terça-feira, 24 de abril de 2012

uísque para Jim Morrison



Definitivamente na nossa breve passagem por aqui fazemos coisas totalmente loucas e sem sentido. Pois sabendo que tia Maria Augusta estava indo morar um ano em Paris, de súbito tive uma idéia: escrevi o bilhetinho abaixo em inglês com nome e endereço do remetente(como se fosse possível o cara ler e responder), juntei uma foto minha com uma guitarra bem como uma garrafinha de uísque daquelas de hotel(como se ele pudesse beber), tudo corretamente embalado e colocado numa caixinha preta personalizada para a longa viagem...
Titia falou que vai cumprir a “missão” com muito gosto!(risos). Essas tias maravilhosas....
Agora resta esperar o seu retorno para ver o desfecho desta crônica gonzo a la Hunter Thompson.

"To Jim:
This is not the end my lonely friend
Hugs to eternity"


Prezada Tia Maria Augusta,
Desculpe incomodá-la, mas gostaria de lhe pedir esse favor: Desde a minha adolescência sou fã confesso do Jim Morrison do “The Doors”; o cara me influenciou muito em todos os sentidos... Todo roqueiro atuante deixa uma “lembrançinha” no túmulo do Jim Morrison que está no Cemitério “Père-Lachaise” em Paris.(é como ir a Meca para um Muçulmano) Vai ser fácil achar – é o túmulo mais visitado. Balzac fica até enciumado. Se não for pedir muito seria legal uma foto do local no momento da entrega e também um breve oração para sua alma atormentada. Sei que a Sra. deve estar achando tudo isso no mínimo estranho, mas garanto que ele merece toda essa póstuma consideração. Abraços Au Revoir

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Acidente



O exercício foi proposto no curso de dramaturgia do dramaturgo e escritor Lucas Arantes no espaço "A coisa" que começou esta semana - Escrever um diálogo sobre acidente sem as palavras acima - vejam no que deu:

Enquanto isso na mesa de um bar decadente depois da oitava cerveja barata:
- Ô mermão. Conta uma estória de desastre qualquer aí. Dessas de esquina, de sinal....
- Pois é, agora já era! Foi numa noite de domingo que o desastre aconteceu. Tinha 14 anos. O livro estava lá na estante a esmo me chamando pelo título improvável. “Sexus”. E eu com os hormônios saltitando vendo aquelas letrinhas amarelas e vibrantes “Sexus”.
- É mesmo....não vejo desastre nenhum nessa porra de estória?
- Pois então rapaz, calma... Para alcançar a prateleira superior subi numa banquetinha velha e capenga e quando já estava pegando o maldito livro escorreguei e me espatifei de costas no chão com o livro do Henry Miller que mais parece um tijolo caindo na minha cara; tudo ao mesmo tempo...como....como...como um sinal.
- Sinal? Explique melhor por favor?
- Vejamos...algo assim como um desastre prenunciando um outro desastre a caminho, o que só pude entender logo depois quando li o primeiro capítulo daquela “porra de estória” que transformou toda a minha existência.
- Caralho! Então foi algo bom não? Um grande revés para o bem?
- Acho que não vejo bem assim. Apenas um desastre com certeza. Depois com a idade veio Nietzsche, Schopenhauer, Primo Levy....e então o tombo foi bem maior. Mas aí é outra estória...
(silêncio...)

- Seu Toninho – manda mais uma loira gelada aí!

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Após o anoitecer....Haruki Murakami


Sempre me dei bem com pessoas de origem japonesa. Admiro o povo Japonês, sua disciplina, sua obstinação, seu poder de observação, seus silêncios que dizem tudo bem como a acurada visão simples da morte, da vida...Haruki Murakami talvez seja o maior escritor de “best-sellers” japonês porque além de escrever muito bem, tem uma pegada pop sempre temperada com muitas citações de fenômenos culturais recentes. Também é desprovido de afetação intelectual ou metafísica o que é um alento nesse mundo moralista e doutrinador. Esse livro “Após o amanhecer” é uma visão melancólica da madrugada e seus tipos solitários, nesse mundo multifacetado onde as pessoas não param para ver o outro, o outro lado dos estranhamentos. Os diálogos entre dois jovens que se encontram por acaso em um bar em Tókio servem para demonstrar que nem tudo está perdido...que a ternura de uma amizade sincera pode ser encontrada nos lugares mais improváveis: em um bar, numa praça cheia de gatos(Haruki adora gatos) ou mesmo em uma ante-sala de um motel barato. É a troca...é o outro....aquilo que brota da diferença. A experiência que transforma. Escritor de muita sensibilidade e habilidade na criação de personagens que não são utilizados para lições, ensinamentos ou segundas intenções disfarçadas. Apenas vivem....e são mostrados por cima, por baixo, por todos os lados onde o escritor coloca a sua câmera.. Seus livros parecem roteiros de cinema, onde vamos imaginando as cenas em suas diferentes tomadas com muitos detalhes do ambiente. A irmã linda que não quer acordar. A prostituta chinesa sendo espancada. O trabalhador solitário em seus momentos de introspecção obsessiva. Um traficante em sua moto. A proprietária de um estabelecimento comercial. Um trombonista... Vidas tão díspares que entrelaçam-se como no filme “Short Cuts” de Robert Altman. O que nos leva a crer que tanto faz estar em Los Angeles, Tókio ou São Paulo. Os problemas, os desafios e a solidão humana são semelhantes em qualquer parte do mundo "globalizado" e é preciso quebrar esse gelo. Não que a solidão seja ruim ela é importante, é o mote a inspiração do artista.(aqui recomendo o livro “Solidão. A conexão com o Eu” de Anthony Storr) Mas o livro questiona a solidão perniciosa, aquela que nos diz Francis Bacon: “A pior solidão é nos vermos privados da amizade sincera”. Dá-lhe Sandra de Sá!!!

segunda-feira, 5 de março de 2012

in-vagin-ação



cartaz do filme "A flor do Desejo" de Guilherme de Almeida Prado

“aquilo que não dizemos, nem reconhecemos torna-se segredo e este cria vergonhas, mitos e medos” Eve Ensler em “ Monólogos da Vagina”





Depois daquela milésima noite de sexo enfadonho e triste, com minha esposa nua já dormindo, que ela com seus cabelos negros sua pele rosada resolveu abrir seus grandes lábios carnudos e falar com toda a sua profundidade e sabedoria.
Tinha uma voz escura e triste mas com muita personalidade e como um eco distante foi logo reclamando:
- Você acha que isso que você está fazendo é certo não é?
- Uhunn não sei??? Faço o que posso!
- Pois saiba que tenho que ser bem tratada, ritmada, manuseada como uma música clássica, com estudo, com inteligência;
- É?
- Violência gratuita e nervosismo não estão com nada! Pressa então? Parece que você pegou um trem desgovernado a noite no escuro? Tem algum compromisso hoje a noite? Vai sair com aquela vadia de cheiro forte? Pois saiba que estou pouco ligando para suas vadias! Inclusive você poderia se inspirar mais nelas e fazer bem feito o serviço de casa não é? Não estou aqui para brincadeira...ou melhor estou aqui para brincadeiras sim! Para a arte para a poesia do amor e não para seus gestos mecânicos e repetitivos, sua introdução rápida e precipitada.
-Como??
- Não seja desentendido. Não é o seu gênero. Você sabe muito bem o que quer não é? Aqui estou eu toda cheirosa , aparada e bem tratada cheia de vontades e ambigüidades escondidas para seu deleite e sua cegueira não permite o vislumbre.
- Seja mais clara?
- Então vamos lá bobinho: Primeiro seria bom que você lavasse melhor suas partes íntimas. Afinal sinceramente eu não mereço misturar o meu perfume com o perfume dessas vagabundas que você pega por aí. Sem contar as doenças...faça o favor! Num segundo momento comece beijando com fervor, umidade e carinho, beijo de língua. Nós adoramos isso! Depois introduza bem devagar. Lembre-se daquela música do Martinho da Vila...”devagar....devagarinho”....e com o passar de alguns minutos, e não segundos, comece a aumentar o ritmo como um bolero, o bolero de Ravel. No auge da sinfonia ligue as guitarras e...aí sim....toque suas distorções pesadas de uma pedaleira Marshall, como um Kurt Cobain suicída, um Tom Waits desesperado. Deixe toda a sua loucura transparecer, sua verve criativa e criadora. O nosso êxtase. Finalmente não saia apressado. Permaneça em mim sem fingimentos. E é só isso.
- Só isso é?
- Sim! Fácil não? Da ternura à loucura à ternura novamente. E depois de algum tempo comece tudo de novo....no mesmo ritmo, com a mesma alegria....ahhh! como o Marcos na noite passada...
- Marcos? Caralho! Quem é Marcos???...
- Porra!. Eu e minha boca grande! Acho que falei demais.

(...)

E foi assim num diálogo bem aberto que descobri toda a verdade e que elas não conseguem guardar segredos. Desde então e graças ao Marcos me tornei um marido melhor. Corno é fato!...mas melhor.



Luiz Tinoco Cabral

sexta-feira, 2 de março de 2012

O HOMEM SEM SORRISO






“Vejam bem. O panaca leva um cascudinho e logo vai denunciar o colega para a diretora da escola ou para a Ong mais perto de sua casinha de bonecas. Se dependesse dos educadores de hoje, Flaubert jamais cogitaria em “Madame Bovary”... Henry Miller e Conrad não existiriam, e Kafka resolveria todos os seus problemas simplesmente soltando a franga. Tudo muito simples e colorido” (Marcelo Mirisola no conto “quatro alfinetes negros” do livro “Proibidão”)





Depois da interminável noite em mais uma festa literária de sorrisos falsos e letras apagadas, sem contar duas putinhas e o “ménage à trois” naquele hotel barato e sem estrelas...acordei com uma ressaca maior do que a Ilíada e a Odisséia juntas. Com a cabeça martelando repisadamente como uma música de Erik Satie fui tomar umas brejas na mercearia da esquina.

Lá encontrei os bêbados escrevinhadores de sempre em acalorada discussão sobre os poemas de Dylan Thomas. Tudo ia bem na minha mesmice confortável até aquele momento em que após uma piada maledicente sobre um conhecido escritor em que todos os presentes esboçaram uma gargalhada geral, unânime e burra o meu sorriso não veio.(???).No centro do Coliseu todos me olharam como se Nietszche em carne e osso aparecesse entre as prateleiras da mercearia travestido de apóstolo ensandecido proclamando o retorno do Messias.

Preocupado com a situação assaz constrangedora terminei meu estranho “mise-em-escène” e saí à francesa em direção ao banheiro.

Após uma bela “castigada na porcelana” que deixaria Marcel Duchamp orgulhoso, ao lavar as mãos, olhei fixamente no espelho quebrado e tentei em vão exercitar o sorriso.

Tentei lembrar piadas antigas, fiz cócegas no próprio corpo, gargarejos homéricos.....e nada! Tentei então levantar os cantos dos lábios com as mãos e em pânico “munchiniano” percebi que minha boca estava petrificada como um David de Michelangelo, e o que é pior, na horizontal, como um horizonte púrpura, triste e distante... Depois de duas horas de tentativas frustradas e sob os protestos veementes dos demais bêbados escrivinhadores que em fila aguardavam ansiosamente a vez de entrar no “WC”, tive um “insight” ou um “satori” que seja. Olhando no “fundo do âmago do meu ser” e dos olhos cansados percebi e disse a mim mesmo. “-Meu Deus! Sou um escritor velho e rancoroso em um mundo hipócrita e agora sem a capacidade de sorrir!!!!!! O que fazer?

No dia seguinte acordei da mesma maneira. Horizonte estático. Esperei até às dez horas fui na locadora de vídeos e aluguei todos os filmes do Monty Python. Passei a tarde inteira assistindo, inclusive aquela que é considerada a piada mais engraçada do mundo...e nada novamente! Tentei então Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo. Não resolveu!

Foi então que eu percebi que a situação era mais grave do que pensava....

Depois de dias e dias sem rir de nada e ninguém....sem inclusive conseguir rir dessa situação risível resolvi apelar. Veio-me a mente uma frase de um escritor que sempre abominei, mas que naquele momento tinha um apelo salvador...mágico....transcendental... “O medo de sofrer é pior que o próprio sofrimento”. Paulo Coelho. Resolvi então consultar um médico psicanalista.

Dr. Hermanoteu Kurrr Zimmerrr era adepto da terapia da regressão por hipnose. Ao entrar no seu consultório tudo o que eu esperava era que ele não fosse barbudo, grisalho usando óculos e com sotaque alemão. Dito e feito! Ele era barbudo, grisalho usando óculos e com sotaque alemão. Nem bem entrei já foi logo soltando esta pérola para “descontrair” o ambiente:

“-O psiquiatrrra vira para o paciente e diz: - Meu amigo, eu tenho uma boa e uma má notícia parrra você. A má é que você tem forrrtes tendências homossexuais. – Meu Deus Doutorrr! e qual é a boa notícia? – A boa notícia é que eu acho você um gato.”

Não fiquei em dúvida se ria ou chorava porque por óbvio eu não ria. Horizonte estático. Verdade momentânea estabelecida. Mas que pensei seriamente em virar as costas e ir embora pensei...pensei...e... muito contrariado e tendo em vista o meu desespero absoluto insisti já que o Dr. Kurrr foi muito bem recomendado por uma amiga da amiga da minha mãe lá de Taubaté.

-Pois então... Dr. Kurrr, desculpe-me pelo meu semblante é que o estou procurando exatamente porque não consigo sorrir mais.

- Ahhhhhrrr! Interrresante!(...)

- Vamos fazerrr uma sessão de hipnose parrra buscarrr os fatos marrrcantes e trrraumáticos do passado que deram orrrigem a essa aberrrrração emocional em seu rrrosto! E continuou:

- Ao vivenciarrr novamente e removerrr esse trrrauma, você vai adquirrrirrr um novo ponto de equilíbrrrio interiorrr que permitirrrá a sensação física de sorrrrrirrrrr novamente!!! Rrrá Rrrá Rrrá!

Ato contínuo apagou parcialmente a luz colocou uma música do Kitaro em parceria com a Ênia, acendeu um insenso de alecrim, erva cidreira e abacaxi e começou a falar baixinho...baixinho....como uma bossa nova...um banquinho e um violão:

- Relaxe...Relaxe. Deixe sua mente relaxarrr....

Eu - escritor por ofício - e por natureza com criatividade, imaginação fértil e adubada, ou seja, altamente susceptível, logo fiquei em posição fetal e entrei em transe profundo.

- Tente lembrrrar os fatos recentes até os mais longínquos....

A príncipio lembrei aquelas duas putinhas de noites passadas. Como eram vulgares....e uma delas insistia que eu fizesse cunillingus na sua amiga e eu dizia que não...que achava nojento e que ao chegar perto daquela fenda escura e fedida eu começava a imaginar os inúmeros paus entrando e saindo, entrando e saindo....E ela falou que eu era um babaca, “-um babaca da porra!” O que só piorou a situação e depois desse belo diálogo eu até broxei...broxei com as duas como nunca tinha broxado antes....E ao chegar em casa lembrei de Marlon Brando e Romy Schneider e do tempo em que os filmes eram proibidos... e toquei uma bela punheta com o pinto jorrando como uma garrafa de champanhe francesa e os espermatozóides chegando até o teto como se fosse uma oferenda aos céus!

Voltando um pouco mais no tempo, em um rápido vislumbre lá estava eu na festa literária de sorrisos falsos e letras apagadas no momento exato da entrega do prêmio tatu-bolinha. Estava esperançoso. Era a primeira vez que era indicado....isso depois de nove livros publicados em editoras marginais. O meu novo livro “Copofragia da Alma” tinha um apelo estético diferenciado; tinha até um lado metafísico que eu nunca tinha demonstrado antes. Já estava até me vendo tirando o pé da lama(no meu caso da merda mesmo!), pagando os aluguéis atrasados, a prestação do financiamento do corcel II....Mas tudo em vão. Aquela loira aguada, misto de apresentadora de televisão com lésbica virgem pedófila anunciou: “-E o vencedor do prêmio tatu-bolinha do ano é............ “O Mago Vampiro no Jardim Eterno” de Paulo Fonseca Testa”. Muitos aplausos; E ainda tive tempo no meu rápido vislumbre de ver o sorrisinho sarcástico do Paulo em minha direção. (Puta que pariu! Que transe do caralho!).

E depois dessas e outras no meu transe “dos diabos” continuei regredindo....regredindo até aquelas infindáveis recusas das grandes editoras e revistas de circulação nacional; vi aquelas cartas muito educadas, polidas e padronizadas que sempre diziam mais ou menos assim: “Prezado Sr. Agradecemos o seu interesse, bem como o envio de seu texto, porém por motivos de inadequação ao estilo, grande número de escritores e grade reduzida não poderemos aproveitá-lo nesta oportunidade. Atenciosamente(,,,)”. Essa é a maneira que os sacripantas arrumaram para dizer que os meus textos não serviam sequer para limpar suas bundas gordas.

Um pouco mais atrás no tempo e espaço(diria bem mais atrás!) me vi no lançamento do meu primeiro livro. “Expulso da Zona sentei no meio-fio e chorei”. Lá estava eu com meus fartos cabelos compridos(que hoje não existem), minha boina francesa e minha camiseta do Che naquele bar suspeito, com mais um amigo hippie, um amigo punk, minha mãe e....minha namorada no palco imitando a Betânia e tocando músicas do Vandré e do Mautner. Foi um sucesso estrondoso!!! E lotamos o bar naquela noite...nove pessoas.(Contando o Che, Betânia, Vandré e Mautner). Ahhh!!!! minha miséria dourada...eu ainda sonhava com a revolução...em coisas singelas como: “quem sabe faz a hora não espera acontecer”.

Mas toda a sessão de regressão caminhava de modo previsível e monótono até o momento fatídico daquela estranha visão do passado. Aquele que poderia em tese ser o trauma capaz de gerar toda a minha infelicidade que culminou na petrificação e materialização do sorriso travado. Meu Deus!!Lá estava ela com seus cabelos presos e negros, seus olhos escuros, raivosos e petulantes. Uma mistura de Virgínia Wolf com Simone de Beauvoir. Senti até calafrios....que medo!

Era ela! DONA DINORAH minha professora de português na sétima série do Colégio de Freiras em que estudava.

A escola lançou um projeto para a edição de um livro com textos dos alunos de todas as séries. Os melhores seriam publicados numa edição comemorativa dos 498 anos da congregação das freiras e distribuídos pela coletividade e quem selecionava os textos era...??? Resposta: DONA DINORAH!

Como até então e sempre eu era um nada no universo, uma insignificante partícula...um nêutron, ou pior, um projeto mal acabado de escritor, virgem e procurando seu lugar no mundo me empenhei de corpo, alma e mente e escrevi textos de extrema qualidade, muito ricos de humor e sagacidade. Eram textos geniais; algo novo que mesclava fluxo de consciência com fluxo de inconsciência, dadaísmo, anarquismo...com muitas menções e citações. Vanguarda pura! E eu só tinha 13 anos. Um Rimbaud dos trópicos!

Porém DONA DINORAH assim não entendeu. Não só não selecionou nenhum dos meus textos como me chamou na sala dos professores, esfregou-os literalmente na minha cara na frente de todos e disse que “aquilo” que eu escrevia era pornografia pura. “-Um desrespeito; Um despautério!!” Que só não me expulsava da escola em consideração ao meu saudoso pai. Ato contínuo pegou uma régua T daquelas de engenheiro e quebrou na minha cabeça. E ainda pude ver o sorrisinho sarcástico de um coleguinha, Emílio Zureta que não sei por que motivo estava na sala dos professores; escreveu o texto “Minhas férias na praia” e foi selecionado com menção honrosa. (Puta que pariu! Transe do inferno!).

(...)

- Mas....espera aí? O que é isso que nunca tinha reparado no rosto da DONA DINORAH ? Ah ah ah! Ela tem um buço português! Um bigodão parecido com o da Frida Khalo! Ah ah ah! E tem pelos saindo pela orelha também! É a cara do Chewbacca do filme “Guerra nas Estrelas” Ah ah ah!

-Meu Deus...quanto sorrisos amarelos....quantos livros “sérios” escritos....quanto tempo perdido.... –Socorro Marcel Proust!

Nesse instante final de estágio intermediário de consciência tive uma iluminação e uma ereção. Saí do transe e da posição fetal sem qualquer ordem médica nesse sentido para o espanto do Dr. Kurrr que nunca tinha visto nada parecido nos seus trinta anos de profissão. (em parte foi culpa do Kitaro!)

Virei para o coitado e falei: “-Vai tomar no currr Dr. Kurr! Enfia o meu salsichão no seu chucrute! Foda-se o tatu-bolinha!”; E com um sorriso no rosto que a muito tempo ausente sai pelas ruas desafiando a todos e escrevendo como um louco.

Eu estava curado.

Luiz Tinoco Cabral texto escrito no ano passado

sábado, 11 de fevereiro de 2012

um dia de chuva qualquer



Tem dias que não sinto a menor vontade de investir em planos, em futuro, em projetos que nem sei bem a razão de sua existência. Aliás nem sei bem a razão da minha própria existência. A chuva cai lá fora. Escuto os barulhos dos trovões na minha alma cansada. Onde estarão os pássaros agora? Embaixo de alguma marquise velha e descascada....quem sabe....Os amigos nos cobram atitudes. Os inimigos nos cobram atitudes. Todos nos cobram “algo mais”. E por quê? Que tal derramar o corpo nesse colchão branco em forma de nuvem e ficar simplesmente horas pensando em inércias, em insetos falecidos, em pássaros semi-molhados em marquises? Sinto o luz dos relâmpagos eclipsando a minha retina, seja lá o que isso signifique. No canto esquerdo desta mesa vejo um pequeno papel...um envelope... - uma conta que esqueci de pagar porra! E num lampejo trovejante e iluminado por um raio caio de boca na realidade. Definitivamente não nasci para poeta. Quem foi que disse que poeta bom é poeta morto? Zeca Baleiro ou Robim Willians? Dúvidas descem pela ladeira numa enxurrada de idéias desconexas. São as águas selvagens em demasia que nos levam para os “mares nunca dantes navegados”. Mas não desisto! Um dia encontrarei o melhor dos mundos possíveis...num verso de Camões...numa peça de Voltaire ou numa chuva du caralho!
(eu não resisto – eu sempre tenho que estragar tudo no final! – risos.)

domingo, 22 de janeiro de 2012

vinte e poucos anos atrás


Há vinte e poucos anos atrás eu era o cara aí em cima na foto. Estava na Europa no inverno muito bem acompanhado das amigas e irmãs Acosta de Porto Rico; conforme se verifica usava um casacão do meu avô, cachecol branco e tinha muitos sonhos e muito mais cabelo como é fácil constatar.
Desde essa época já escrevia com constância no meu “Diário” com a minha Remington portátil e guardava algumas coisas em pastas para “posteridade”. As religiões passaram, os espasmos atléticos, os ideais políticos, os fartos cabelos, a Remington portátil.... mas a literatura ficou em minhas entranhas, no meu modo particular de encarar as coisas e suportar a loucura do cotidiano.
De todos os escritores que li talvez tenha como maior ídolo Charles Bukowski que certa vez confessou: “essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura”.
E é mais ou menos nessa pilastra que a coisa toda se sustenta.
Num momento de nostalgia , gripe forte e falta de inspiração começo a reler essas coisas antigas, muito ruins, diga-se, mas que me protegeram e me ajudaram em algum momento da vida. Recomendo ler e escrever como forma de terapia gratuita, de auto-conhecimento.
E para não dizerem que estou mentindo aí vai um trecho do antigo “Diário”: “24/08/1992 – Hoje me vejo por outro ângulo. Abaixo do chão. Sem pretensões faraônicas, desejos demoníacos, sonhos onipotentes. Mais um mero mortal em busca de sexo, prazer, dor, aceitando suas imperfeições. Apaixonado pelo bar da esquina, árvores em torno de um lago, levar o cachorro na praça, escavar a terra, desmanchar torrões, suar...Sentir o vento, fugir da fumaça, tomar sol, andar de terno pelas ruas calorentas, ver os sonhos, escolher alguns e jogar outros fora. Filtrar os sentidos, tomar uísque ao cair da tarde, cair junto com a noite, despedir de tudo e de todos para longas viagens sem destino. Sentir a vida, beijar o erro, sublimar a relatividade. Hoje me vejo simplesmente assim. Simplesmente como tudo deveria ser. Mas não é. (...)
Legal não é? Poder relembrar estados de espírito, humores.... Acho que nessa época Kerouac e Hemingway já faziam parte da minha vida. Pois então...graças a boa literatura sobrevivi e ainda acredito no carinha lá de trás, do passado longínquo e do cachecol ridículo. Não é pouco. Não é fácil.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Henry Miller sempre...


o escritor e sua inspiração literária

Começo de ano e as velhas idéias e os velhos escritores de sempre. Mas fazer o quê? Não consigo achar nada que me diga mais do que Henry Miller por exemplo. Tá certo que o cara em determinados momentos deixa o lado autobiográfico de lado(o melhor) para aventurar-se em teses mais diversas sobre a vida (não tão melhor assim). Mas como não dar valor a isso: “Hoje o indivíduo está praticamente extinto. Hoje nós temos o robô, produto final da era da máquina. O homem funcionando como um dente de engrenagem numa máquina sobre a qual não tem nenhum controle”. Como discordar ? Mais atual impossível não? E não para por aí, o velho/novo Henry conclui “de geração a geração, isso continuará, até que uma criatura isolada escape às mãos dos vivisseccionistas e inicie um mundo próprio”. Resta portanto um fio de esperança. O escritor no seu “O mundo do sexo” escreve um verdadeiro tratado contra os horrores da vida cotidiana, do homem dormindo em berço esplêndido e deixando as coisas acontecerem ao seu redor sem a sua participação. O antídoto para o escritor é viver e gozar a vida sem pensar em progresso e invencionices. Não bloquear os desejos e prazeres....Fácil entender Henry Miller. Por isso que o leio....sempre....E leiam também Sexus Plexus Nexus(na minha modesta opinião o ponto forte de sua obra), assim como os Trópicos de Câncer e Capricórnio(os mais divertidos e despudorados).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

mensagem bukowskiana de final de ano


Sem "onçinhas pintadas, zebrinhas listradas e coelhinhos peludos"; somente assim poderia ser a minha mensagem de final de ano. Aliás ano bem estranho não? Começei como sempre todo atlético progressista e terminei todo artístico decadente. Lendo "Abacaxi" de Reinaldo Moraes e "O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio" de Charles Bukowski. O primeiro livro tem o mérito de narrar a transa mais nojenta e suja da história da literatura. Não é pouco....O segundo nos mostra que a velhice e a rotina chegam para todos até para o velho Buk. Pois é dele e do já citado livro que extraio a aludida mensagem de final de ano : "Não há nada a lamentar sobre a morte, assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou não levam até a sua morte. Não reverenciam suas próprias vidas". Desta feita desejo a todos que por aqui passaram um ano novo regado de vida bem vivida e sem desperdicius vivendis!!!!Com muita literatura de qualidade é claro! Abraços.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A Primavera do Dragão


“A Primavera do Dragão” de Nelson Motta , Editora Objetiva é uma primorosa edição e bem delineada biografia de Glauber Rocha no curto período compreendido entre a infância do cineasta na Bahia e a consagração em Cannes com o filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (infelizmente coincidindo com o golpe militar de 1964). Nelson Motta como todos sabem é um cara “antenado”, “ligadão” que inclusive me convenceu em outros tempos a visitar uma Igreja Batista no Harlem às oito da manhã de domingo. Tudo pela música!(desconfio até hoje que ele “leva um” do Pastor). O Nelson tem essa coisa de ampliar o mito e de quebra sem qualquer dor na consciência lucrar algum. Deixando a falta de distanciamento e mercantilismo de lado é delicioso embarcar em outros tempos especialmente no período de meados dos anos 50 e 60 quando a cultura era algo grandioso, com intuitos nobres, ideologias, os artistas se conheciam eram amigos, se ajudavam etc. Os “causos” durante as filmagens de Deus e o Diabo na pequena Monte Santo são ótimos. A população local achava que a Yona Magalhães era uma princesa e foram seduzidos a trabalhar como figurantes durante horas e dias em troca de leite em pó. Bons tempos....Acho que é isso que está faltando no cinema atual e porque não nas artes em geral. Precariedade, falta de profissionalismo. Não quero dizer que tudo se resume a “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”. Tudo tem seu tempo é claro, ninguém agüenta mais isso; mas verifico que Glauber e os demais precursores do cinema novo ainda tem muito a ensinar. Glauber é o exemplo da vontade de mudar as coisas, do inconformismo, da subversão, do radicalismo. Nos dias de hoje só isso é um alento, uma inspiração. (e desconfio que vem continuação da biografia por aí!). Isso é claro se o sertão não virar mar.

domingo, 13 de novembro de 2011

Charque de Marcelo Mirisola



Todo lançamento de um novo livro de Marcelo Mirisola não é apenas um lançamento mas um acontecimento(para desespero de muitos). Deixando todas as polêmicas de lado fico com o que disse o escritor e roteirista Renzo Mora em seu blog :” Mirisola é importante por ser um grande escritor.(...) Somos contemporâneos de um grande artista”. Tanto que de minha parte não deu para esperar a boa vontade das livrarias daqui de Ribeirão Preto e logo encomendei o meu exemplar de “Charque” na competente e simpática Livraria Travessa do Rio de Janeiro. Foi muito engraçado quando o meu filho de oito anos chegou na sala e me perguntou? “-O quê você está lendo pai? Tubarão? “-Tubarão?” “–É pai...Charque (Shark) não é tubarão em inglês?” Muitos risos o que me levou a explicar para ele que Charque não era tubarão mas sim e provavelmente isca de tubarão; Pois não é que o livro me fisgou de primeira? Está tudo lá novamente: as empregadinhas, os azulejos, os manos, os pastores, o mundinho literário, a classe média, a velha apresentadora...e o improvável lirismo que o escritor consegue tirar de coisas tão díspares e multifacetadas. E por falar em risos a muito tempo que eu não ria tanto com um livro na mão. (desde Pornopopéia). Meu filho deve achar que estou ficando louco, variando, rindo sozinho....E não sei quem foi que falou que o Mirisola não arrebenta no exterior porque é impossível explicar para os gringos e traduzir por exemplo: “Sérgio Malandro”. É verdade....coisas do gênio incompreendido. O bom e velho Mirisola está cada vez melhor. E como tenho conhecimento de causa e li todos os livros dele posso eleger os três melhores: “O Azul do filho morto” , “Bangalô’ e agora o “Charque”. Vamos mandar uns exemplares para a “Acadimia”, “Acadimia”, “Acadimia”.(essa é dele) Mirisola está pleiteando a vaga do Paulo Coelho. Tem meu apoio! Se precisar faço até campanha!

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Lendo romances com Orhan Pamuk


Geralmente nesse espaço coloco em foco análises superficiais de livros. Aos poucos fui abandonando a análise de músicas, discos, artigos de revista, shows e outras manifestações culturais. Estou errado! O site é de literatura e afins e não há qualquer motivo para priorizar a arte literária. Tudo é arte, tudo é vida, tudo é imitação da vida e tudo pode servir de enredo para escola de samba. Entendeu? Toda essa introdução é para indicar um artigo que reputo essencial para pretensos escritores e ávidos leitores. “Ler um romance” de Orhan Pamuk na revista Piauí de novembro, número 62. É um textão em todos os aspectos e se você tiver fôlego lá poderá aprender a diferença constatada por Schiller entre o escritor ingênuo e o sentimental e aumentar o seu arcabouço crítico quando estiver com os olhos enterrados em mais um calhamaço arcaico de papel ou com os olhinhos vidrados na tela do seu tablet. Marcelo Mirisola tem reservas em face da revista Piauí. Na minha modesta opinião ele também está errado. É uma das poucas revistas que nos permite um texto mais tranqüilo, estudado e longe da ejaculação precoce reinante nas fábricas de texto(bordéis?) espalhadas por aí. Sou contra misturar política com arte e a submissão artística ao capital. Mas definitivamente não vou deixar de ler ou escrever em uma determinada revista só porque ela é patrocinada por este ou aquele banco, por aquela ou aquela mesma empresa do ramo petrolífero. Acho que nesse ponto talvez eu me enquadre na classificação de Schiller como um escritor/leitor ingênuo. Fazer o quê!? Orhan Pamuk tem a tranqüilidade neste belo ensaio em demonstrar todas as nove "operações mentais" elaboradas por nossa mente durante a leitura de um livro de ficção citando e usando como exemplo livros fundamentais como “Don Quixote” de Cervantes, “Anna Kariênina” de Tolstoi, “A montanha Mágica” de Thomas Mann, “A Educação Sentimental” de Flaubert dentre outros. Toda essa “operação mental” (ler) visa uma busca incessante por uma identidade própria/nossa com o romance, “a idéia de um centro” que é, segundo Pamuk, o objetivo de todo o leitor. O texto ainda traz dicas fundamentais como essa: “Quando lemos um romance, a moralidade deve ser parte da paisagem, não algo que emana de dentro de nós e se volta contra as personagens”. Deixe a moral de lado meu caro; Não fique julgando o Raskólnikov de “Crime e Castigo” de Dostoievski como um membro de um júri em um regime ditatorial.Aliás, se me permitem, ando de saco cheio de Juízes implacáveis e acima de qualquer suspeita que peidam em seus gabinetes e botam a culpa no réu.(risos). Entendo que ao ler qualquer livro devemos deixar os nossos preconceitos de lado inserindo-se na paisagem como um homem invisível, uma névoa chegando devagar...devagarinho....como uma música do Martinho.(não resisti a esta deplorável riminha) Como muito bem concluído por Pamuk “cada frase de um bom romance suscita em nós um senso de conhecimento profundo e essencial do que significa existir no mundo”. Precisa dizer mais alguma coisa? Corra para a banca mais próxima e de quebra leia na mesma revista o ótimo texto de Ricardo Lísias que tem como mote às diferentes matizes entre a dor e a solidão após uma perda ou o esgotamento de uma fase. O título do texto é “Divórcio”. Bem sugestivo...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

metamorfose ambulante



Relendo o livro ou conto "A metamorfose" de Franz Kafka, sempre sou surpreendido com a capacidade do escritor em dizer tanto de uma maneira tão sutil e com tanta imaginação. Uma estória meio sem sentido, flertando com o realismo fantástico serve para analisarmos as relações familiares, o trabalho, as relações sociais dentre outras inúmeras interpretações e estudos que o livro suscita. Mas a questão principal que fica(pelo menos para mim) é até onde vai a nossa tolerância com as diferenças nos diversos âmbitos, inclusive o estético e cultural.(???). Mais pop e atual impossível.(livro escrito em 1912 publicado pela primeira vez em 1915).

Mulheres de Bukowski


Será que existe assunto melhor? Que me desculpem os amantes do futebol e da cerveja, mas nada melhor do que falar, analisar e porque não deleitar-se com elas; é o mistério feminino que jamais será desvendado. O livro traduzido por Reinaldo Moraes é uma sucessão de erros e acertos de um escritor cinquentão no auge de sua maturidade entre junkies, putas, donas de casa, comerciantes, garçonetes, fãs de literatura, ricas, pobres, feias, bonitas, sujas, loucas.....até um final surpreendente onde Chinaski após toda a sua jornada assume a sua culpa, insignificância e sordidez perante um ser tão sagrado. Um verdadeiro Martinho da Vila ensandecido. Um Jece Valadão sem sua ridícula "conversão". E de todas aquelas e outras termina o livro com uma mulher improvável. O oposto. O “verso do reverso da medalha”. Para espanto do guru Drayer Baba (só lendo o livro para entender). No dizer de Sara, a mulher derradeira “-Trepar não é tão importante”. Pode isso???? Até o velho Buk (e o Mirisola também em seu “Joana a contragosto”...). Para espanto geral da nação Bukowskiana é dele(ou de Chinaski tanto faz) a seguinte frase: “um homem pode perder a sua identidade de tanto galinhar”. O que me leva a crer que esse negócio de machismo é só fachada, uma defesa natural do homem. Agora...essa literatura não é para qualquer um já que Bukowski como já salientado várias vezes escreve com sangue, fezes, porra e diversos excrementos sem poupar ele próprio, a sociedade, suas esquisitices e as pessoas que perambulam em sua circunferência. Tenta a todo custo demonstrar que a vida não é para amadores, para desavisados, para garotos(as) corados(as) com seus shortinhos em restaurantes da moda. Enfim, Bukowski é para quem gosta de ir direto ao clímax com poucas preliminares. Essa é minha introdução! (sem duplo sentido é claro).

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

- Ele é o cara!


Tá certo que Schopenhauer não é o principal jogador do Santos da atualidade ,não tem cabelo estilo moicano, mas um cara que tem “Schope” no nome e fala verdades sem qualquer receio ou pudor só poderia ser devidamente homenageado nesse espaço. A tempos que venho criticando o rebuscamento de linguagem e livros sem algo de substancial a dizer. Pois este livro de Schopenhauer “A arte de escrever” Editora L&PM, organizado, traduzido e prefaciado por Pedro Sussekind vai de encontro a quase tudo que penso e observo na literatura contemporânea. E olha que são textos extraídos do livro “Parega e Paralipomena” escrito pelo velho “Schope” em 1851. Poderia citar várias passagens que grifei mas em respeito a síntese e considerando o quanto exposto acima apenas esta é suficiente: “Quem tem algo digno de menção a ser dito não precisa ocultá-lo em expressões cheias de preciosismos, em frases difíceis e alusões obscuras, mas pode se expressar de modo simples, claro e ingênuo, estando certo com isso que suas palavras não perderão o efeito. Assim, quem precisa usar os artifícios mencionados antes revela sua pobreza de pensamentos, de espírito e de conhecimento.” (pág 84). E tenho dito! O velho “Schope” com todo o seu sagrado mal humor é o cara!!!!

De corpo e alma




Hilda Hilst em Biarritz (1957)

Ontem estive numa palestra de signos e literatura revendo uma antiga musa inspiradora. Ao contrário da Bruna Lombardi e Magda Cotrofe a escritora Hilda Hilst ao envelhecer foi ficando melhor(mulher uísque); e quanto mais o tempo passa, mesmo após a sua morte, mais entendo os motivos dela inspirar tanta inspiração em contrapartida às outras duas que só inspiravam tesões e gozos descartáveis em um passado longínquo de hormônios enfurecidos.(Desculpe Bruna! Desculpe Magda!) É que de Hilda Hilst eu gosto das curvas e da sensualidade de suas palavras que são únicas em seu contexto, são eternas. Como diria a própria : “líquidas, deleitosas, ásperas, obscenas”. E como não vou levar nenhuma delas para cama pelos mais diversos motivos e também porque não sou necrófago fico sem pestanejar com os livros que não me cobram sentimentos ou atuações. Não os livros de Bruna(que pecado! Um dia ela acerta a pena!) mas os de Hilda. Sei... sei que Hilda Hilst não quer sua alma na minha cama. Aliás a taurina nunca quis sua alma na cama de ninguém como decantado em um belo poema.(a Deus o que é de Deus!) Mas o que posso fazer? O corpo foi-se infelizmente. Ficaram somente algumas fotos amareladas, uma casa velha e a alma da poetisa em suas belas e erotizadas palavras. (-Os livros porra!) E posso garantir que não é pouco. Tesão incomensurável. No dizer da escritora nunca é tarde assim como é desejável transmudar-se. Será que estou amadurecendo ou é a morte dobrando a esquina? Onde foi parar minha coleção de “playboys” antigas? São tantas dúvidas....
(para Roberta)

domingo, 30 de outubro de 2011

- Eu preferia não fazê-lo


Não é de hoje que sou fã de Herman Melville. A muito tempo atrás li o clássico Moby Dick sem conseguir desgrudar os olhos do livro. Uma aventura épica da obstinação humana até a sua anunciada destruição.(o homem e suas “pretensões”) Mas esse livrinhho “Bartleby, o escrivão” Herman Melville com apresentação de Jorge Luis Borges Editora José Olympio também não deixa nada a desejar. (guardadas as devidas proporções). É o relato da vida de um escrivão e sua rotina cheia de burocracia e tédio que o leva a uma revolta pacífica com a simples frase “-Eu preferia não fazê-lo”; atitude esta que desmonta por completo toda a ordem pré-estabelecida e a paz reinante, criando uma revolta e uma incompreensão no ambiente e na sociedade. Um singelo libelo contra o autoritarismo, o trabalho como forma de garantia do “pão nosso de cada dia”, preconceito contra as diferenças e porque não contra o sistema capitalista de uma forma ampla. É por isso que Jorge Luis Borges compara Melville a Edgard Alan Poe. Precisa dizer mais alguma coisa? E poderia ficar aqui horas enaltecendo e analisando o livro mas para não perder uma piada pronta: “-Eu preferia não fazê-lo”. E lá vai o mantra leiamleiamleiamleiammmmmmmmmm.

"Killing an Arab"


Música do The Cure inspirada no livro “O Estrangeiro” de Albert Camus. O livro relata a rotina do protagonista Mersault que leva uma vida ordinária mas autêntica até a morte de sua mãe e o assassinato de um árabe, que o leva a prisão, julgamento e condenação. São reflexões do absurdo da vida que nos empurra para prisões; do ser humano que cria códigos, sistemas, convenções “morais”.....que no fundo o privam de sua própria liberdade de agir e principalmente de pensar. É a total falta de sentido do cotidiano criado e repisado exaustivamente pela história, pelas instituições e pela sociedade em geral. A angústia do personagem que pretende apenas uma coisa. Ser livre. E o preço da liberdade é seu pescoço na guilhotina e o ódio dos conformados. E o livro termina exatamente assim na tradução de Valerie Rumjanek 32ª. Edição, Editora Record, 2011 página 126: “(...)enfim, senti que tinha sido feliz e que ainda o era. Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio”. Sem sombra de dúvidas patente a influência da filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre. Livro delicioso e indispensável. Ahhhh....você está aí reclamando que eu escancarei o final do livro. Pode ficar tranqüilo, a graça não está no final mas no estilo, nas entrelinhas e no desencadear de toda a trama. Obra prima é assim! Au revoir.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Roberta Ferraz e Tinoco



Aqui estou eu em mais um lançamento de livro, desta feita da escritora Roberta Ferraz numa edição repaginada de seu primeiro livro Desfiladeiro. Roberta além de escritora estuda astrologia e vai dar uma oficina aqui no Instituto Figueiredo Ferraz unindo suas duas paixões.(astrologia como forma de linguagem analisando clássicos da literatura mundial) Fica a dica - é só entrar no site do instituto http://www.institutofigueiredoferraz.com.br

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Roland Barthes na playboy da ante-sala do cabeleireiro




Sigo nesse exercício solitário de ler, longe da arrogância que “circula, como um vinho forte entre os convivas do texto”. Frase entre aspas de Roland Barthes extraída do livro “Roland Barthes por Roland Barthes” Editora Estação Liberdade.
Uma vez no 2º. Colegial do Colégio Santa Úrsula fizemos uma aposta com um amigo; ele não seria “macho” o suficiente para chegar no professor de física e entabular o seguinte diálogo:

-Professor sabe o que descobri?
- O que foi meu filho!
- Que eu sou burro!

E vocês podem acreditar que perdemos a aposta?(esse amigo sempre foi arrojado) E sabe qual foi a resposta do professor?
- Que bom! Isso é sinal que você está deixando de ser burro!
Ótimo não? Homenagem ao professor Peres que teve grande presença de espírito e ensinou uma grande lição para todos nós que estávamos no auge das bobagens reinantes da pós-adolescência arrotando certezas e falsas premissas.
Pois é....lendo esse livro do Barthes com considerações tão inteligentes a primeira coisa que sou obrigado a reconhecer é exatamente isso. “-Sou burro!”
O filósofo em questão tem uma consideração peculiar e única com pontos de vista sempre bem abalizados sobre todos os assuntos reinantes na face da terra. Assuntos que para um filósofo de boteco como eu sequer poderiam ser assuntos, muito menos discutíveis, mesmo após meia dúzia de cervejas e quatro caipirinhas. Barthes no auge de todo seu conhecimento nunca encerra uma conclusão fechada em si, tendo ojeriza das verdades absolutas e das ideologias que procuram acobertar o lado obscuro das proposições.
Você se acha acomodado? Resposta de Roland Barthes: “é somente ao olhar o infinito que o olho normal não tem necessidade de acomodar-se.”
Estou envelhecendo? Resposta de RB: “Lembro-me com loucura, dos odores: é porque envelheço”
Uma cena de casamento por RB: “quantas cenas conjugais não se acomodam ao modelo de um grande quadro pictórico.”
Utopia da ciência: “Imagino, utopicamente, uma ciência dramática e sutil, voltada para reviravolta carnavalesca da proposta aristotélica, e que ousasse pensar, pelo menos num relâmpago: só há ciência na diferença”.
E acreditem se quiserem mas cheguei até esse livro por uma indicação de leitura da Revista Playboy na ante-sala do cabeleireiro. (???)
Em suma: livrinho bom para ler várias vezes mantendo-o na cabeceira da cama para várias noites de prazer. Nunca é tarde para uma descoberta e o reconhecimento da ignorância nas belas curvas de uma coelhinha. Nem só de instintos carnais vive o homem. De asno a pégaso; uma patada bem dada e merecida no estômago.