração do gordinho mais simpático da Tijuca parou de bater", deixando o Universo em desencanto.
Interessante para ler acompanhando as músicas no site: www.objetiva.com.br/valetudo
Bom divertimento!!!! Agora vou dormir porque só quero sossego! Quero ficar bem à vontade na verdade eu sou assim!!! (este último parágrafo é uma homenagem ao grande piadista Jairo Galvão Pinto)

o mago em um trago


"conheceis a verdade, e a verdade vos libertará"


Foi assim numa tragada. Livro fácil de ler, afinal Fernando Morais consegue transformar até a vida de um simples lixeiro, em retrato de época. Fernando Morais não é mais um biógrafo é “o biógrafo” desde “Olga”, desde “Chatô”.
A vida de Paulo Coelho é muito interessante e compartilho de sua opinião quanto a verdade e admiro sua coragem em “abrir seus baús” para o biógrafo como fez, e de ter esculachado o Roberto Carlos que fica tentando esconder o impossível, considerando suas “personas” públicas.
Mas ao acabar o livro, embora todo o esforço de Fernando Morais seja louvável, já que assume que simpatizou-se com o biografado, fica a seguinte pergunta?
Dá para embarcar nesse navio??????????????????????? Explico.
Fernando Morais tenta...tenta...e tenta dizer que todos os brasileiros são preconceituosos, enquanto no resto do mundo Paulo Coelho é uma unanimidade como escritor; que no Brasil a crítica é preconceituosa em relação a sua obra. Ora. Será?
Sinceramente tentei embarcar mas NÃO DEU! O livro só reforça a minha opinião anterior baseada em conceito e não em preconceito(já que li alguns de seus livros e críticas), que o cara é picareta puro! E agora com essa biografia autorizada - picareta assumido!
Paulo Coelho é o cara que não escreve em razão da alma, mas em razão do lucro, que inventou essa estória toda de bruxarias para vender livro e que almejou a vida inteira estar na Academia Brasileira de Letras por pura vaidade!
O que esperar de um escritor que:
a) tem que consultar o “I Ching” para tomar uma decisão importante e filiou-se ao satanismo?
b) Que tem que dar a bunda para descobrir que não é homossexual?
c) Que inventou a coleção “Poetas do Brasil” para locupletear-se as custas de pobres escritores amadores?
d) Que deixou sua namorada a mercê de um algoz no DOI-CODI por covardia?
e) Que quase matou uma criança por atropelamento e fugiu?
f) Que no seu primeiro livro plagiou um conto inteiro e contratou a preço de banana um ghost-writer ?
Sinceramente não sou reacionário. Sou até liberal, muitas dessas perguntas faço apenas para ilustrar, mas perdôo quase tudo com as seguintes respostas:
a) Religião não se discute e o esoterismo é moda;
b) Sexo não se discute e o cara viveu na época do experimentalismo.
c) Vivemos num País capitalista e temos que ganhar dinheiro de alguma forma;
d) Que as reações ao sofrimento são muito particulares, e variam em cada ser humano(uns mais fortes outros mais fracos);
e) Paulo Coelho era apenas um adolescente assustado.
f) Não perdôo – plágio e falsidade ideológica é crime!(muito embora no seu caso já esteja prescrito);
Portanto a única questão imperdoável no livro e na sua vida é a relacionada àquilo que ele se tornou. Escritor. O cara escreve mal! Plagiou até o Carlos Heitor Cony? Entrou na Academia Brasileira de Letras só porque segundo os catedráticos “o milho era bom” ou seja por questões financeiras; “só é o que é” hoje em face de sua grande capacidade de produtor, vendedor e marqueteiro de si mesmo. O livro deixa bem claro isso! (sem contar a sorte e seus fiéis escudeiros...)
Concluindo – “O mago” é um bom livro como retrato de época , como relato histórico da degradação cultural em que vivemos, da massificação e da simplificação. (vide quem são hoje os ícones do jet set internacional....os ronaldos....os coelhos....a família beckhan e demais mulheres “carecas” da vida!)
Saliente-se ainda que a própria vida de Paulo Coelho é muito melhor do que qualquer de seus livros. Sem dúvida vai dar um belo thriller cinematográfico hollywoodiano.
Sinopse: Rapaz desacreditado pela família, pela escola, mal aluno, drogado, prostituído, roqueiro que depois de viagens diversas, choques e experiências esotéricas a despeito de todas as críticas desfavoráveis torna-se um dos escritores mais lidos no mundo!!!!
Uau.....o inferno e a redenção.
Agora; o livro sobre sua vida deveria acabar com uma citação de Nelson Rodrigues, este sim um grande escritor: “A UNÂNIMIDADE É BURRA”
Se quer a biografia de um grande escritor leia “O Anjo Pornográfico” de Ruy Castro.
Êta lingüinha ferina; que os orixás me perdoem....babalaoôoooooooooooo.......

domingo, 19 de abril de 2009

Daniel vai pra galera!

escultura "cavalo a tropeçar" do genial Salvador Dalí


Animado pela não tão recente adaptação cinematográfica ("Cão sem Dono" de Beto Brant), baseado em livro do autor acima, Daniel Galera, resolvi conhecer algo mais do escritor multimidia da novíssima geração de escritores do sul do Brasil, mais especificamente o livro de estréia na Companhia das Letras, "Mãos de Cavalo", quase um primeiro romance de um escritor de apenas 27 anos, que começou escrevendo na internet e agora atinge o mainstream tão em voga nos dias atuais. Verdadeiro escritor/personalidade, que inclusive toca numa banda de Rock "sem compromisso".
Vai passear muito em festas literárias meu filho!!!!!! Quem sabe tomar uma cuba libre com Pedro Juan Gutierrez.
O livro nos mostra uma cidade de Porto Alegre na visão de um personagem, Hermano vulgo "Mãos de Cavalo", em diferentes fases de sua vida, na infância, adolescência e vida adulta e como o passado acaba por influenciar e direcionoar equivocadamente suas escolhas no futuro, na já citada vida adulta, levando-o a enfrentar desafios de um vazio profundo(uma escalada na Bolívia com um amigo estranho) um casamento de aparências, apenas para justificar a covardia reinante em fases anteriores de sua formação, na infância e na adolescência.
Então é um livro que Freud explica! Ou não explica? ou complica para depois descomplicar!?
O narrador leva o nosso "hermano" adulto e suas mãos incomuns a um retorno improvável ao passado, aos primeiros tombos de bicicleta, à primeira namoradinha, aos amigos impagáveis e muitas vezes violentos e apaixonantes, ao primeiro contato com a morte e principalmente à covardia que deixou um amigo(Bonobo) agonizar e "partir desta para melhor".
O livro aliás tem tudo a ver com a frase de Nicolas Cage que o precede: "Eu caminhava para a escola e ia imaginando planos em que uma grua subia aos poucos e me via lá embaixo como um pequeno objeto no meio da rua, caminhando para a escola".
Daniel portanto foca sua grua com sua câmera para diferentes pontos de partida, para diferentes momentos da vida do protagonista, como se ele mesmo(protagonista) fosse o diretor do filme.
O livro é um tanto quanto porto-alegrense, para alguns críticos "bairrista" sofre de falta de estilo sendo que em alguns momentos o autor prefere a linguagem chula das ruas para depois rebuscar o texto. Ou seja nos dá a impressão de alguém ainda em formação. Não completo.
Mas com um pouquinho de condescendência(o cara é novo e coisa e tal...), deixando a nossa frescura de lado dá até para encarar.
Voilá! Existe algum lirismo, alguma poesia nesse retorno às origens de forma tão singular. A história em três tempos ajuda a não cansar e manter o interesse do leitor, mas por momentos sinto(o que aliás é normal) em escritor tão novo, que ele perde a mão e com o devido respeito à liberdade de expressão: "enche um pouco a linguiça" e entra num detalhamento na maioria dispensável.
Mas enfim. O livro tem que ter várias páginas né!!!!! É a maldição do romance.....
Livrinho bom para ler na minha querida Delfinópolis, MG, entre trilhas, cachoeiras e pedaladas.
E como ando metido à ciclista atualmente, transcrevo um trecho onde Daniel define o seu ciclista urbano : "suas pernas possantes forçam alternadamente os pedais, direita, esquerda, direita, esquerda, medindo a inclinação da subida a partir da força exigida dos músculos da coxa e da panturrilha em cada volta completa da coroa dianteira. As solas dos pés e as palmas das mãos processam cada vibração transferida dos pneus para o guidom e para o quadro da bicicleta, fazendo microajustes de direção e equilíbrio numa velocidade mais rápida que a do pensamento. O trecho de subida que é preciso enfrentar ao sair de casa é curto e serve para azeitar as articulações e aquecer os músculos."
Uau! Será que o Daniel é ciclista? Vou convidá-lo para andar de bike com nossa turma qualquer dia destes! Quem sabe ele me esclarece se as crianças peladas escalando a montanha de pedra na capa do "Houses of the Holy" do Led Zeppelin são ou não são os filhos do Robert Plant.
Não entendeu? Então leia o livro "Mãos de Cavalo" de Daniel Galera, Cia das Letras, 1a. edição, página 136.

Rita Lee mora ao lado Henrique Bartsch


A um tempo atrás li o livro em questão. Em Poços de Caldas. Muita charretinha de bode, muitas fotos no avião, passeios de bondinho, banhos termais, água quente, chá-verde, enfim, toda a calmaria que não se encontra na vida da nossa junkie psicodélica.
Nosso conterrâneo Henrique Bartsch, foi muito feliz, ou, sei lá, captou uma mensagem do além, e transformou a biografia da musa do rock nacional, em um romance ficcional com pitadas de realidade mescladas com muitas situações absurdas, ou seja, a chamada do livro está correta: "uma biografia alucinada da rainha do rock"
Soube muito bem o autor captar o espírito da nossa biografada. Parece em determinados momentos que ele também bebeu uma garrafa de Whisky, ou tomou um ácido, ou fumou uma maconha.
Parte da idéia de um filme "A Vida de Brian" e cria uma personagem chamada Bárbara Farniente, vizinha de Rita Lee, que leva a sua vida paralelamente e influenciada de alguma forma por Rita.
Num misto de admiração e inveja Barbara vai contando de forma ficcional a vida de Rita Lee, se inserindo na estória como aquela que acompanhou as vezes longe, às vezes pertíssimo, todas as alegrias e desventuras de Rita Lee, sem poupar o lado negro, o lado podre etc.
E a estória é riquíssima, principalmente a primeira parte baseada na biografia dos Mutantes escrita por Carlos Calado.
Ficamos sim sabendo do relacionamento com Arnando Batista, sua tentativa de suicídio, da trajetória nada convencional dos Mutantes, das idas e vindas com Roberto, das intimidades com os filhos, das "bad trips" que sempre eram entendidas pela mídia como tentativas de suícido...do seu Sítio em Caucaia e das suas buscas pelas ciências ocultas e sentidos para a vida, suas viagens para o Caribe, Europa, suas atuações políticas na defesa da natureza e dos animais, das músicas, dos discos que arrebentaram(outros nem tanto!) da sua briga com o Giron etc, de sua nada agradável passagem pelo Rock in Rio tudo de uma forma muito leve inventiva, nada convencional, com muitas citações pop e personagens do mundo das artes brasileiras e internacionais, tudo regado obviamente com sexo, drogas and rock and roll.
Com esses ingredientes não é necessário dizer mas vá lá: Delícia de leitura!!!!! Pena que o livro acabe tão rápido!
Enfim, como eu adoro citação, a personagem Barbara Farniente resume bem quem foi Rita Lee e qual foi sua trincheira: "Rita Lee vem matando as Amélias de tempos em tempos e merecidamente, pois aquelas jamais foram mulheres de verdade. Ela deu a cara para apanhar e não recuou um milímetro. No Evangelho, segundo suas letras de música, para quem souber separar o joio do trigo, estão os ditames da nova mulher"
Uau! Bela e merecida homenagem!

sábado, 4 de abril de 2009

De novo...Bukowski


Bom...mais uma vez Bukowski....com este cara eu vou até "ao sul de lugar nenhum". Título de mais uma coletânea de grande qualidade lançada aqui no Brasil.
No livro temos o autor em grande forma e o que sempre me impressiona em Bukowski e a genialidade proveniente da simplicidade de seus textos. Como ele consegue dizer tanto com tão poucas palavras; a sua capacidade de descrever personagens com tão pouco....
E os personagens estão ali. Vivos na nossa frente: as mulheres duvidosas; os bandidos; os corruptos; os vagabundos de todos os gêneros.
Alguns críticos observam que Bukowski é um escritor de um tema só. Não concordo! Bukowski consegue extrair com muita qualidade vários temas de um tema só; onde poucos escritores ousam aventurar-se.
Um escritor de verdade! Da verdade. E ainda faz caricaturas dele próprio - vide acima os traços da charge lembra até um pouco o Henfil.

Sabedoria do nunca mais Deus me livre!


"sou o herdeiro de uma lenta traição e, a cada tarde, as palavras condenadas realizam em mim seu jogo aberrante e vão me afastando do centro"

Esse Juliano Garcia Pessanha autor de "Sabedoria do Nunca" deve ser um cara terrível, viver numa pocilga lúgubre, numa cidade que chove o ano inteiro, comer comida barata e bebida vagabunda....trepar então...melhor deixar para lá!!!!
Nunca vi tanto pessimismo enrustido em um texto que com muita propriedade revela a trajetória de um "não nascido" considerando a sua impossibilidade de adequar-se à uma vida angustiante do mundo convencionado, aquele que recebemos já feito, no berço, com regras pré-determinadas.
O personagem vai brigando com as regras da vida até paralisar-se totalmente e terminar na promessa de um exílio eterno um eterno "vir a ser". Gostou?
Mas não é pra qualquer um não! Confesso que por não ser filósofo(e poeta) como o autor fiquei por alguns momentos mais paralisado que o personagem principal. Estupefato!!!!(ainda bem que estava sozinho e ninguém viu minha cara de patso!)
Enfim o cara escreveu o livro para ser entendido na sua integridade por ele próprio e por mais dois cabeludos da Filô!!!
Mas para um leigo atento é possível extrair pérolas como estas: "O homem é um súdito do tempo, este sim, o verdadeiro demiurgo que nos inventa e nos desmancha: é o tempo originário que jogando conosco faz com que sejamos, simultaneamente, hóspedes e estrangeiros nesse mundo".
"quando eu te revi já era tarde demais. É sempre tarde demais nesta terra de metamorfoses"
"vejo todos os acontecimentos se desdobrarem até um final banal e me mantenho fora deles para não contrariar minha lucidez. Quando era possuído pelos erros, minha vida era repleta de eficácia; repleta de "história",,,"
Uau!!!Poesia pura não?
No dizer de Heitor Ferraz : "A falta de identidade de Z é um piparote na cabeça do leitor, já que esta é a nossa própria condição, o nosso próprio sentimento contínuo de exílio"
E eu lendo este texto depois de uma semana em Fortaleza, aquele puta sol maravilhoso, os caras fazendo Kite-Surfe, eu tomando uma Heineken geladinha e observando o mar e as estrelas em canoa-quebrada ao som dos bons ventos constantes!!!!!
Até que foi bom para "cair a ficha", " cair na real" e sair da letargia dos bons ventos constantes.
E lá em Fortaleza quando vc pede para alguém tirar sua foto este alguém não diz "olha o passarinho!" Ele diz: "-ÓLHA Ô JÉGUE" eh eh eh!!! piadinha para descontrair um pouco. Depois deste livro eu tô precisando!!!!

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O lobo do mar Jack London


A brutal história do terrível capitão Lobo Larsen escrita em 1904 por Jack London une várias paixões. Mistura livro de aventuras com romance filosófico, criando um clima todo próprio, de uma brutalidade a flor da pele, numa constante tensão.
Tudo começa quanto um aristocrático senhor na condição de náufrago é socorrido pela escuna "Ghost", de saída para uma temporada de caça às focas nas cercanias do Japão.
Então o Sr. aristocrático que sempre ateve-se ao mundo irreal dos livros, que sempre teve empregados para lhe servirem, vira servo do peculiar comandante Lobo Larsen, e entre vários questionamentos existênciais, serviços na cozinha e diálogos impagáveis transforma-se em imediato, aprende a trabalhar e a defender-se, liberando o seu lado selvagem até então desconhecido.
De quebra torna-se confidente e tutor de seu algoz(o comandante) em intermináveis discussões baseadas em Nietsche, Darwin....
Ainda de quebra recolhe uma náufraga escritora de renome e descobre o amor...e sua capacidade de amar e odiar e defender seu amor. As cenas de amor são de uma ingênuidade que só poderia existir exatamente a um século atrás, quando o livro foi escrito.
O personagem Lobo Larsen é um dos vilões mais bem construídos de toda a literatura; daqueles vilões que não conseguimos esquecer tão cedo. Inteligente, culto e proporcionalmente maldoso. O capítulo em que Lobo Larsen resolve dar uma lição ao imundo cozinheiro da nau, deixando-o amarrado na proa do barco, banhando-se no mar gelado a contragosto até o malfadado ataque de um tubarão que lhe arranca o pé é uma das cenas mais terríveis que já li. Não só pela cena, mas pela indiferença com que tais fatos dentre outros são tratados naquele mundo próprio e tão distante da civilização a que pertencemos.
Dentre outras passagens temos as caçadas e os banhos de sangue das focas no gelo, guerra de barcos entre irmãos, humilhações que deixariam em pé a Dr. Margarida Barreto, uma das maiores estudiosas do Brasil da nova matéria tão em voga no direito: "Assédio Moral".
Além do que Jack London tem uma escrita bem formulada; de prender qualquer um do início ao fim.
Mais uma dica meus amigos....vamos ler...vamos escrever...Vivas à Martin Claret que nos dá entretenimento de qualidade à 10 reais.

basta um verniz para ser feliz


Mais um livro de Mirisola para desgosto de meu cunhado o músico e jornalista Regis Martins.
Mas vou fazer o quê? Adoro o cara, seu deboche, seu sarcasmo e tudo o que escreve sobre a classe média, seus sonhos de consumo e esses personagens tão comuns nos subúrbios das grandes cidades e nos litorais "descolados".
Marcelo Mirisola segue a risca os ensinamentos de outra grande escritora Márcia Denser que em determinado momento escreve:
Posteridade (uma reflexão com dor) "O que você vai ser quando morrer,Posteriormente como será lembrado,Como um pós-consumidor?"
Nesse livro de contos temos uma pequena obra prima: "Basta um Verniz para ser feliz", um conto visceral que gostaria de ter escrito.
Começa assim: "O que eu gosto nele é a vida minúscula e bem-sucedida que leva. O medo de mostrar o rabo, sujar a gravata. Duarte jamais vai cagar em cima do bolo de aniversário. É do tipo que freqüenta sauna finlandesa às terças-feiras e reputa uma ‘personalidade vitoriosa’ por conta e obra da colônia importada que usa depois da barba: “gasto mil dólares por mês com a educação das crianças”, para ele a vida é um barbear rente, hipócrita e macio, “outros tantos em Pet-shop, treinador”; e tudo, desde o nome (ou marca, tanto faz) do “Colégio” das crianças até a conta do veterinário, absolutamente tudo, poderíamos incluir plano de saúde e câncer no cu, é uma sinopse deste sentimento comprado de vitória e frescura depois da barba. Duarte é um babaca."
Já li várias vezes o conto e não me canso!!!! Não vou transcrevê-lo na íntegra por que aqui não é espaço para tanto. Mas também não me canso de dizer: Leiam Mirisola...Leiam mirisola. Para desgosto de Regis Martins.
Para quem não quer gastar grana com livro, o que reputo um absurdo, entre no site http://www.klickescritores.com.br/ e procure o conto mínimo "basta um verniz para ser feliz".
Absurdo maior e repetindo mais uma vez neste blog: é não ler Marcelo Mirisola; de quebra leiam Márcia Denser.

Putas Assassinas Roberto Bolaño




De volta aos autores latinos, e aos títulos improváveis, o livro de Contos "Putas Assassinas" de Roberto Bolãno é um primor de situações inusitadas e excentricidades de seus personagens - todos muito bem construídos, como por exemplo o estilista necrófilo(sob a ótica de um espírito no ato da profanação de seu cadáver), o jogador de futebol místico e africano(sob a ótica de outro jogador colega de quarto e companheiro de rituais pagãos), a puta assassina(sob a ótica de uma vítima no momento da tortura e sob o discurso dela própria) e o próprio autor sob a roupagem de escritores exílados de forma espontânea... errantes.
Enfim, mais uma delícia, de um escritor carismático e boêmio de muita imaginação, que passeia tranquilamente em várias cidades do mundo, ora escrevendo em Barcelona, ora no México, ora no Chile, chegando a receber críticas de peso e atualmente estudado por literatos e descoberto como uma renovação do realismo mágico. O cara virou "autor cult", seja lá o que isto seja.
Para variar no Brasil apenas começa a ser percebido agora...tarde...
Dica de leitura "Os Detetives Selvagens" de Roberto Bolaño.
Enfim me recuso a descrever os contos sequer sucintamente já que a surpresa é a alma do negócio.
Tá feito o convite! Surpreendam-se inclusive com algumas declarações do autor sobre literatura, mecenas e escritores medíocres. Vide entre aspas abaixo:
“A literatura é uma selva em que a grande maioria dos escritores é formada por plagiários. Existem alguns jovens com voz própria, mas não sabem escrever. Então, freqüentam a universidade para aprender e, quando já sabem, não têm mais voz própria.”
“Nunca tive um mecenas, jamais ganhei uma bolsa de estudos, governo algum me ofereceu dinheiro, nenhum cavalheiro ou senhora elegante sacou seu talão de cheques. Meu verdadeiro mecenas não é o diabo nem o Estado. É o vazio.”
“Não há nada escrito por mim que me faça sentir seguro. A minha foi uma vida medíocre e isso sempre te salva no último minuto, ainda que, em certas ocasiões, nem isso. Vale dizer, a memória te salva, te exclui dessa turba infame de esritores medíocres que duvidam pouco e pisam forte.”

Peter Baiestorf - sangue e mulher pelada


Maior personalidade de Palmitos- SC , videomaker, diretor e produtor de mais de cem títulos dentre eles o grande: "Super Chacrinha e seu amigo ultra-shit em crise X Deus e o Diabo na Terra de Glauber Rocha(ou - "Ainda bem que Jimy Hendrix morreu"), ou ainda o cult "Sacanagens bestiais dos Arcanjos fálicos", ou o político "Porquê??? Porquê sou brasileiro!!!!". eh eh eh!!!! Com certeza os títulos são melhores que os filmes!!!!eh!eh eh!....
O maior sucesso de Baiestorf foi o filme "Zombio", trash ao extremo foi renegado por Petter que esclarece: "tá tudo certo as luzes, o figurino nem parece que fui eu que fiz?!"
Conheci o figura acima no documentário que dá título a este post direção de Christian Caselli(pode ser acessado no porta-curtas), onde observamos uma entrevista bem humorada do Petter e seus discípulos, onde eles procuram levar ao extremo o "faça você mesmo", sem aula, sem aprendizados... mesmo que seja uma merda!!!!
E não é que temos um universo interessante(???). Adubo em profusão(no sentido de - excesso de liberdade). Larga mão de preconceito e entre no site :
http://www.canibalfilmes.bulhorgia.com.br/
Afinal como diz a música do Zeca Baleiro: "se minha vida agora é cool, meu passado é que foi trash"
Ahh!...ia me esquecendo; Aproveitem logo já que Baiestorf quer largar a produção de videos e sair pelo mundo em busca de artistas como ele e escrever um livro sobre a sua arte trash...artistas trash espalhados por aí!!!
Estão vendo? Falta tudo menos projetos!!!!......E nós aqui com estes pudores da classe média recalcada!...
Fico com André Malraux(1901/1976) romancista, ensaista, cineasta e Ministro de Estado: "A Arte é uma revolta contra o destino".
Afinal o que seria de Palmitos sem Petter Baiestorf??

terça-feira, 31 de março de 2009

marlboro mar mal lobo bar amor bolor rombo orar...


Recomendo sem pestanejar o escritor Perunano Julio Ramón Ribeiro(1929/1994), um dos maiores contistas e "diaristas" peruanos que terá o primeiro livro editado no Brasil pela Cosac/Naif.
Mas não é necessário esperar. Basta comprar on entrar no site da Revista Piauí mês de maio de 2008 para ler o surpreendente conto "Só para fumantes" onde o autor conta a saga de um escritor/fumante desde o início do vício até o término de seus dias e a relação entre tabaco, literatura, vida e vício.
Mas o interessante é que o escritor narra sem querer tirar do conto "uma conclusão, nem uma moral" tanto é que a partir de um certo momento sua história passa a se confundir com a história de seus cigarros e como a literatura tratou o cigarro em suas linhas citando Thomas Mann e Italo Svevo esse último prestando o seguinte depoimento: "Escrever é para mim um ato complementar ao prazer de fumar"
Do Derby para os Chesterfield do Lucky ao Marlboro vamos respirando fumaça...com muita ironia até que o personagem esclarece meio sem querer o mote que leva uma pessoa a fumar ou se dedicar a vícios não saudáveis.
"de nada servia perceber melhor a pureza do ar marinho, o aroma das flores e o sabor das comidas, se a própria existência tinha se tornado insípida"
São ou pequenos venenos necessários que movem as pessoas...que movem o mundo!
Saliento que odeio cigarro! Mas adoro ler um conto bem escrito como este.
Boa leitura!!!!!!!!!!!!

domingo, 29 de março de 2009

Paulo Polzonoff Jr. "O cabotino"

Nós sempre buscamos o popular, o anti-acadêmico neste embate constante contra aos textos chatos da vida. Já fiz oficinas, já li livros de auto-ajuda e foi com grande surpresa que li este pequeno livro “de uma sentada”, que talvez tenha servido mais do que algumas oficinas literárias que participei. Paulo Polzonoff Jr com seu “guia de anti-ajuda para literatos” acaba ajudando muito. Mais vale um sarcasmo na veia do que mil boas intenções placebentas. E nesse espírito nos deparamos com este texto desabafo, esta anti-tese com muito humor, onde o tesão do Roberto Freire fala mais alto do que o tesão dos “doutores” da Usp. Dentre as dicas para pretensos escritores(como eu) temos em suma(mesmo sabendo que Polzonoff Jr. detesta “em suma”): “escrever não é uma atividade lúdica”, necessário afastar “o mito da musa”, muita tentativa e erro, de preferência longe de alucinógenos diversos, longe de ambições pretensiosas e de erros crassos como a narração em primeira pessoa descarada “ninguém quer saber da sua vida” tacanha e medíocre, “escrever é criar um mundo exterior a realidade”; fuga obstinada do lugar-comum(o narrador que cai do céu, reencarnação e, o livro “epistolar” e o “livro-diário” são mesmo de amargar!); assim como o hermetismo e escatologias, falta de pontuação e não-linearidade( em artifícios gratuitos).
O escritor/leitor/crítico ainda dá umas dicas quanto a utilização nefasta da mesóclise, latinismos, “método pelo método”, simplificação demasiada do texto (“a ejaculação precoce literária”), em suma “se você não tem nada para dizer e acha que pode escrever nada e ainda ser aplaudido” por favor desista!!!! Pelo amor de Deus!!!
Sem contar os vernizes, discursos, influências, apêndices, prefácios, foto, capa, noite de autógrafos, relação com a crítica etc...ufa!!! Realmente. Para que ser escritor??? Essa é a pergunta final do livro. Algumas respostas dos antigos e verdadeiros escritores : Ambição de imortalidade....ser o melhor...ser respeitado...
Não sei...assim como Polzonoff conclui que não tem certeza de nada, muito embora tenha suas convicções muito bem abalizadas com a minha concordância quase irrestrita, tenho lá minhas dúvidas. Acredito ainda que as pessoas escrevam para superar exatamente aquilo tudo que ele demonstra com perfeição “quase” acadêmica. A banalidade, a mediocridade e a falta de sentido da existência, sendo que na maioria dos casos a empreitada torna-se uma real “missão impossível” por vários aspectos muito bem sugestionados mas principalmente por aquele que considero o primordial – falta de cultura, leitura dos clássicos, estudo, etc.
Em suma com este belíssimo ensaio e sua “sincera sugestão” Polzonoff não conseguiu desmontar o pretenso escritor aqui. Muito pelo contrário, é deste tipo de debate com clareza que necessitamos.
E ponto final. Ahhhhh gozei precocemente. Maldito ponto final. Eu não resisto!


ps – o livro “O Cabotino” pode ser adquirido gratuitamente no formato e-book no site : http://www.osviralata.com.br/

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