quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O herói discreto Mário Vargas Llosa

The Women Bathing 1929 - obra de Tamara de Lempicka

Dos prazeres que me restam como homem casado além das alegrias do leito conjugal e oficial e o som da novela  entrando pelas vísceras me sobra ler bons livros. Desta feita confesso: Sou fã de carteirinha do Mário Vargas Llosa , escritor que admiro sobremaneira  acompanhando os altos e baixos de sua carreira como romancista. Simplesmente adoro “O paraíso é na outra esquina” e “Memórias de uma menina má”. Seu último livro “O herói discreto” é um livro discreto. Daqueles sem alarde, sem arroubos de política ou grandes saltos estéticos de um escritor que não tem que provar mais nada para mais ninguém. O Esquema de duas três estórias paralelas e intercaladas que se encontram vagamente ao final continua lá. O resgate de antigos personagens de outros romances também continua lá. Afinal o escritor tem um estilo próprio ao escrever, tem suas cartas na manga, tem 78 anos e nenhuma necessidade de mudar o time que efetivamente joga bem e efetivamente ganha. Porque não? A critica é impiedosa, sempre espera algo novo ainda mais depois que ele ganhou o Nobel de Literatura e se envolveu com política num passado próximo. Só vejo criticas negativas ao livro. É difícil para algumas pessoas pensar, imaginar vagamente  que o escritor quer apenas contar algumas estórias e se divertir com elas sem segundas intenções. Afinal escrevemos para quê? Para influenciar ou para entreter? Porque não as duas coisas sem maneirismos ou afetação? E é somente isso. Um livro sem maneirismo e afetações que trata superficialmente “en passant” de questões como ética e retidão de caráter num mundo materialista. A dificuldade da honestidade no mundo moderno. O medo coletivo. Os personagens principais Felicito Yanaqué e Rigoberto passam por inúmeras dificuldades e provações para manter seus princípios ante às tentações mundanas e triunfam em um final edificante. Os personagens se dão bem ao final e isso a crítica não perdoa. Acusam o autor de neoliberal já que um protagonista é empresário bem sucedido e o outro funcionário/advogado graduado de uma grande empresa. E porque não? Só tem valor escrever sobre artistas do underground que bebem e flertam com o suicídio 24 horas por semana? Acusam-no ainda de novelismo, irrealidade etc.  Com o devido respeito às opiniões divergentes não aceito. As estórias estão bem engendradas e se sustentam e nos impulsionam para a continuação, para o capítulo seguinte sem nenhuma dificuldade. Li o livro em dois dias até perdi a noção do tempo. Os personagens estão bem constituídos, passam na prova do CPF e do RG, e embora tipos comuns, deixam a impressão de magnitude, deixam uma mensagem, ou seja toda essa lenga lenga e para dizer que os personagens deixam o seu recado, a que vieram. Um romance tem que cativar o leitor. E cativa. Ademais sempre achei que o Rigoberto é o alter ego do Llosa. Aquele cara no fim da vida bem casado  que quer curtir as alegrias do leito conjugal e oficial, seus livros, suas gravuras ao som de boa música mas é convidado frequentemente a lidar com toda a urbe ensandecida, críticos mesquinhos e com  essa estranha realidade massacrante do dia a dia  que nos envolve. Talvez não perdoem o escritor devido a esse atual e bem dado piparote na página 180 : “a função do jornalismo nesta época, por exemplo, ou pelo menos, nesta sociedade não era informar, era escamotear toda e qualquer forma de discernimento entre a mentira e a verdade, substituir a realidade por uma ficção na qual se manifesta a massa oceânica de complexos, frustrações, invejas, ódios e traumas de um público corroído de ressentimento e pela inveja. Mais uma prova de que os pequenos espaços de civilização nunca prevaleceriam sobre a incomensurável barbárie.” Mais atual impossível não? Basta ir na banca e ver a capa da última “Veja”. Enfim pode ler sem culpa ou vergonha. Pra finalizar e dar um piparote em você leitor que não acredita no seu próprio potencial artístico (como eu) destaco o diálogo abaixo entre o filho Fonchito de 14 anos e seu pai Rigoberto retirado das páginas 185/186, lembrando que Deus perdoa tudo menos a covardia. Se a carapuça servir já ta valendo. Lá vai: “-Sobre você papai. Você sempre gostou de arte, pintura, música, livros. É a coisa de que fala com mais paixão. E então, por que foi ser advogado? Por que passou a vida inteira trabalhando numa companhia de seguros? Você devia ser pintor, músico, sei lá. Por que não seguiu sua vocação? Dom Rigoberto assentiu e pensou um pouco antes de responder. – Por covardia, filhinho – murmurou afinal –Por falta de fé em mim mesmo. Nunca acreditei que tivesse talento para ser um artista de verdade. Mas talvez fosse só um pretexto para não tentar. Decidi não ser um criador, e sim um mero consumidor de arte, um diletante da cultura. Foi por covardia, é a triste verdade. Então é isso. Não vá seguir o meu exemplo. Seja qual for a sua vocação, vá fundo com ela e não faça como eu, não a traia.” E aí serviu? Como uma luva não é? Esse espaço agora passa a ser de auto-ajuda também. Agora vamos ler o Cântico dos Cânticos que está no livro mais erótico do mundo e procurar na internet o catálogo de Tâmara de Lempicka na Royal Academy. Só vai entender esse último lampejo súbito de vontade quem ler o livro. Só para ilustrar que um romance de Mário Vargas Llosa nunca é um simples romance dispensável como muitos levianamente reproduziram por aí. Cabe apenas um pequeno puxãozinho de orelha no escritor já que ele sacaneou o personagem Fonchito na página 339. Eu  provo: “No free shop ela havia comprado várias correntinhas de prata peruana para das de lembrança às pessoas simpáticas que conhecessem na viagem e Fonchito um DVD de Justin Bieber, um cantor canadense que enlouquecia os jovens do mundo todo e que ele pretendia ver durante o vôo na tela de seu computador. É ruim heim Fonchito? Pelo amor de Deus.... Essa foi imperdoável. (risos).

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Notícias da Matilha Luiz Augusto Michelazzo Editora Coruja




Conheci o Luiz Augusto Michelazzo no lançamento do livro “20 ficções sobre o amor & ribeirão preto”, compilação de textos em que participei com um conto “as mulheres que não comi e outras misérias”. Autografei meu conto para ele e batemos um breve papo. De cara muitas afinidades literárias, referências influências etc. Mas no final da breve conversa ele falou algo que me intrigou. “-Também li “pornopopéia” e escrevo melhor que Reinaldo Moraes”. Pra quem não sabe  Reinaldo para mim é um ídolo, um escritor com grande domínio desse estilo desbocado e despudorado que procuro papagaiar. Dita a frase intrigante vamos então a prova. Fui na Editora Coruja e ressabiado  comprei  o romance “Notícias da Matilha” de Luiz Augusto Michelazzo. De cara adorei a capa com um desenho do grande artista plástico Paulinho Camargo. O livro é cinza e tem 303 páginas muito bem escritas e revisadas pelo próprio autor que escreveu em diversos jornais por vários anos dentre eles o saudoso Diário Popular. Entramos então no mundo das redações de jornal, da notícia fast-food, da rotina incessante em busca de algo que atraia o leitor médio, uma rebelião qualquer, política, drama, num ambiente altamente competitivo e opressor em busca da venda, do lucro da aceitação popular e do editor canalha, sempre canalha. Só os fortes sobrevivem. E o protagonista Antonio Capuletto é um deles sem deixar de ser um eterno repórter idealista e sonhador vivendo em um momento histórico altamente conturbado de inflação galopante e incertezas políticas. Mas tudo isso serve de  pano de fundo para descortinar as sacanagens, e o outro mundo que rola nos bastidores da notícia, entre um plantão e outro nos cafezinhos e barzinhos de final de expediente; E aqui entram as duas outras jornalistas Maria Luiza e Bete (mal casadas) e um tórrido triângulo amoroso de fazer Henry Miller ter uma ereção nas catacumbas. Seguindo uma antiga tradição de grandes escritores de Bocage a Bukowski o Luiz Augusto não tem tramela no teclado. Tecla sem dó nem piedade caprichando nas descrições eróticas e nos detalhes mais íntimos, muitas vezes sórdidos das relações sexuais de seus personagens, chegando muito perto do abismo da pornografia, mas com muita maestria não caindo nele, usando de um artifício muito nobre. O humor. Grande mérito do autor. Todo o texto é permeado de muito humor daquele escritor que escreve curtindo o que escreve sem se levar muito a sério, dando liberdade e vida  para seus personagens sem se preocupar com os pudores o nojinho dos leitores. Parabéns ao Luiz Augusto e para a Editora Coruja que tem prestado um excelente serviço às letras aqui na nossa terrinha roxa. Quanto a prova. Quem escreve melhor? Concluo que pouco importa, o importante é que  ambos escrevem muito bem, com alguns pontos em comum, mas cada qual com seu estilo próprio. Cada qual no seu quadradinho de quatro. O que realmente importa e a pergunta que não quer calar é quanto de autobiográfico tem de “Notícias da Matilha” com a trajetória de vida do nosso escritor e jornalista Luiz Augusto. Pergunta para ser feita no próximo bate-papo, quem sabe tomando um belo chope no Pingüim. Está feito o convite.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Kafka à beira-mar Haruki Murakami

“Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.”
Haruki Murakami, in 'Kafka à Beira-Mar'



Esse Japonês é foda! Escreve pra caralho! Ao narrar duas estórias de personagens solitários que se cruzam com toda sorte de realismo fantástico o mestre Murakami vai nos dando uma aula de como destrinchar romances intercalando alta cultura com cultura pop, filosofia e a escatologia oriunda das coisas banais do dia a dia.Um garoto de quinze anos em crise existencial foge de casa para encontrar respostas para suas angústias e dilemas familiares. Um velho analfabeto que conversa com gatos  vai em busca do seu destino. E nesses caminhos díspares nos deparamos com um menino chamado corvo, chuva de peixes e sanguessugas, portais para outras dimensões, dilemas freudianos e shakesperianos, uma mãe omissa, um assasinato, um caminhoneiro apaixonado por música clássica, prostitutas que citam Hegel,  uma bibliotecária andrógina,conversas com ícones do capitalismo como o bonequinho do Jhonny Walker e o Coronel Sanders, mortes, sexo, descobertas e surpresas a cada página nos causando uma constante sensação de estranhamento. Murakami como sempre cria um mundo muito peculiar, um mundo de sombras que esconde os detalhes do piso irregular em que estamos caminhando de forma sempre titubeante. No final todo o não senso improvável faz o maior sentido posso garantir. E a satisfação após as intrincadas 589 páginas é plena.



Murakami é o queridinho da literatura japonesa atual largou uma vida estável como proprietário de uma casa de Jazz para correr literalmente atrás do sonho de ser escritor em tempo integral. Muito esforço e muito talento.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Quiet Riot no Corinthians - 1985



Tempos atrás na corridinha matinal surgiu no i-pod a música  “balls to the wall” do Accept e imediatamente me veio uma saraivada de lembranças boas do tempo em que eu tinha cabelo em abundância, era metaleiro, andava devidamente paramentado com uma gangue de japoneses metaleiros em São Paulo, com meu grande amigo Silvio Kimura e seu primo Renato, e íamos ao centrão comprar discos e artefatos roqueiros na Woodstock e lá ficávamos sentados na praça trocando idéias sobre música, comportamento, mulheres e deixando o tempo passar. E o tempo passava. Certa vez fomos no show do “Quiet Riot” e os brothers derrubaram o portão do Ginásio do Corinthians; Entramos de graça, a polícia descendo o cacete e fazendo revista durante o show. Eu com o ingresso no bolso(guardei como souvenir) e berrando “c’mon fell the noise” e delirando com os solos de Carlos Cavazo. Bons tempos.....e aí surge a inelutável questão: Em que encruzilhada nosso caminho muda tanto? E essa gravata embaixo do meu queixo?

sábado, 13 de julho de 2013

Efraim Medina Reyes – Técnicas de masturbação entre Batman e Robin, Pistoleiros/Putas e dementes e Era uma vez o amor mas tive que matá-lo.

o escritor brincando de roleta-russa

Fiquei um bom tempo sem postar aqui. Desilusão com a literatura? Não. Novos caminhos a serem percorridos. As vezes como Rimbaud é preciso viver um pouco e como Bukowski fingir uma adaptação, uma integração com a sociedade pra sacanear depois. Mas deu saudade e nesse eterno retorno aqui estou novamente para falar desse escritor colombiano muito interessante. Acima os títulos dos livros que li e que encomendei por sebos espalhados pelo Brasil inteiro. O cara é “bom de título” porém muitas vezes estes não demonstram o verdadeiro conteúdo e por conseqüência  é impressionante a quantidade de “Técnicas de masturbação” devolvidas pelos leitores às prateleiras. Fico imaginando o cara comprar esse livro buscando muita sacanagem e humor despretensioso e fácil e deparar-se com fracassos, desilusões, lirismo e experimentações formais. (risos) Pena que as pessoas não perceberam que é um bom livro assim como os demais e que fogem muito da mesmice. Vai entender o leitor....Com isso ganhei descontos bem vindos na estante virtual. Efraim é desses amigos que encontramos perambulando pela América Latrina, como Gutierrez, como Fuguet e que gostaríamos de tomar uma cerveja na mesa de um bar bem decadente. O cara não tem tramela e fala em prosa e verso desde a chifrada que levou da namorada, uma imaginária transa com Silvia Plath , desventuras de uma banda underground, técnicas para conquista e sedução até uma despretensiosa mini-biografia não autorizada de Kurt Cobain. Portanto mais pop impossível. O alter-ego Rep vai perambulando pelos subúrbios mais escuros das cidades mais apagadas e envolvendo-se nas situações mais insólitas. Nessa miscelânea encontramos momentos muito poéticos intercalados com humor refinado e uma auto-sabotagem constante. O eterno descontentamento desses seres latino-americanos que andam à margem, num local incerto, tão incerto como Cartagena das Índias e quiçá com forçada analogia: Ribeirão Preto minha querida cidade colônia penal. Essa passagem é bem ilustrativa: “Dia e noite deixamos nossos sonhos de amor, nossas loucuras e ilusões diante da tevê enquanto acumulamos desleixo, gordura e remorsos”. Recomendo para quem está lendo os mesmos livros com as mesmas fórmulas várias vezes e que hoje estão na lista dos mais vendidos e amanhã não servirão nem mesmo para forrar a gaiola(objeto em desuso) ou para limpar a bunda. Precisamos ousar nas escolhas meu caro leitor que sai em passeatas, escreve cartazes espirituosos, se emociona e chora e não percebe que continua sendo manipulado pelo Grande irmão e aumentando o ibope dos telejornais. “Retorna neste verso a tarde com os cílios molhados e o sol contradizendo a garoa. Há um potro sem domar amarrado à alma e os olhos da ira se agitam nesta tarde sem cavaleiro” É esse o espírito contestador e vibrante do escritor que atrás de um visual misógino-caribenho e de um auto-marketing duvidoso esconde e revela muitas coisas  nas entrelinhas. O prefácio “a máquina de somar zeros” de “pistoleiros/putas e dementes” é imperdível cabendo aqui algumas transcrições “uma vida sem canções e sexo oral é muito entediante” (...) “os poemas não evitam guerras, nem curam a gripe, mas ajudam a suportá-las” (...) “Se você está lendo esta linha ou a seguinte, o problema é seu; como a máquina de somar zeros, tudo o que eu digo e em que me baseio pertence ao vazio porque o destino de um livro nunca estará nas mãos de quem o escreve, e sim de quem o lê”. Falou e disse! E serviu ao menos para destravar esse blog mais uma vez. Quiça chegarei às quinze mil crônicas de Rubem Braga. O sorriso fechado já é um começo.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Os Anos do Furacão - Mário Bortolotto - Manual de "antiajuda"


foto Bob Sousa



Digo desde agora e sempre que é difícil manter o distanciamento quando nos deparamos com um livro de um cara que é a nossa cara, que tem os mesmos ídolos e quase as mesmas idéias. Aliás isso é um privilégio cada vez mais raro nesse mundo esquisito e multifacetado. Mas vamos lá: O livro “Os anos do furacão”  do Mário Bortolotto narra em forma de crônicas de uma maneira bem sincera e com um vocabulário simples e cheio de gírias (“ta ligado?”); trechos da vida do escritor, dramaturgo, ator, músico, poeta....desde a sua infância até o episódio dos tiros/assalto no teatro da Pça Rossevelt e fatos posteriores a este acontecimento marcante a fartamente noticiado. Tudo bem autêntico, bem a cara do autor, de maneira desordenada, em formato “blog” e  pinçando acontecimentos e brincando com a memória. Porém ao contrário do Marcelo Mirisola que mais inventa do que transcreve a realidade biográfica com proposital picaretagem no livro do Bortolotto temos uma crueza e uma sinceridade quase infantil, singela, você lê o livro e diz: “- É ele mesmo, está tudo ali!”
Com o devido respeito é o mesmo “marginal” corajoso que encontrei em duas palestras aqui em Ribeirão Preto, uma na Feira do Livro e outra nos Estúdios Kaiser de Cinema, sem contar as inúmeras e impagáveis entrevistas, peças, livro de contos, vídeos no youtube, etc. O Mário curte esse negócio de ficar à margem, mas ao mesmo tempo trabalha pra caramba, produz como ninguém e extrai dessa situação, com muito humor, diga-se, todo o seu material de trabalho como um Plínio Marcos, um Gutierrez.
O Mário é um exemplo de anti-exemplo de auto-sabotagem voluntária e só quem tem alguma maturidade de vida pode entender o que eu estou escrevendo. Só esses vão entender o título acima “Manual de antiajuda”, só aqueles que tem um Bukowski ou Henry Miller na cabeceira da cama no lugar da Bíblia.
Muito embora o livro seja de memórias, temos nas entrelinhas várias divagações pertinentes e visões peculiares sobre sucesso, fracasso, estilo de vida, trabalho, coerência, solidão, individualismo, marginalidade, drogas, bebida, esporte, amizade, sinceridade, referências, gibis, poesia, blues.....
Legal ver também a modificação de ânimo antes e depois do dia fatídico. Acho sinceramente que aconteceu alguma coisa importante ali. Antes o texto era mais leve, superficial, agora mais melancólico, mais nostálgico e porque não dizer mais equilibrado e sereno. Laudas em homenagem à filha, aos verdadeiros amigos.... Afinal qual a razão de viver ou ter uma segunda chance senão para estar com aqueles que valem alguma coisa e fazendo aquilo que vale a pena?
Você pode não gostar e não concordar com tudo que o Mário diz, mas é tudo muito bem fundamentado por alguém que vive na carne e constantemente aquilo que escreve.
Uma vez fui numa palestra de uma escritora que veio com essa de laboratório, que  para escrever sobre o lixão pesquisava em livros, em jornais, bibliotecas.... Definitivamente não acredito nessa literatura. Falta sangue, falta esperma, merda, falta verdade, falta adubo natural, urina na meia(essa é do Mário rsss). No livro do Mário voa resíduos para todo o lado. É só ligar o ventilador ou abrir a garrafa. (a capa do livro é o rótulo estilizado de um Jack Daniels – risos novamente). Só para ilustrar o que estou dizendo aí vai uma transcrição da crônica “bem-vindos ao meu mundo”: “Não é o melhor dos mundos e nem é exatamente agradável. É um mundo de um cara confuso que sempre mete os pés pelas mãos e perde o jogo e não consegue trapacear, mas mesmo assim fica posando de “esperto” (...) o meu mundo não cheira bem e as torneiras estão sempre pingando e há restos de comida em cima da pia.” M. Bortolotto na pág 253.
Portanto fica a recomendação – tecle  na editora Realejo e encomende o seu www.realejolivros.com.br. Para mim o livro caiu muito bem. Viver sem grandes expectativas em relação a si e em relação aos outros nesse mundo que persegue o “sucesso” a qualquer custo e tenta esconder às “mazelas” embaixo do tapete. Estou aos poucos pulando fora também meus caros leitores! Não se iludam! Aproveitem enquanto ainda dá tempo. Fica aqui a minha “antiajuda”. Maiores esclarecimentos é só pagar uma cerveja qualquer lá no Bar do Português.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Gibis e literatura. Nerd eu? Longe disso...

Minha relação com os quadrinhos vem dos confins da infância. Era um menino sozinho mas muito curioso com uma irmã cinco anos mais velha com uma prateleira cheia de Mônicas, Cebolinhas, Bolinhas, Brotoejas e Luluzinhas. Depois numa mudança da minha prima Dulcinha herdei uma série de Zé Cariocas, Pato Donalds dentre os primeiros números de tais coleções (inclusive). Coleção essa que foi roída por traças urgh! Teve também aquelas férias em Araruama que comprei “Lulu e Bolinha nas férias” e viajei por Paris e Nova Iorque numa rede da varanda da casa do Tio Joel . Mas a febre começou mesmo com a Tia Guiomar que me deu o primeiro Tintim e depois o primeiro Asterix e a paixão não teve mais fim. Tenho a coleção completa dos dois até hoje. A adolescência chegou e com ela muitos Mads, “Animal”, Chicletes com banana, Rebordosas, Luke Lukes e Cia ltda (guardo todos com muito zelo no meu escritório). Necessário frisar que nunca gostei de Batmans, Robins e Super-homens e outros heróis mascarados. Necessário frisar número dois que entendo os quadrinhos como literatura e não vou ficar falando aqui “graphic novels”, porque isso é uma “frescura du caralho” com o perdão da expressão. É “quadrinhos” mesmo, GIBI, estórias em quadrinhos e tenho dito. Sou nerd? Longe, muito longe disso.... Gostaria de frisar número 3 que os quadrinhos quando bem feitos nos remetem a uma outra dimensão da literatura. Temos uma imagem mais nítida da própria imagem que o autor tenta nos passar; uma imagem mais próxima da imaginação do autor/escritor. Porém ao contrário do cinema essa imagem não esgota tanto a nossa própria imaginação, não satura o nosso cérebro. O desenho por mais realista que seja não esgota a imagem em si. É uma sobreposição de imagens do autor com as nossas loucuras imagéticas que criamos no ato da leitura. Em resumo: um barato sem necessidade de qualquer ácido. E é exatamente isso que tem me levado de volta aos quadrinhos. Na minha idade não há como tomar ácidos sem efeitos colaterais duradouros e indesejáveis.Recentemente li vários Robert Crumbs dentre eles o tão bem escrito “Kafka” com parceria de David Zane Mairowitz e posso sem sombra de dúvidas dizer que é a mais agradável maneira para conhecer esse fantástico escritor tcheco universal. Uma outra dica é o ótimo “os beats” com roteiro de Harvey Pekar e companhia onde é possível visualizar de uma outra maneira, que seja superficial,  toda a cena literária “beat” em meados dos anos 50 e 60 nos Estados Unidos. Também nem tudo é alegria nesse mundo dos quadrinhos. Já tive experiências ruins como o “Palestina” de Joe Sacco, que com o devido respeito e com as devidas escusas pelo trocadalho – é um saco!.Acho que política com quadrinhos não combina muito. Sou nerd? Longe, muito longe disso....Mas sou mais um bom gibi erótico do que uma revista Playboy e tenho dito. Nessa linha reverências obrigatórias ao Sr. Milo Manara e Giovanna Casotto. Bom bem, ops. Toda essa introdução foi para falar sobre dois gibis que li atualmente. O primeiro é “Pagando por sexo” de Chester Brown, o segundo é Diomedes de Lourenço Mutarelli. O primeiro tem o mérito de, com muita sinceridade, relatar de uma maneira agradável, realista e didática um tema para lá de controverso e porque não tabu. O escritor canadense Chester narra em primeira pessoa suas próprias desventuras com prostitutas e similares com toda riqueza de detalhes e traços para lá de primitivos para depois concluir que mesmo com o vazio pós-coito prefere estas relações às relações dita românticas, chegando a conviver por anos com uma prostituta para lá de especial. Por fim desvela toda a hipocrisia e preconceito que envolve o tema, não poupando amigos, sociedade, País etc. Belo trabalho. Todo escritorzinho novo que fica aí tentando jogar as verdades inconvenientes tapete abaixo deveria ler. Já “Diomedes” de Lourenço Mutarelli, peculiar escritor e desenhista que venho acompanhando a vários anos revela a construção de um personagem impagável : Um detetive, delegado aposentado, sujo, desorganizado, piadista e aloprado que percorre os caminhos mais tortuosos para desvendar, ou melhor, não desvendar seus “casos” indo do nada a lugar nenhum, passando por situações insólitas, existenciais e metafísicas e nos revelando um caminho para lá de caótico, escatológico e engraçado. O destino não importa, o que importa é o caminho. Tudo muito noir, com diálogos “a la” Pulp fiction. Certa Feita G. K Chesterton , escritor inglês falecido em 1936 em seu ensaio sobre “como escrever uma história de detetive” estabeleceu a primeira regra: “o alvo de uma história de mistério, como de toda outra história e todo outro mistério, não é a escuridão mas a luz. A história é escrita para o momento em que o leitor a compreende, não simplesmente para os vários momentos preliminares em que ele não a compreende”. Pois não é que o Mutarelli subverte esse princípio com muita propriedade?A compilação da trilogia de 5 ou 6 anos de árduo trabalho, 429 páginas Editora “Quadrinhos na Cia” do nosso amigo Muta só não é obrigatória porque não acredito em “obras obrigatórias” e tenho dito. Nerd eu? Longe, muito longe disso....Em tempo: não empresto os meus gibis!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

sinal dos tempos

Percebo com total serenidade que os tempos são outros ao abrir o Jornal “Folha de S.Paulo” e observar na sua “Folha corrida” do dia 26/11/12 as seguintes manchetes: “Nova Roosevelt – após a revitalização, os aluguéis subiram e os Satyros vão sair da praça;” Caramba...essa é a realidade cruel do nosso teatro(penso)....Na mesma página “Dinheiro dos músicos. Por uma música ouvida um milhão de vezes na internet, algo raro, um músico recebe a miserável quantia de R$360,00”. Putz...que mal....não dá mais para viver de música(penso). Mas de súbito e na mesma página em contraposição vejo este quartzo rosa dos “tempos modernos” “Nerd Campeão - Jogadores profissionais faturam milhões disputando torneios mundiais de games.” (....) Milhões??? Games???? Para fechar a minha agradável leitura matinal o jornal destaca a insólita “frase do dia” “Atenção aos retardados que estão assistindo Pica Pau começou Tv Xuxa” – “Mário Meirelles diretor do TV Xuxa no seu twitter”. Pica Pau??... TV Xuxa???...Estupefato fecho o jornal, acabo de tomar meu café italiano, forte e amargo, como o meu pão amanhecido com manteiga, visto o meu paletó surrado para ir para mais um dia de trabalho enfadonho e ao despedir de meu filho de nove anos que está na TV jogando “Call of Duty Black Ops”....tenho enfim um alento matutino e digo com orgulho paternal:


-MATA...ATIRA...ATIRA....MAIS RÁPIDO..RÁPIDO PORRA... MATA todos eles meu filhão!

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Tropicália - o filme de Marcelo Machado



Aproveitando a ressaca de eleição com o fim do 2º. Turno aqui em Reb’s bem como o forum fechado fui assistir uma matinê no Cinépolis da “avant-première” em Ribeirão Preto do filme Tropicália do diretor Marcelo Machado. Dia 29 de outubro, 13:30 horas – ao escolher a cadeira tinha o cinema todo a minha disposição; “- Se for só eu a sessão acontece?” “- Sim, sem problemas, mesmo sem ninguém!”. Aliviado lá fui eu. Durante os trailers apareceu mais um nerd gato pingado (que não ficou até o final da sessão). Pedi para o operador da câmera acertar o foco que estava horrível e iniciou-se a sessão para os dois gatos pingados. Um e meio vai já que o meu cúmplice barbudo que deveria ter a minha idade foi embora antes do final. Me senti uma flor de lótus. Porém tudo isso é um pecado. Um desperdício. Um despautério. Sei que sou suspeito já que quero justificar o meu investimento(R$8,00 + a pipoca) mas o documentário é ótimo, as imagens selecionadas incríveis e o tratamento delas bem como os relatos muito felizes e com muita riqueza de detalhes. É fácil entrar no climão “flower power” utópico que envolveu a Tropicália com alguns dos nossos ídolos desfilando na telona com aquela trilha sonora tão prazerosa e familiar. O diretor foi muito feliz em deixar as imagens falarem por si com os relatos em off. Um despropósito aquela sala quase vazia... O filme deveria ser matéria obrigatória nas escolas. Já pensou? Hoje aula de Tropicália. Assunto: Liberdade de criação – Subversão – Utopia – Rebeldia - Criatividade.- Isso é que é utopia heim? A despeito do meu privilégio de ter uma sala de cinema exclusiva valia um ônibus escolar na porta do Shopping desovando a criançada para ver e saber ao menos superficialmente algo sobre Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Mautner, Torquato Neto, Hélio Oiticica, Maria Bhetania, Gal, Mutantes, Tom Zé, Rogério Sganzerla, Glauber Rocha & Cia.

Também está ali um libelo contra a mesmice de um ditadura acachapante de um período sombrio da nossa estória de familiares omissos e medrosos. Outrossim e apenas finalizando está ali uma pequena aula contra o conformismo muito apropriada para as novas gerações e essa moçada que fica por aí perdendo tempo com joguinhos de computador, boliche, novela, restart, nx zero.... e que não sabem sequer que um dia existiu um festival de Wigth. Será que tem Mutantes no Guitar Hero? E o assassinato do estudante Edson Luís será que essa moçada dourada e sarada sabe do que se trata?
Pois é...valia aquela gritaria, chicletes voando...neguinho sentado no chão, piadinhas....namoricos e outras interações e interferências para encher o saco deste quase velho triste naquela sala de cinema quase vazia.... Já não se fazem matinês e avant-premières como antigamente.... Vou levar meu filho de nove anos para ver o filme. É claro se eu conseguir tirar ele por algum tempo do minecraft. Missão quase impossível.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Desconstruindo Bukowski (monólogo em dois atos)

Numa pequena sala de aula com um espelho uma velha poltrona, algumas cadeiras de aula quebradas, um café, cafeteira velha, bolacha cream cracker e um copo com água, Chinaski começa a falar para si e para o vento com tom de desprezo. delírio e ressaca.(ao fundo a música “The end” do The Doors bem baixinho – versão instrumental ou repetição reiterada do solo ou qualquer música melancólica do Tom Waits ou Johnny Cash ).


Começa então o monólogo – entra CHYNASKI falando:
1º. ATO

- Compromisso enfadonho, medonho, camarim improvisado, fudido mesmo!, faculdade interiorana, sem grana, implorando para os céus, para o meu “cicerone” afrescalhado lembrar que o palestrante em questão sou eu... “HENRY CHYNASKI”;e que com café fraco e bolacha cream cracker a palestra simplesmente não vai rolar, não, não, não vai rolar legal. Diria até impossível. Improvável....E as dez horas da manhã? Quem foi o infeliz que marcou essa porra! Deve ter sido o cicerone bichinha. O que me leva a divagar, devagar...agora tudo é devagar...(a idade é foda): O que eu não faço por 100 pilas, um quarto de hotel barato e um bom rabo!

(olhando para o lado do palco)

“- O meu amigo, cumpâdi, meu irmão, meu chegado, sabe que fui com a tua cara? Tem como mandar aqui um uísque, um conhaque, que seja um bourbom barato, álcool 90, gasolina, etanol ou mesmo um vidro de perfume qualquer?

(volta a falar sozinho)
“É este o problema com a bebida.. Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom,bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconteça qualquer coisa”

Fico aqui nesse desacontecimento profundo....melancolia profunda...com uma sede do caralho e uma “melancia na bunda”.
Agora tenho que falar com esses “estudantes de literatura”...que porra é essa!? Literatura não se aprende nessa merda de catedral gótica e fria do inferno! Escritor que é escritor tem que levar é MUITA PORRADA MESMO pra ver se aprende sobre a vida sobre a morte, azar, sorte. A merda desta vida não é para amadores não...não... Tem que levar porrada desde criança. Sentir o desprezo de seus pares... ou seriam os ímpares? Nunca achei um ser vivente capaz de apaziguar a minha dor nessa terra de ninguém. Nenhum que chegasse perto da minha “genialidade” que seja, vá lá(modéstia é para os fracos).... Graças aos céus!!! Um Chinaski só já é demais. Mas não estou nem aí não! NÃO! Nunca precisei de amor....compaixão...gratidão....isso é para suburbanos que não podem ouvir a palavra CÚ.

Já fui casado, amigado, juntado com toda a fauna e flora do mundo, até flertei com o amor e paixão com aquela louca linda que enfiava espetos pelo corpo todo e foi embora para sempre. Como era o nome dela mesmo? Mas definitivamente não me venha falar de amor. Fora! Fora! FORA!!!!!! “O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece”.

Aliás que vontade de subir naquele palco agora e mandar todo mundo tomar no cú. Virar para a estudante mais gostosinha e tentadora e falar de forma bem lasciva. “– ô gostosa? Sabia que você é um tesão?, larga de perder tempo e vem aqui me dar esse seu cuzinho agora mesmo que eu vou te ensinar o que é literatura na prática. A litera dura. O “segredo” jamais revelado Ah Ah Ah!!!!! E sem vaselina heim? Ah Ah Ah você vai adorar sua puta!” Antigamente eu era capaz dessas coisas e as pessoas ficavam chocadas! Antigamente eu até me fingia de nazista para ver a reação óbvia do lugar comum. Hoje só faz parte do meu show de velho escritor decrépito. “O velho safado”.Tudo é “showbuzzines”, celebridades....Bem provável que depois que eu morrer esses filhos-da-puta mandem colocar uma estátua em minha homenagem em praça pública. Já estou até vendo os meus cacarecos expostos na Livraria Harlington.;vão estudar as minhas merdas e meu “delirium tremens” em universidades.Falsos...hipócritas....vendidos.

Hoje infelizmente é isso: 100 pilas e a seco. AGUA E CREAM CRACKER! é isso que estou valendo! Ainda se fosse um pãozinho com mortadela... E tenho que suar muita cerveja velha e barata pra subir naquela merda agora e “entreter” esse bando de boçais para pagar o aluguel do fim do mês.Boçais tá sabendo. “Tá ligado manoooo!.” Boçais. Todos uns boçais.

Tempos atrás casei com uma caipira/interiorana/rica/boçal e ninfomaníaca só de sacanagem.....é....todo mundo achava que eu queria a grana dela. Mas na verdade eu só queria tirar uma onda ...é....também sou filho de Deus...(esse filho-da-puta). Só que por óbvio também não deu certo. Ela também não agüentou o tranco. Tinha estomago fraco.

De sacanagem uma vez comecei uma conversa nonsense com a vadia:

“O que há de errado com os cus baby? Você tem um cu, eu tenho um cu, você vai ao mercado e compra um pedaço de filé, que é parte de algo que um dia teve um cu! Os cús cobrem a terra! De certa forma até as árvores têm cus, mas a gente não os vê, elas apenas deixam cair as folhas, seu cu, meu cu, o mundo está cheio de bilhões de cus, o presidente tem um cu, o garoto que lava os carros tem um cu, o juiz o assasino têm cus...até o alfinete roxo tem um cu!”

É não é que a suburbana vomitou? Não agüentou o tranco. Estômago fraco. Vadia.

(...pausa – olhar perdido – sério)

Lembro quando meu pai me batia e eu engolia a seco. Não derramava uma lágrima para aquele desgraçado. Não...não...nunca derramei lágrima para ninguém. Depois, vieram as espinhas, a feiúra e comecei a arrumar emprego a torto e direito para me “enquadrar” só para conseguir comer mulher. Um vendido. Um fingido. E era massacrado pelo sistema, pelos estúpidos...pelos capatazes...pelos encarregados.... ados...ados...ados VIADOS. Trabalhei em matadouros, correios e até para a Cruz Vermelha. Se arrependimento matasse.... “Que tempos penosos foram aqueles: ter a vontade e a necessidade de viver mas não a habilidade” Se bem que esse negócio de arrependimento é coisa de boiola não é? Ou não? É? E para extravasar um pouco ia para casa beber bebida barata. E para agüentar a benga entrando e o exame de próstata nosso de cada dia passei grande parte da minha vida emendando uma ressaca com uma bebedeira, com uma porrada, com uma ressaca, com uma bebedeira, com uma porrada....e por aí fui...até aqui... agora... nesse camarim fudido. Como é que eu ainda achei tempo para escrever esse monte de asneiras? Trinta e tantos livros muitos deles de poesia....loucura pouca é bobagem mesmo.

Bobagem? Quantas vezes não flertei com o suicídio em quartinhos minúsculos com venezianas fechadas. Quem mandou nascer na estrada na contramão, numa estrada infernal cheia de caminhões? Esse é meu problema. Nasci na época errada. Pacifista enquanto todo mundo era belicista, da contracultura enquanto nem sequer existia a palavra contracultura. O “underground” sozinho levantando a bandeira do fracasso enquanto todos almejam e almejavam o “sucesso” a qualquer preço. Sucesso? Que porra é essa?

Nos primórdios, subindo a rua numa noite chuvosa e fria me deparei com um mendigo sujo, cabelos enormes e desgrenhados enrolado em um cobertor grosso, felpudo, xadrez e fumando um baseado. Seus olhos eram azuis. Foi quando eu vi o que eu queria ser, o que eu queria ser...pelo resto da minha vida. Um vagabundo andarilho. Então comecei a escrever uma vez que esse era o caminho mais fácil para alcançar o meu intento. Quem ia querer ler um cara fudido como eu? E não é que hoje essas criançinhas aí fora gostam???? As gostosinhas que na hora “h” não querem me dar? E se eu vomitar em público daqui a pouco é bem provável que eu até seja ovacionado... Vai entender o ser humano(???);

Aliás nunca me considerei um ser humano. Nunca! Nunca quis participar de festinhas...confraternizações....”estar com meus pares”...ou seriam ímpares? Sempre gostei de beber sozinho, escrever sozinho, tudo sozinho... “Não, eu não odeio as pessoas. Só prefiro quando elas não estão por perto.”

E certa feita fiquei cinco anos sem sexo, só na punheta..., no mano a mano, na masturbação.....para não ter que implorar uma bocetinha qualquer, um cuzinho que seja. Isso seria se rebaixar de mais até mesmo para um cara fudido e feio como eu. E não é que quase enlouqueci? Loucura? Quem é louco aqui heim... heim... heim?

E então cheguei a inelutável conclusão: A única coisa que não dispenso nessa vida, como já disse é um bom rabo. Não tem como dispensar. Aliás acho que escrevo só para isso. Pra não ficar pensando em rabos o dia inteiro, ou talvez para teorizar os rabos que passam na minha mente, nas ruas, nos pontos de ônibus. No cú do judas. Quantos ônibus sem destino eu peguei para simplesmente prolongar o contato visual com tão adoráveis e tentadoras criaturas. O perfume natural... A mulher é a maior invenção do criador.
Esse criador filho-da-puta. Arregão! Uma vez eu chamei ele pro pau e ele não veio. Covarde! Fica aí escondido nas suas nuvens colocando essas gostosas para me tirarem do prumo porra! Deus é o caralho!

Nossa...quase ia me esquecendo dos cavalinhos...ahhh,.depois das mulheres a melhor coisa que o criador colocou na minha vida foram os cavalos de corrida. Principalmente os azarões que pagam 9 por 1 . Principalmente nos dias de sorte que não foram poucos....Aliás, melhor dizendo, sorte é para principiante não é?. Eu sei o que é ser um azarão vencedor. Basta olhar os dentes OS DENTES. Jóquei nenhum é capaz de estragar um animal e sua sina de animal, azarão e vencedor. LIVRE, LIVRE porém SEMPRE com um idiota baixinho e desprezível nas costas SEMPRE, diga-se. Vivemos, corremos e morremos e é só. E não há nenhuma glória nisso. E essas criançinhas ficam aí “teorizando” “esquematizando” “escrevendo teses” que nunca serão lidas, fazendo “oficinas”, indo à palestras.... Que vontade de falar para elas com todo o meu desdém: “Sinta mais. Pense menos”.

Uma vez me perguntaram o que era necessário para se tornar um grande escritor. Falei para o imbecil que ele deveria sair, ir para o hipódromo tomar uma cerveja e passar uma tarde apostando nas corridas. O filha-da-puta achou que era brincadeira! E não era. Nunca esses idiotas vão me entender. NUNCA.

Ahhhh....esses infelizes “jovens” querem conselho? Querem? Então toma lá, vamos ao ensaio:(com sarcasmo ensaiando a palestra) Você que é jovem e gosta de litera dura, digo, “literatura” - “Vá para o Tibet. Monte um camelo. Leia a bíblia. Pinte seus sapatos de azul. Deixe a barba crescer. De a volta ao mundo numa canoa de papel. Assine um jornal. Mastigue apenas com o lado esquerdo da boca. Case-se com uma perneta e se barbeie com uma navalha. E entalhe o seu nome no braço dela. Escove os dentes com gasolina. Durma o dia inteiro e suba em árvores à noite. Seja um monge e beba chumbo grosso e cerveja. Mantenha sua cabeça dentro d’agua e toque violino. Faça uma dança do ventre diante de velas cor-de-rosa. Mate seu cachorro. Concorra à prefeitura. Viva num barril. Rompa sua cabeça com uma machadinha. Plante tulipas sob a chuva. Mas não escreva poesia.”

Se alguém tivesse me dado esse conselho minha vida teria sido outra....agora é tarde! Agora fudeu de verde e amarelo!

E essa bichona que não me traz a bebida?...daqui a pouco vou começar a tremer....e quando isso acontece não respondo por mim. Sou bem capaz de virar as costas e simplesmente sumir nessa porra de cidade que sequer lembro o nome. Ai Meu Deus filho-da-puta lá se vão as 100 pilas do aluguel...

Não sei quanto às outra pessoas, mas quando me abaixo pra colocar os sapatos de manhã,penso,Deus filho-da-puta, o que mais agora ?”

Nomes? Nomes? O que são nomes senão uma imposição de alguém que pensa que entende o que ninguém entende e nunca vai entender!? Um sonho estético e patético de uma vida sob controle. Apropriação indébita. A vida inteira tentando fugir de imposições mas não consigo me livrar delas.(???) Virei um nome. Um totem. Um consolo gigante. Com o passar dos anos o pinto vai caindo, caindo, caindo e o nome vai subindo, subindo, subindo....como uma pipa. Sequer sou gente em carne e osso. Um Dostoievski, um Whitmam qualquer.... Um nome “para a posteridade”. “Chinaski O bêbado, louco e safado que escreve sobre a própria vida de merda”.

E como fico puto quando alguém me chama de “beatinique”. Beatinique o caralho bando de maricas pagando pau para um Buda mole filho-da-puta!!!!! “Preciso mais do que colares hippies, uma barba, um turbante indiano e maconha legalizada” Meu negócio é Mhaler...Brahms.... buceta! MUITA BUCETA!!!!

E por falar em buceta cadê o álcool Meu Deus? Você está sempre de brincadeira heim? Filho-da-puta!!!!! Sai daí...saí daí...vem....covarde....COVARDE. (levanta-se com gestual de luta olhando para o alto)

Cicerone entra e fala(ou voz em off) Ou o próprio Deus em off: -Chinaski entra....entra agora...a platéia está ávida pelos seus ensinamentos

Apaga a luz – o cenário muda agora é um banquinho e um microfone e uma mesa. Começa o

2º. ATO

Entra Chinaski ovacionado: ao terminar os aplausos, com cara de contrariado Chinaski fala desanimado

- Bom dia! (mais aplausos – pode ser uma gravação de aplausos)

(Chinaski então vomita homericamente ) deitando-se no chão e contorcendo-se (platéia Ohhh!!!!!!!)

Levanta-se todo sujo e acabado (silêncio) Olha por longo tempo para os olhos de todos(na platéia) de forma embasbacada e finalmente diz:

“-Cheguei numa fase da minha vida que vejo que a única coisa que fiz até agora foi fugir, fugir de mim mesmo, do meu nada, e agora não tenho mais para onde ir, nem sei o que vou fazer, fui péssimo em tudo” (silêncio).......

(A peça pode acabar aqui como uma incógnita ou continuar com o personagem vestindo novamente o personagem com o diálogo abaixo)

- e você aí na última fileira...tá olhando o quê babaca! Vai encarar? Aliás e aproveitando o ensejo porque Vossas Senhorias não vão tomar nos seus digníssimos cús, bando de filhos-da-puta!!!! Não têm nada melhor para fazer não?

(derruba o microfone e o banquinho a mesa, abaixa as calças mostra a bunda ONDE ESTÁ ESCRITO FUCK YOU , rebola, vira e saí de cena).

(APLAUSOS EFUSIVOS – FOGOS DE ARTIFÍCIO – HINO DOS ESTADOS UNIDOS)

FIM.

Luiz Tinoco Cabral 11/06/12

* os apartes em itálico, negrito entre aspas concomitantemente são frases de autoria de Charles Bukowski e extraídas de seus vários livros. (seria legal um efeito cênico para pautar a peça e ressaltar as citações do restante do texto)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

confabulando - a cobra e o velho


Tem uma estória que é mais ou menos assim:

A cobra e o velho

Lá vinha a cobra sincera, desprendida, inteligente e desapegada andando pela rua quando deparou-se com um velho safado, sujo, escorregadio, feio e venenoso pedindo esmolas.

- A senhora cobra não teria um “reá” aí pra eu tomar uma cachaça? Tô com uma sede infernal;

- Ora meu bom senhor, tome água. A cachaça além de fazer mal para o seu fígado não vai saciar a sua sede já que o álcool desidrata o organismo.

- Então me dá um “reá” aí pra eu comer pão. Tô com uma fome du caralho!

- Prezado Senhor, um pão não possui nutrientes suficientes para saciar a sua fome. O Sr. deveria sim tomar água e comer carne. Carne sim lhe faria bem nesse seu estado deplorável.

Então o velho, safado sujo, escorregadio, feio e venenoso sem qualquer consideração puxou uma pistola que estava no seu bolso traseiro deu um tiro e matou a cobra sincera, desprendida, inteligente e desapegada levando-a para sua morada embaixo de um viaduto, comendo-a posteriormente e deliciando-se com aquela carne tão tenra e nobre.

Moral da estória: em tempos de canibalismo quando o velho mendigo tem, sede, fome e uma pistola a cobra vira a própria esmola.

Tem outra estória que é mais ou menos assim:

O velho e a cobra:

Lá vinha o velho safado, sujo, escorregadio, feio e venenoso andando pela mata quando passou ao seu lado rastejando pela terra uma cobra sincera, desprendida, inteligente e desapegada. A cobra ao ver o velho falou:

- Por favor não me mate com o seu cajado, posso lhe guiar pela mata, lhe mostrar as belezas da região, locais com muita comida, água potável, flores em abundância, pássaros exóticos, plantações de canabbis a perder de vista e então lhe apresentar os Deuses da floresta e suas fadas e elfos iluminados que lhe trarão paz de espírito e prosperidade.

Então o velho safado sujo, escorregadio, feio e venenoso pegou seu cajado e com um só golpe certeiro esmagou a cabeça da cobra sincera, desprendida, inteligente e desapegada.

Moral da estória: A cobra se fudeu de novo!!

terça-feira, 10 de julho de 2012

Na arte contemporânea vale tudo (ou quase?)


Cauê e Tinoco no IFF

Semana passada tivemos uma overdose de arte contemporânea no instrutivo e ilustrado curso ministrado pelo doutor, filósofo, professor e curador Cauê Alves no Instituto Figueiredo Ferraz de Ribeirão Preto. (vide foto acima)
Iniciamos pelo estudo de Greenberg intitulado “auto-consciência da arte” passando por todos os “ismos” e artistas relevantes até chegar ao fim da história da arte no estudo de Arthur C. Danto (pós-histórico).
No Brasil passamos pelo movimento Ruptura 1952 que visava claramente romper com os modernistas clássicos, com uma base do movimento concreto, neo-concreto, Tropicália, casa 7, Galerias etc. até chegar no pós-histórico “dantosco” brasileiro dos dias atuais e um olhar mais aprofundado sobre a novíssima geração que com certo alívio não necessita mais contrapor-se a ninguém.
E o que ficou pelo menos para mim sobre a arte contemporânea atual conceitualmente falando é que o romantismo “já era”. É o fim da utopia. A arte não é mais estilo é IDÉIA acima de tudo. Pode-se fazer tudo e qualquer coisa inclusive utilizar-se do passado que está aí disponível. Vale mais o não pensado que está no interior da obra de arte. A arte é heterogênea, plural e ocupa várias e inimagináveis dimensões. Não é necessário uma base sólida mas uma vaga idéia de liberdade. Vamos provocar o estranhamento, a interrogação, fugir do banal, “se perder” .... “Viver ultrapassa todo entendimento” já dizia Clarice Lispector.
E é com esse olhar que temos que fazer e enxergar a obra de arte, sem buscar somente e tão somente o entendimento. O olhar como exercício de liberdade e subjetivismo de nossa experiência, nossa vivência própria, exclusiva e única com a obra, com o mundo....
Resta saber se toda essa liberdade vai levar as artes para um novo patamar criativo ou ao contrário para um esgotamento angustiante. O pós-histórico vai dizer, ou quem sabe o pós-pós-histórico.
E digo que todos esses conceitos são auto-aplicáveis a literatura contemporânea que não está alheia a esta movimentação libertária sempre e incansavelmente em busca do novo. A comunicação entre os diversos segmentos artísticos é muito salutar e necessária. A ampla liberdade então nem se fala. Arte/poesia, inutilidade/necessidade essa eterna ambigüidade que nos faz calçar os sapatos pela manhã.
Particularmente e concluindo o momento histórico é bem interessante, basta conhecer e aproveitar.
E nessa de liberdade total só para ilustrar, descontrair ou avacalhar (como queira) termino este texto citando o narrador esportivo Milton Leite: “QUE BELEZA!”

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Por que os elefantes têm tromba?





Segundo a mitologia hindu, os primeiros elefantes do mundo possuíam asas e brincavam com as nuvens. Mas um dia, um grupo de elefantes pousou nos galhos de uma árvore debaixo da qual um santo asceta transava com uma linda prostituta indiana. Os galhos não suportaram o peso dos elefantes e com a inevitável queda o santo conseguiu salvar-se pulando para o lado mas os paquidermes mataram a linda prostituta indiana instantaneamente. O santo homem ficou tão puto que pediu aos deuses que tirassem as asas dos elefantes. Dito e feito. Os deuses tiraram as asas dos elefantes. Desde então eles que eram seres alegres, livres e brincalhões passaram a trabalhar pesado em circos, zoológicos e filmes de Bollywood. Com isso foram ficando carrancudos, macambúzios e zangados e  no lugar das asas criaram uma extensão nasal cilíndrica e comprida chamada “tromba” que serve para externar a insatisfação do maior dos animais terrestres contra os seres humanos e os deuses, bem como para cutucar os ânus de santos ascetas avaros que transam ao ar livre debaixo de árvores só pra não pagar motel!


terça-feira, 26 de junho de 2012

Contra a mesmice - Antônio Prata e Cláudio Assis


foto da Bela Dira Paes do filme "Baixio das Bestas" - Cláudio Assis


Quem é que disse que não tem mais sangue novo, transgressão e coerência  nas artes em geral?(...) Pois  deveria ler o ótimo artigo do Antônio Prata  “Autocontrole” onde ele escreve de forma clara e precisa: “que época bunda-mole a nossa! Elegemos como principal virtude justo a mais medíocre: o auto-controle.” Depois emenda que o Super-homem hoje não seria valorizado pelas marcas deixadas na história “mas pelo extrato da conta bancária e pela taxa de colesterol”(...) “o prazer e a poesia são drenados a cada dia pelos ralos da eficiência”. Triste realidade mas uma feliz constatação deste ótimo cronista.. Mas nem tudo é assim não caro “Pratinha”. Ainda existe vida inteligente na terra o que observo com a também precisa e necessária entrevista concedida por Cláudio “Baixio das Bestas” Assis onde este  com toda a sua concisão nos diz que: “O cinema brasileiro é careta e precisa de atitude. Eu não devo nada a ninguém. Nasci nu e estou vestido. A grande maioria do povo gostaria de fazer e não pode. Quem faz é um bando de filhos da puta”. E questionado sobre o interesse em “se dar bem” fala : “Não, eu quero defender o direito de errar. Arte não é certinha, feita no computador. Por que o filme não pode ser errado? Hoje é tudo enquadrado. Lula visita Maluf, o que é isso porra?”. Tais arroubos me levam a ter um alento, uma esperança nesta geração tão massacrada acreditando que o espírito anárquico e contestador do Glauber Rocha ainda está no ar e que tanto o cronista como o cineasta estão “antenados” contra a mesmice acomodada e reinante.  É verdade Antônio....é verdade Cláudio...hoje em dia  manter-se íntegro é uma guerra. Mas alguém tem que peitar não é? Parabéns e vida longa aos meninos.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Irvine Welsh - cultura por osmose

Leio na Ilustrada de 11 de junho uma entrevista com Irvine Welsh, autor do celebrado “Trainspotting” que está lançando agora o livro de contos “Requentando Repolhos”. O entrevistador Fábio Victor dá um tom de “déjà vu” na obra do cara, que diz que é isto mesmo, tem predileção pelos mesmos temas. Mas a frase melhor foi quando respondeu sobre o que gosta de ler ou ouvir: “Na era do iTunes e da Amazon, a idéia de gostar de algo é secundário. Não consumimos cultura porque gostamos, mas porque está lá”. Será possível? Ainda outro dia estávamos discutindo isso. Que o papel da arte se inverteu. O escritor e dramaturgo Roberto Alvim com o seu teatro do trans-humano quer que o espectador tenha uma experiência alheia ao gostar ou deixar de gostar da peça logo na saída do teatro. Prefere um lapso de memória no espectador logo após a encenação. Uma experiência ímpar momentânea e só, sem maiores conseqüências ou lembranças. O objetivo pelo visto é despertar algo no inconsciente...ou não, tanto faz. Mas será que a arte é só isso? Será que o nosso gostar ou não gostar é tão dispensável assim? Já Welsh propõe a cultura por osmose ou seja a tecnologia coloca a obra na sua mão e você consome como pipoca. Diante desse ponto de vista desnecessária a crítica literária ou musical. A porcaria está lá então vamos consumir. A pérola também está lá então vamos consumir. Gostar ou não gostar é dispensável. Pode mais quem pode mais. Partindo dessa premissa a liberdade é total, sendo uma verdadeira perda de tempo ficar aqui escolhendo palavras e tentando um diálogo com você. É.....você mesmo que está me lendo agora! Minto. Não acredito nessa baboseira toda. Irvin Welsh está rico, casou novamente, mudou para Miami, não tem mais saco para ficar dando entrevistas e apresentando de mão-beijada suas predileções. Roberto Alvin quer os holofotes, quer criar algo novo, quer aparecer pela transgressão, pela subversão, pela ruptura. Louvável como atitude, como aproximação do teatro às artes plásticas, ao abstracionismo, mas execrável para o saco do coitado do espectador, que numa obra de arte quer estética, mensagem e entretenimento, tudo ao mesmo tempo agora. O espectador quer pensar, entender a seu modo, apropriar-se conscientemente da obra, trazer para a sua vida e participar. De minha parte como leitor e espectador não vou resistir a um trocadilho: os malucos que me perdoem mas gostar é fundamental.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Descrição fálica de alguns objetos do meu escritório(um testículo)

estátua feita pela artista Vella Cristien em Luga/Malta

“Aos olhos do Criador, um excremento humano ou bovino pouco difere de um hambúrguer ou de uma pizza napolitana”. Carlos Heitor Cony.

 Este texto é uma homenagem a Manuel Maria Barbosa du Bocage(1765-1805)


 Na praia vejo vulvas suadas, alegres e livres andando pela areia. No escritório só vejo falos tristes.

A)Parece uma cobra naja africana com a cabeça em riste enraivecida, só que é uma cobra metálica, cinza e laranja com a base negra, negra como a asa da graúna. Lembrei-me daquele filme Transformers – o lado oculto da lua. Está todo sujo, mas ainda é viril, parece indestrutível; vários anos de uso para cumprir uma função das mais nobres e prazerosas. Abrir buracos, desvirginar superfícies frágeis sem qualquer pudor ou dó, guardando troféus para posteridade que com o passar dos anos são substituídos sem qualquer fidelidade. Um infiel por natureza. Um colecionador nato e lascivo guardando uma singela e vaga lembrança de todos os buracos que já entrou;

B) Esse já é todo negro mas poderia ser branco ou amarelo. Na verdade ele é Chinês. Rijo, com uma curvatura côncava muito interessante, não sei se para a direita ou para a esquerda.(??) depende da utilização que se pretende. É grande e forte sendo capaz de agir infindáveis e implacáveis vezes sem tirar. Não necessita de aditivos. Solta milhões de partículas acobreadas e reluzentes idênticas, agressivas, certeiras. Esse sabe a que veio. Também me acompanha a vários anos. Não seria nada sem ele. Minha vida seria um caos sem solução.... Páginas soltas ao vento;

C) O mais fálico de todos; um tubo arredondado e todo vermelho de exatos onze centímetros duro. Não...não é japonês. Por incrível que pareça ele é do México. Quando retiramos a chapeleta vermelha temos uma pasta gosmenta procurando a superfície certa para deleitar-se. Gosta de espalhar-se em várias direções;

D) Vários bambus envoltos em um laçarote colorido. Parece um palhaçinho com seu chapéu. Singelo “souvenir” made in Peru. Suas saliências, entrâncias e reentrâncias emitem sensações e arrebatamentos para o corpo e alma. Pequenas vibrações. Brinquedinho raramente encontrado em sex-shops e escritórios de advocacia. Mas pode acontecer....o que aliás está acontecendo exatamente agora.

Está lançado o enigma.Quem acertar as quatro ganha um presentinho especial oferecido pelo meu sócio Daniel Arthur Mead, mais conhecido como Long Dong Silver.  (atendendo a pedidos RESPOSTAS: A) furador de papel; B) Grampeador; C) Cola-bastão; D) Quena Peruana;

Para finalizar com anel de ouro um poema concreto que escrevi a muitos, muitos anos atrás – O PÊNIS.

O
PÊNIS
DURANTE
A EJACULAÇÃO
PULSA COMO UM CORAÇÃO
E MORRE DE INFARTO OLHANDO PARA O CHÃO

quinta-feira, 31 de maio de 2012

on the road, pé na estrada, Jack Kerouac

Essa é a história da América. Todo mundo faz o que pensa que deve fazer”Jack Kerouac on the Road – o manuscrito original - 1ª. Edição Editora L&PM página 194” 

 No meu caso tudo começou em 1994 quando comprei o livro “On the Road”, pé na estrada, Editora Brasiliense, 9ª. Edição com tradução de Eduardo Bueno e do ribeirão-pretano e conterrâneo Antonio Bivar – o beatnik brasiliero(escritor do fantástico “Verdes Vales do Fim do Mundo” que todo mundo deveria ler); os personagens principais são Sal Paradise(Jack Kerouac) e Dean Moriarty(Neal Cassady). O livro é pautado por capítulos e partes e o nome dos personagens secundários originais como Allen Ginsberg e Burroughs foram também ligeiramente trocados, talvez para garantir um pouco a privacidade aos seus pares numa época em que privacidade ainda valia alguma coisa. Hoje só a Carolina Dieckmann se preocupa com isso. Agora passados dezoito anos releio a tradução com base no manuscrito original “On the Road”, Editora L&PM, também com tradução de Eduardo Bueno porém com a saída do querido Bivar entrando Lucia Brito. A diferença é gritante. Aqui não temos capítulos e os nomes não foram trocados o que torna tudo muito mais autêntico e verdadeiro.(e mais difícil de ler). Acabamos por manter contato com episódios reais de outros grandes escritores beatniks. O legal é que muito embora o livro se divida em 4 partes(as quatro viagens cruzando os Estados Unidos até a chegada ao México e retorno a Nova Iorque ), temos um contato muito maior com a prosa espontânea de Jack Kerouac que escreve com um único fôlego, como se fosse um único parágrafo nos dando uma idéia melhor da estética pretendida; o hoje inimaginável teclar ininterrupto numa máquina mecânica, folha única em formato de rolo. Mais ou menos como começar a escrever um romance com caneta em um rolo de papel higiênico do início ao fim(???) Você então fica imaginando. Será possível? Mas é bacana porque essa espontaneidade tem toda uma relação com o imediatismo e o niilismo e a alta velocidade do viver beatnik, (por mais que critiquem este rótulo, não deixa de ser didático não é?). “Eles eram como o homem melancólico com a pedra da masmorra, erguendo-se dos subterrâneos, os sórdidos hipsters da América, uma inovadora geração beat à qual eu estava me ligando lentamente”(pág 178) Bom....acho que estou parecendo um chatinho querendo ensinar o padre-nosso ao vigário. Mudando de assunto voltemos ao livro ou melhor ao ditado existencialista que motivou toda esta louca viagem. “sair é viver, ficar é apodrecer”. É nessa base teórica que o livro se ergue. Pós-guerra, um vazio existencialista muito grande e uma vontade absurda da juventude recuperar o tempo perdido com guerras, com mortes, com destruição em massa. Chega de Hitler, Mussolini, Pearl Harbor, Bomba Atômica! Então surgem as auto-estradas infindáveis, a “Route 66” e o impulso desenvolvimentista e de integração de um país imenso, sem uma ideologia ainda definida(e que ficou caretíssima e sacal). A descoberta do jazz misturado com blues, uma mistura musical e comportamental muito rica e a eclosão de seus monstros sagrados, todas as drogas, bebidas e carros velozes fazendo a cabeça de todos. Para rechear um pezinho na estrada das religiões orientais em contrapartida à sisudez das religiões moralistas americanas. Está criado o totem de uma geração que por acidente acabou sendo muito bem representada exatamente aqui neste livro que tento esmiuçar agora. Ao reler o livro tive a mesma emoção da primeira vez. ) “podia sentir o impulso da minha própria vida me chamando de volta”(página 227) É um livro que você não sai ileso. Ele provoca. E provoca muito. Vivemos hoje com a cultura capitalista do enquadramento, buscamos a aceitação para um emprego, para um reconhecimento social, para o amor e o relacionamento estável. Aliás estabilidade infelizmente é tudo para muitos! Jack e Neal buscavam exatamente o contrário. A vagabundagem sadia. A Irresponsabilidade. “Mãe quero ser vagabundo um dia”.(fls. 150). Como um bunda-mole de um burocrata engravatado que mora num condomínio fechado pode sair salvo de uma ideologia panfletária escancarada como está? Isso aqui está inclusive no trailler do Waltinho Salles, verdadeiro crime de apropriação indébita: “porque as únicas pessoas que me interessam são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam ou falam chavões...mas queimam, queimam, queimam como fogos de artifício pela noite”(pág. 129). Uau! Bom e por aí vai....pegando carona, arrumando um trocado aqui, outro acolá, dormindo na casa de amigos, nas ruas, fazendo bicos, fazendo sexo desenfreado, bebendo e fumando maconha, benzedrina ... nossos anti-heróis vão cruzando o seu próprio país várias vezes e desvelando as peculiaridades de locais como Frisco, Denver, Chicago, Los Angeles, Nova Iorque, e por fim o México Monterrey... com uma promessa que não se cumpre de uma continuação até os confins da América do Sul. E vamos pinçando pérolas como está: “e dirigi muitas centenas de monótonos quilômetros entre moitas nevadas e colinas sisudas e escarpadas(pág 296) “estava condenado à estrada e à investigação capenga de meu país”(pág. 318) “a estrada é a vida”(página 351). Páginas que revelam o sentimento que motivou o título muito bem apropriado. Talvez seja o maior exemplo de roteiro de “road movie” da estória da literatura que infelizmente, pelo visto, Walter Salles não conseguiu capturar no seu tão esperado filme e que recebeu uma reação fria de público e crítica em Cannes; Que peninha! Isso é pior que vaia! Kerouac pelo visto merecia mais! Como disse acima é um livro que clama pelo imediatismo da vida aqui e agora em todas as suas nuances. Não podemos perder tempo. A felicidade está aqui agora e não no etéreo e nem nos casamentos de fachada, na acomodação. Vamos viver a vida real que nos apresenta, enquanto ela é possível. Esse trecho reflete muito bem o espírito do livro e “AQUILO” que ele combate e “AQUILO” que ele busca: “Agora saca só esse pessoal aí na frente...Estão preocupados, contando os quilômetros, pensando onde irão dormir está noite, no dinheiro pra gasolina, no tempo, como chegarão lá...e vão chegar lá de qualquer maneira percebe. Mas eles têm que se preocupar, suas almas realmente não terão paz a não ser que se agarrem a uma preocupação explícita e comprovada e tendo encontrado uma assumem expressões faciais adequadas e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de infelicidade, uma expressão falsa realmente falsa de preocupação e mesmo de dignidade e o tempo todo tudo passa voando por eles e eles sabem e isso TAMBÉM os preocupa TOTALMENTE”(página 347). Aliás e aproveitando o ensejo necessário frisar que apesar da linguagem ser fácil, espontânea, simples o livro não é fácil. Requer trabalho de leitura, concentração, doação de tempo e se possível uma caneta na mão como se fosse a peneira de um garimpeiro. Temos que explorar o livro como Kerouac explorou seu país”, “todo o país era como uma ostra a ser aberta por nós; e lá estava a pérola, a pérola estava lá.”(pág. 273). Confesso que alguns trechos li bebericando uma cervejinha gelada. Existem trechos longuíssimos, trechos superficiais, trechos sinceramente dispensáveis, partes chatas e repetitivas, temas secundários enfadonhos, sem contar as infindáveis personagens que cruzam a estrada e logo somem na névoa sem deixar vestígios e sem dizer a que vieram. Se você quer moleza melhor sentar no colo de um impotente sem Viagra ou ler Paulo Coelho que dá na mesma.(risos). Bom...bem...voltando ao livro é fácil observar que essa moçada “beatinique” influenciou tudo que aconteceu depois de “subversivo” de “vanguarda”; dos Beatles aos Rolling Stones, do movimento hippie aos movimentos pela paz, da Tropicália aos Mutantes até chegar no Bob Dylan e viva o Arrigo Barnabé. Utopia? Hoje depois de Chapman, Altamon, Reagan, Bush, Margareth Tatcher, Guerra do Iraque, queda das torres gêmeas, terrorismo, yuppies e o Robertinho do Recife poderíamos dizer que o livro já era. "- JÁ ERA!” Aliás o próprio Kerouac no fim da vida, desiludido com sua carreira e na merda de certa forma renegou o livro que escreveu como se “pé na estrada” fosse um “pé no saco”(vide peça do Mário Bortolloto sobre o tema); como se tudo tivesse sido uma grande loucura inconseqüente. Um despropósito, um despautério!(diria o Reinaldo Moraes) Só faltou falar como o FHC “-esqueçam tudo que escrevi”. Outro dia conversando com o escritor Marcelo Mirisola que recentemente mostrou-se(por motivos diversos) bem satisfeito com o insucesso da investida “beatinique” de boutique do Walter Salles , fez uma leitura bem “sui generis” e bem humorada de “On the Road”. Confesso que dei muita risada. Disse o “homem da quitinete de marfim” que talvez “On the Road” seja o maior romance gay da literatura mundial! Um escritor(Jack Kerouac) cruzando um País inteiro motivado por uma idolatria e um amor visceral ao amigo caubói, metido a playboy e pretenso escritor chamado Neal Cassady. Ah Ah Ah! Só o Mirisola mesmo não? Mas não tiro sua razão não... muito pelo contrário, sendo inclusive evidente o lado também homossexual do escritor que inclusive é confesso e inerente a muitos de seus amigos de estrada e de farras diversas onde rolava de tudo e mais um pouco. Porém não é isso que é importante no livro que aliás, no tocante, é muito velado. Para dar uma guinada de 180 graus e mais uma vez pinçando o próprio texto “é difícil resolver as coisas quando você vive dia a dia nesse mundo febril e tolo”(página 355). Vivemos “como se a taça da vida tivesse sido entornada e tudo houvesse enlouquecido”(pág 376). Desta feita, falando por mim e mais ninguém prefiro acreditar na mensagem do livro ainda hoje. Sou um otimista ingênuo é verdade... Acreditar na estrada, na magia e nas visões sobrenaturais e loucas que a cercam. No inóspito, no desconhecido, na aventura de viver.“agora vamos sair e curtir o rio e as pessoas e cheirar o mundo” (página 276). Isso é muito pessoal ok? Sempre adorei uma estrada! É só sair viajando que me transformo em outra pessoa, mais segura, mais satisfeita, mais feliz. Afinal e para ilustrar mais uma vez tem uma passagem do livro que também é ótima e que questiona várias coisas importantes. Daí talvez o sucesso e a importância que mantém o livro vivo até os dias de hoje inclusive sendo eleito um dos 100 livros mais importantes de todos os tempos, salvo engano pela revista New Yorker. Uma obra-prima sem dúvida. Com altos e baixos como já frisado acima mas uma obra-prima. Aí vão os questionamentos que me vem agora: O que é melhor a ordem ou o caos? O que é vida real o que é maquiagem e enganação? O que fazemos das nossas vidas? É legal? Trabalho? Grana? Status? Casamento? Qual o valor disso tudo? Vale a pena? Será que não é melhor simplesmente deixar rolar? Cair de boca na estrada ouvindo jazz? Aí vai a passagem, meio extensa eu sei... (haja saco!) mas como é para uma palestra sobre o livro lá no espaço “A Coisa” na Rua Amador Bueno 1300, tá valendo: “Tá sabendo que Louanne casou com um marinheiro em Frisco e vai ter um bebê?” “Sim. Estamos todos entrando nessa agora”. Ele me mostrou uma foto de Carolyn em Frisco com a nova menininha. A sombra de um homem obscurecia a menina na calçada ensolarada, duas enormes pernas de calças tristes. “Quem é esse?” “É apenas o Al Hinkle. Ele voltou para Helen, estão em Denver agora. Passaram o dia tirando fotos.” Ele me mostrou outras fotos. Percebi que eram essas as fotografias que nossos filhos olhariam algum dia com espanto, pensando que seus pais tinham vivido vidas ordeiras e tranqüilas e acordavam de manhã para percorrer orgulhosamente as calçadas da vida, sem jamais sonhar com a loucura esfarrapada e a balbúrdia, de nossas vidas reais, de nossa noite real, o inferno disso, a estrada do pesadelo sem sentido. Escândalos denunciam o mundo, os filhos jamais sabem.”(página 401) Então é mais ou menos por aí. A pergunta que não quer calar é: - Que fotos(exemplos/sonhos) você vai querer deixar para seus filhos(amigos/eternidade)? Só para terminar necessário desfazer uma confusão comum: uma coisa é Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinguetti, Bill Burroghs, Neal Cassady, Phillip Whalen, Gregory Corso, Charles Olson, Robert Creeley, dentre outros que são os Beats autênticos ligados por um laço estético, comportamental e expoentes de uma geração um tanto quanto coesa. Outra coisa totalmente dispare é Charles Bukowski e Henry Miller que sempre andaram à margem de qualquer movimento e com uma literatura única e isolada. Aliás o isolamento e o estranhamento é a marca desses ótimos escritores não afeitos a coesões. O que existe é uma influência direta ou indireta desses dois gênios em toda a turminha beat ali em cima, quer eles confessem ou não. Mas aí é outra estória. E tenho dito. “O amor é tudo” (página 282)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Raul Seixas - o filme "O início, o fim e o meio"

Está tudo lá, as diversas mulheres, amantes, as músicas fantásticas, os amigos, os “supostos amigos”, a bebida, drogas, roquenrou misturado com baião, as experiências místicas, as loucuras, os fartos cabelos e barba por fazer, as viagens, imagens antológicas,escatológicas, os fanáticos fãs, as controvérsias....Walter Carvalho tenta fazer em curto espaço de tempo(tarefa inglória) uma síntese dos 44 anos do músico e 17 de carreira deixando o documentário redondinho, redondinho....porém sinto que faltou alguma coisa. Acho que faltou trilha sonora, emoção, faltou cinema. Afinal eu estava no cinema e não assistindo o jornal das oito. Poderia ter misturado ficção com documentário deixado as músicas falarem por si e pelo riquíssimo personagem. Enfim, ficou tudo muito redondo e caretinha. Raul com certeza não aprovaria. Se é para falar do “início, o fim e o meio” por que não subverter a ordem cronológica dos acontecimentos? E por mais que o filme tenha um flerte com o distanciamento os julgamentos ficam no ar... Explico. O filme tenta mostrar um Paulo Coelho bonzinho e um Marcelo Nova vilão. Pois não é que tive exatamente a impressão contrária? Paulo Coelho mostrou-se extremamente formalista e frio numa visita ao camarim do Raul para simplesmente cumprir tabela e mostrar solidariedade ao “bêbado decrépito”. E questionado sobre o arrependimento em ter apresentado drogas a Raul se defendeu dizendo que o cantor era maior, casado com filho e vacinado. Demonstrou ainda uma pontinha de inveja e rancor travestido de competição “saudável” entre amigos pelas músicas que nunca escreveu . Triste...triste Paulo Coelho. Já quanto a questão “Marcelo Nova” fico com a visão de Caetano Veloso. Por mais que tenha se beneficiado indiretamente da situação o intuito do Marcelo Nova era nobre. Trazer à tona e para o seu verdadeiro lugar(o palco) um autêntico artista, um ídolo capaz de mostrar caminhos diante de toda essa mesmice. Afinal é melhor encerrar os dias no palco cantando e trocando idéias com o público ou no jardim zoológico dando pipoca aos macacos? Quem é o maluco e quem é o “normal” nessa estória toda? Meus caros amigos e inúmeros leitores; o que mata não é a droga e a bebida, o que mata é o comodismo e a indiferença. Aliás tem neguinho por aí que anda para lá e para cá com toda empáfia e não sabe que já morreu. Zumbis, mortos-vivos e sanguessugas em demasia com suas gravatas de bolinha e matronas com seus tailleurs estilo Chanel. E para finalizar ai vai o ponto forte do filme: O resgate,os depoimentos e as imagens do incrível parceiro Cláudio Roberto; ponto fraco: Pedro Bial urgh! Melhor nem comentar. E porque estou aqui neste espaço de literatura falando de um músico? Ora Raul era um grande escritor. Letra de música não é literatura? Bom...o papo está muito bom a cerveja gelada , a música está boa mas...será que não dava para tocar Raul? TOCA RAUUULLLL!!!!!!!!!!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Uivo Kaddish e outros poemas Allen Ginsberg

Um clássico da literatura beat. Poemas esparsos onde a vida do autor mostra-se e confunde-se com seus pensamentos sobre as coisas e pessoas que o cercam. Mensagens de liberdade poética total. Versos não afeitos à rimas, métrica e formas; um misto caótico de prosa, poesia, cotidiano, drogas e divagações. A tradução de Cláudio Willer(Editora L&PM) que inclusive conviveu com o escritor até a sua morte em 1997 tenta em vão explicar o inexplicável. Mais fácil perder-se na sonoridade do que ficar lendo as inúmeras notas de rodapé. Pelo menos para quem quer distância do academicismo como eu. Na literatura o melhor é a curtição, o barato que ela dá sem ter que obrigatoriamente ler a bula. Saliente-se que inevitavelmente a sonoridade perde-se na tradução. Mas melhor ler do que não ler para poder entender um pouco mais sobre um dos inúmeros protagonistas e expoentes de uma geração de loucos que mudaram o mundo com um misto de estrada, misticismo oriental, drogas, sexo, experimentações e um anseio anárquico vital. Como diz William Carlos Willians no prefácio “senhoras levantem as barras das suas saias, vamos atravessar o inferno”. E tudo começa no melhor estilo autobiográfico “on the road”. “Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus”(...). E por aí vai como um grito...como um uivo inspirador que infelizmente foi perdendo-se com o passar dos anos...com Charles Manson, Altamon, Chapman....Será que “o sonho acabou” meu amigo??? Espero que não! Aliás creio que não!

domingo, 13 de maio de 2012

dois palhaços no sinal


"irrita-me a felicidade de todos estes homens que não sabem que são infelizes" (Fernando Pessoa Versículo 313, Livro do Desassossego)

- Quem foi que inventou essa droga de depressão? Essa dor que começa do nada...e ao nada nos remete abrindo uma fenda exposta e rubra que vai do pescoço até o pênis expondo o ridículo de nossas vísceras até então invisíveis. E eu aqui amargando nesse trânsito horrível, nesse sinal de três tempos, vendo o tempo da minha vida amarelar entre um vermelho e um verde, massageando a barba por fazer, coçando nervosamente o nariz a procura de um sentido para esse ato mecânico e reiterado, olhando insistentemente o relógio do painel e logo a sua frente o vidro imundo do para-brisas e na faixa de pedestres lá está ele; aquele homem adulto com um chapéu rosa, um olho laranja, outro azul, bola vermelha no nariz arremessando para cima três pedaços de pau velho tamanho médio e sorrindo....sorrindo....Meu Deus! Com uma boca toda colorida de batom e me encarando porra!!!!Me encarando como se eu fosse um ser de outro mundo recheado de altruísmo. Quem esse infeliz pensa que é? Só rezando mesmo! AVE MARIA CHEIA DE GRAÇA ABRA ESSE SINAL ANTES QUE EU COMETA UMA DESGRAÇA.

(CRASH – BARULHO DE BATIDA DE AUTOMÓVEL – APAGA A LUZ)

Aparece em cena o motorista com roupa de presidiário, já velho.

- Agora estou aqui, velho, rancoroso, nesse pátio de penitenciária imundo, esse sol estúpido, negociando o meu cú quase-de-ferro pela terceira vez com o “Ticão da Paraíba”. A última coisa que me resta nessa vida. A porra da minha DIGNIDADE. O tempo é curto...Tá certo eu matei o palhaço...é verdade...não me arrependo, não, não... nunca me arrependi de nada. Mas caralho, quem é normal e quem é palhaço nesse mundo? Nunca conseguiram me dar uma resposta para essa merda! E logo eu, aqui...agora, dependendo urgentemente da “solidariedade humana”. Será que não tenho um primo distante, que seja uma tia velha e carente capaz de lembrar que eu existo? Que estou aqui nesse buraco necessitando de míseros TRÊS maços de cigarro? E eu que na outrora da outrora acreditei em ONGs, Óvnis, Igrejas, Maçonaria, Rotary Club, Lions....Longa trajetória para descobrir no fim da picada que a felicidade está nas coisas simples da vida. TRÊS maços de cigarro. Será que é pedir muito?

(TICÃO DA PARAÍBA ENTRA EM CENA)