quinta-feira, 31 de março de 2011

Desesperar jamais


Não pensem que morri, continuo aqui, incomodando muita gente que acha que a vida resume-se a um holerite no final do mês e um serviço “burrocrático” para passar o tempo e enaltecer a sua “superioridade” fabricada. A vida é mais do que um Corcel 73. E como diria Plínio Marcos indagado se tinha rancor e ódio daqueles que lhe perseguiram, censuraram etc. a resposta é negativa, “- Eu fiz por merecer!”. Dizia o bardo dos excluídos. “DJ- canções para tocar no inferno” de Mário Bortolotto. Livro fácil e agradável; algo assim como tocar e ouvir um blues. O assunto recorrente dos boêmios da noite urbana, da música e da bebida; acompanhado de muita violência e altas filosofias de boteco. Texto muitas vezes em 1ª. pessoa e que demonstra um pouco da vida do autor e seu modo peculiar de encarar as coisas. Estive vendo e ouvindo o Mário numa palestra aqui em Ribeirão. Totalmente recuperado dos tiros que levou em seu teatro numa tentativa frustrada de assalto. Bom vê-lo a todo vapor e agora dando tiros certeiros. Um pouco deprimido é certo mas acho que ele sempre foi assim mesmo. Descobri também um grande escritor Marçal Aquino no seu livro “O Invasor”. Já tinha visto o filme mas não posso deixar de cair naquele famoso lugar comum. “-o livro é muito melhor!”. É a estória de uma sociedade de engenheiros e toda a podridão humana por trás das aparências. A falta de moral e ética do mundo moderno. Com grande maestria Marçal por trás de uma estória aparentemente simples acaba por escrever um verdadeiro tratado da condição humana. E vale a pena ver sua entrevista no “Provocações”. Entre no You Tube. E é isso. Ontem foi meu aniversário e desta feita agradeço sinceramente todos os amigos que lembraram, passaram lá em casa, me ligaram etc. A cerveja como sempre acabou. O que vale nessa vida são as amizades sinceras! E um bom livro de cabeceira. Que cachorro nada! O melhor amigo do homem é o livro. E o título deste post é uma alusão a um dos contos do Marião estranhamente baseado na música de Ivan Lins. Quem diria heim? Marião/Ivan Lins. Dupla improvável. Agora estou lendo o novo do Lourenço Mutarelli “Nada me faltará”. Quando terminar escrevo qualquer coisa aqui.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A mesma praça....

Haruki Murakami - correndo para escrever


Mais um ano começa e com ele as velhas promessas, ler mais, estudar mais fazer mais esporte. Porém como não vou cumpri-las mesmo prometo: não bater o carro até o final do ano; beber moderadamente; comprar bilhetes da mega-sena. A promessa adequando-se às reais possibilidades do compromissado. Começou bem o ano. Estive na Praia Grande onde: meu filho teve disenteria ou sindrome decorrente de inflamação intestinal e na passagem de ano muita...muita gente. Teve os fogos tradicionais, aquela barulheira e coisa e tal... Para compensar o “agito” fui para um Hotel Fazenda em Dourado/SP. Muita cavalgada, muita tirolesa, piscina, sauna, comida calórica, cerveja original e nada...um nada que a muito tempo não me brindava!!! Como é bom fazer nada!!! Absolutamente. Obviamente com um bom livro a tira-colo. Adorei o livro do Haruki Murakami(vide acima) “O que eu penso quando penso em corridas”. A princípio parece um daqueles livros chatos, que simplesmente procuram fazer apologia das corridas e da vida saudável. Nada disso! Murakami faz um belo ensaio sobre a influência da corrida em sua vida de romancista e todas as nuances filosóficas que envolvem as duas atividades. Uma verdadeira paixão insana, com muita verdade uma vez autobiográfico. Teve também a autobiografia do André Agassi, que li pulando mais do que uma bola de tênis. Dispensável mas ao mesmo tempo corajoso. Li alguns livros da Roberta Ferraz que sinceramente não consigo alcançar - a sua cultura específica e sua formação mística, cabalística e lingüística. Sabe aqueles livros que vc lê e fica pensando...pensando...onde a autora quer chegar? Mas o “Fio, Fenda, Falésia” até que tem algumas coisas legais e inteligíveis, como: escrever um livro a três, um projeto conjunto, sem contar o interessantíssimo projeto gráfico das capas e inversões , os cenários praianos e as frases cheias de poesia. Desculpe prima!!! Um dia ainda chego lá. Devo ser um leitor chucro mesmo. Caipirão. Gostei de algumas passagens do livro de uma amiga dela “Acorrentados” Ana Rusche . Bem interessante mas com um roteiro um pouco confuso. Não adianta sou tradicional gosto da coisa mais careta, mais retinha, bem delineada em matéria de roteiro, de história . Fazer o quê??? Uma verdadeira descoberta foi a Graphic Novel “Os Beats”. Ai estou tranqüilo no meu terreno. Volta às origens. A Graphic Novel narra em quadrinhos a vida de vários ídolos que tenho como Ginsberg, Kerouac e o loucaço do Burroughs dentre outros poucos conhecidos do movimento Beat e também a história da banda “The Fugs”. São vários desenhistas e roteiristas de ponta no cenário americano para simplificar e desmistificar o movimento que tem muita coisa boa, mas muita coisa ruim também. A única crítica que faço é que os quadrinhos poderiam ser maiores, a revista poderia ter outra formatação nos moldes grandes, capa dura etc. e não no tamanho caderninho de escola. Não poderia deixar de elogiar(como sempre!!!) Reinaldo Moraes e seu livro de contos “Umidade” , esse é um verdadeiro talento. Escreve fácil, joga na cara todas as inconveniências, toda a podridão da vida sem atalhos. E o conto em que narra as aventuras e desventuras de um pseudo-playboy que casa com uma gostosa virgem é de estarrecer. Vai ter imaginação doentia assim lá na China!!!! E assim começa mais um ano(acho que já falei isso lá em cima). Muita literatura boa para todos!!!! Sem redundâncias....sem enganos. A vida começa aos 42. “Não confie em ninguém com mais de 30/Não confie em ninguém com 32 dentes”. Que texto barroco!!!! Viva o Aleijadinho!!!! E nessa inspiração termino com Gregório de Mattos “E quer meu mal, dobrando os meus tormentos/Que esteja morto para as esperanças/E que ande vivo para os sentimentos.” Sarava iemanjá!!!!!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Livros de auto-ajuda. Socorro Shakespeare!





Um livro de auto-ajuda pode servir para muitas coisas . Como um belo peso de papel ou enfeite na sala ou mesmo para acabar com o balançar incômodo daquela mesa capenga . Literalmente. Todos eles tem uma fórmula infalível. Qual seja: objetivo + trabalho + confiança = sucesso e felicidade. Fácil não??? Então larga a mão dessa ladainha toda!!! Deixe esses livros chatos e repetitivos para lá meu amigo(a) e venha para a literatura real, para a literatura que realmente vale a pena e que acrescenta alguma coisa de novo em sua vida. Aprenda muito mais com um único livro do Henry Miller do que com todos os livros do Paulo Coelho. O que dizer então dos anti-professores Kerouac, Bukowski, Hilst......Esses sim ensinam a ilusão da busca do sucesso a qualquer preço. Essa felicidade que está muito distante das carreiras e muitas vezes em "outras carreiras". O inverso do reverso da medalha da sociedade e da vida enfeitada nos comerciais de televisão. Mais vale entender e apreciar um único quadro de Gauguim do que todos os livros da Lia Luft. E não venha dizer que Gauguim não é literatura?!?!?. E a Folha de São Paulo em seu caderno “Ilustríssima” essa semana presta uma bela e tardia homenagem a um grande escritor Reinaldo Moraes. Se vc não leu Pornopopéia tem que ler! Tem que ler...Deixa esse Shinyashiki para lá meu caro, minha cara!!!!!! E isso vale para você também que está pensando em entrar nessa igreja nova que abriu aí no Bairro. Sai dessa ! Leia...leia....Fante, Llosa, Saramago, Goethe, os clássicos que seja. Dostoiewski esse então é imperdível!!! O que dizer de Kafka??? Garanto que com esse único conselho vc estará economizando tempo e dinheiro e se auto-ajudando muito mais. Diga não aos chatos de galocha que infestam e dominam as livrarias com sua 2ª. fórmula infalível e secreta para atingir o objetivo próprio, certo e calculado. Vou revelar em primeira mão esta segunda fórmula secreta e oculta - La vai "o segredo": Livro de auto-ajuda + capa bonita + título interessante = muito dinheiro no bolso do escritor e sensação de vazio no leitor. E deixa eu ir embora que não sou mago mas tenho que fazer mágica pra pagar os contas que não param de cair na minha caixa postal. Viver definitivamente não é fácil! Socorro!!! Shakespeare me ajude!!!!!!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Starbuckiaram o etíope


Inspirado em Antônio Prata(meio intelectual – meio de esquerda) que escreve sobre as miudezas da vida, hoje vou escrever sobre uma coisa mínima intrigante. O raio do café acompanhado de um copinho de água com gás. É dessas coisas que não consigo compreender. Quem proliferou esse hábito? Parece uma gíria pegajosa!!! Um bonde do tigrão anual! A mais nova bola da vez. Depois de muito rebolation no google descobri que sou um perfeito idiota. A água é para tomar antes e não depois. O intuito é “refinar o paladar” e não tirar o bafão da cafeína. Se acompanhado de uma casquinha seca de limão(para os entendedores) melhor. Enfim como diria o Maguila - uma viadagem do caralho! – Oras, quem gosta mesmo de café toma ele sem acompanhamento algum, inclusive sem açúcar, sem adoçante. (Ainda chego lá mamãe!) Se feito no coador bem sujo fica até melhor - diria Paulo Tiefenthaler no seu impagável “Larica Total”. Aliás e aproveitando o ensejo e a revolta quase armada também sou contra caipirinha com adoçante, peito de silicone , camisinha colorida e limão com coca-cola light . E sou do tempo em que o café era cortesia e não vinha na notinha do restaurante. E sem aqueles inúmeros penduricalhos calóricos cheios de açúcar só pra justificar o preço amargo do café açucarado e “refinado”. Acho que tudo isso foi idéia de algum administrador de empresas ou economista desocupado. Pra agregar valor ao cafezinho. Globalizaram o coitado. Starbuckiaram o etíope. Pois está aqui toda a minha indignação e o meu “feedback” pra vocês!!!!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

"Kawa Ton Aaimona Eaytoy"


Hoje poderia traçar um paralelo entre três livros que li ultimamente,” Satori em Paris” de Jack Kerouac, “Mal de Montano” de Enrique Vila-Matas e “Tanto Faz” do Reinaldo Moraes já que todos tem como pano de fundo Paris. Poderia (e posso) dizer que para o americano Kerouac a viagem tem um intuito, um propósito metafísico, místico, para o catalão Vila-Matas o intuito é, digamos, mais cultural filosófico e porque não literário. Ele é fanático por literatura, lugares com apelo literário e citações. Já para o brasileiro/paulistano Reinaldão como o próprio título diz – tanto faz. Aliás este tem sido o meu sentimento atual. Tanto faz. Cansei de teorizar o conhecimento. Gosto de literatura e só! Cansei de compreender, classificar e analisar a estética tendo espasmos intelectuais baseados no contexto das palavras e dos livros; sempre peregrinando em críticas em busca de um sentido mais amplo... Por exemplo e por falar em Paris, agora, neste exato momento, num vislumbre me veio a imagem do túmulo de Jim Morrison no Père-Lachaise na cidade luz de tochas em passeatas. Lembrei-me de um livrinho safado que li a muitos anos atrás “Jim Morrison por ele mesmo” da Editora Martin Claret. Mas será que o livrinho é safado?(lá vem o crítico). Se fosse safado não estaria lembrando dele agora!!! Adoro “The Doors” e seu improvável sucesso. Ora uma banda de rock com um baterista jazzista, um tecladista clássico, um guitarrista flamenco e um cantor/escritor suicida estava fadada ao fracasso retumbante. Pois não é que virou bandeira de uma enormidade de excluídos no auge do neo-conservadorismo? Portanto deve ser verdade aquela coisa do “passo do bêbado”, do acaso determinante. Do “Tanto Faz” tão bem retratado por Reinaldo Moraes que acaba direcionando realmente nossas vidas. No livro um estudante vagueia “livre, leve e solto” por Paris abandonando os compromissos de um curso que não lhe dizia mais nada. Descobre a verdadeira vida por baixo das fachadas austeras da universidade, dos compromissos, do mundinho tido como “normal”. A Paris de Santiago Gamboa em décadas diferentes. E nessa fuga consciente nos deliciamos com suas aventuras, com seus acasos determinantes. Na mesma esteira podemos colocar a vida de Jim Morrison. Um cara jovem com um pai militar no auge da Guerra do Vietnã poderia apenas rebelar-se afundando-se em drogas diversas matando-se ou ficando louco sem qualquer repercussão como tantos outros de sua geração. Mas não. O cara recebeu uma iluminação um “satori”. Dá-lhe Kerouac!!! E isso tudo, essa confusão e essa mistureba toda de livros, Paris e Rock and Roll é também para indicar um belo filme – peguem na locadora – “When You’re a Stranger” que traça toda a trajetória da banda “The Doors” durante seus 54 meses de existência; as imagens são belas e o relato apesar de um pouco caretinha e redondinho é bem legal(graças a Deus) tem também aquela coisa-lenda do cara ainda estar vivo, escondido num rancho, abduzido e coisa e tal. Enfim o bacana mesmo é o que me veio ao acaso e que me levou a não teorizar sobre os livros que ando lendo ultimamente. A frase na lápide de Jim: "Kawa Ton Aaimona Eaytoy". A inscrição em grego significa "queime seu demônio interior". Não existe conselho melhor para críticos incorrigíveis como eu. Obrigado Jim(que queria ser poeta/escritor acima de todas as coisas). E quanto ao paralelo literário supra deixa pra lá né. Tanto faz do Reinaldão. O negócio é ler sempre e tirar as próprias conclusões. Vamos fazer como o Aldous Huxley abrir “as portas da percepção”. Sem mescalina!!! Viver sem teorias. Apenas viver o acaso ao acaso....

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Buenos Aires, Borges & Cia


Buenos Aires é uma cidade para caminhantes e para amantes da literatura. Ruas planas, poucas subidas, muitas e enormes livrarias como a linda “El Ateneo”. Antes de viajar procurei referências borginianas. Adoro Borges e procurei conhecer alguns lugares que o encantavam. De cara já tive uma decepção - onde era sua casa hoje tem um prédio enorme. No Café Tortoni outra desilusão – fila de turistas para entrar. Por óbvio quebrou todo o encanto. Bato uma foto da fachada e viro as costas. A Calle Florida é uma Shopping a céu aberto. Só dá brasileiro!!! Na Confiteria Richmond tomo o melhor chope da caminhada para recarregar as baterias. E desisto! Desisto de procurar Borges quando descubro que a Biblioteca Nacional não está mais no mesmo lugar(Calle México). Eu queria ver a maldita escada em caracol do conto. Mas para quê???? Vou no Bairro que ele gostava, o mais parisiense de todos a Recoleta. Resolvido a conhecer a famosa La Cabaña - porta fechada – está de mudança para o bairro nouveau-riche com ares decadentes portuários Puerto Madero. Walt Disney revirando-se no túmulo. Pra não perder a noite eu e minha esposa acabamos em um restaurante chamado “Sucre” com música “lounge”, cheio de “brasileiros descolados” metidos a besta no bairro Belgrano. Noite Perdida. Comida ruim, música ruim, ambiente estranho, afastado.... E por falar em estranho os portenhos que imitam os europeus em tudo estão impregnados de nostalgia, de saudosismo, melancolia e de outras coisas mais que podem muito bem ser vistas na imperdível Feira de Domingo em San Telmo. Uma delícia andar pelos seus antiquários soturnos e cheirando a mofo. Não deixe de bater um papo com o Biazzi em seu atelier. Melhor ainda comer um bife a milanesa com chope preto artesanal no Bar “El Federal” na Calle Peru(vide foto acima). Ponto alto da viagem. Bom... teve ainda o obrigatório show de tango no Piazzola - muito competente - e uma balada na boate Asia de Cuba onde entornei vários uísques e terminamos as 5 da matina tomando café no lobby do hotel NHCity com as aeromoças da TAM. E para desgosto do Borges, que Deus o tenha em toda sua imortalidade adorei La Boca e seu Caminito com bares na calçada e muita música ao vivo com gostosas semi-nuas dançando Tango. Me lembrou Arraial ou mesmo a Savasi em Belo Horizonte. Lugar para se perder. Enfim, adorei Buenos Aires, procurei Borges mas como no jogo de amarelinha de Julio Cortazar fui parar em outro lugar, perdido em suas ruas, seus bairros, seus capítulos.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Satori em Punta Arenas




Meu Deus é assim, como o sertanejo, como um calango. Um forte. A coisa mais forte da natureza. O espetáculo do nascer do sol. O por do sol é para conformados modorrentos. O nascer é para trabalhadores da pecuária. Ordenha de vaca. O divisor do bêbado. Momento único entre o êxtase da fantasia e a dor inevitável da ressaca. E lá estava ele! Naquele amanhecer magnífico na cidade de Punta Arenas após uma longa noite nos braços de uma chileninha linda. Lá estava ele! Enorme sobre o mar; sobre o pacífico tortuoso...inconstante; naquela cidade de brinquedo Lego. Nenhuma nuvem e um azul piscinesco único. Tudo se misturava na minha cabeça caminhando para o navio as quatro horas da manhã. O mundo era meu e tinha total domínio sobre a minha vontade. E ele iluminando tudo ao meu redor, interagindo com o estado de espírito. Ao sair da boate duvidosa e receber um terno beijo nos lábios daquela linda chileninha, loira falsa de olhos repuxados não sabia e nem esperava por aquela experiência mística. Logo Eu!? Um misto de alegria, paisagem e embriaguez. E depois desse satori em Punta Arenas sigo caminhando na ressaca com breves iluminações e chutes no olho. Inevitável. C’est la vie mon dieu! Gracias!!!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O Sentido da vida com enfoque literário

Galáxia de Sombrero(captada pelo Hubble) à 28 milhões de anos luz da terra

Leon Tolstoi, sempre ele...como pode um cara barbudo e mal-cheiroso como ares gélidos da Sibéria escrever com tanta propriedade atingindo o cerne das coisas, inclusive dando um sentido maior à própria existência? Quase sempre na mosca. Explico: “quase” porque ninguém é perfeito; Aí vai a frase: “Imagine que o único propósito da vida seja só sua felicidade – então a existência seria uma coisa cruel e sem sentido. Porém, seu intelecto e seu coração lhe dizem que o significado da vida é servir à força que o enviou ao mundo. Então quando isso acontece a vida se torna uma alegria”. Uau! – um chute bem dado nos hedonistas puros. E veja que Tolstoi não descarta totalmente os prazeres da vida. É claro que o desfrute também é um propósito. Ou seja o sentido da vida é o equilíbrio. E não é só – o escritor fala do equilíbrio com amor, vivendo o presente, quando em outro conto escreve: “priorizar o que está acontecendo a cada instante, considerar como a mais importante do mundo a pessoa que está ao seu lado naquele momento e fazer tudo que estiver a seu alcance para torná-la feliz”. E a minha conclusão é essa. Por mais que tudo fique sem sentido temos que ao menos tentar por ordem nessa bagunça, nessa desconexão mental. Que tal ir na onda do velho Leon que no final da vida abriu mão do conforto burguês e lançou um olhar místico para sua própria existência? O sentido e a verdadeira felicidade, portanto, estão em: viver intensamente a vida sem abrir mão do prazer, explorar talentos pessoais com trabalho, simplicidade, amor, fé e longe do egoísmo. Já é um grande passo não? Um passo para a paz de espírito, paz entre os iguais e uma vida melhor e mais equilibrada no planeta...no universo. Definitivamente não custa tentar. (e no meu caso escrever aqui essas idéias).

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Delírios Cotidianos, Cachalote e América


Não...não sou eu entrando em delirium tremens. É que no ápice da minha incoerência vou falar de um dos últimos livros que li e que particularmente gostei muito. O texto nada convencional de Bukowski casando-se perfeitamente com o desenho sujo e rebuscado de Mathias Schultheiss. Aliás as estórias e contos curtos de Bukowski mereciam mais incursões nessa área de quadrinhos bem como no cinema. Li também Cachalote de Daniel Galera e Rafael Coutinho. Gostei também porém acho que ficou literário demais. Aquela coisa de estórias intercaladas (e são muitas), ficam um pouco perdidas. E o texto por vezes é pomposo demais. O estilo do desenhista é muito refinado "clean"(me lembrou Moebius). Sou mais o preenchimento excessivo e a ausência de ecnomoia de traços de Robert Crumb, por exemplo, com suas pernas rechonchudas, bundas proeminentes e rabiscos em excesso. (vide América - é ótimo). Sei lá estória em quadrinhos para adultos é um lance bem legal e deveria ser mais explorado, porém sem muito seriedade senão fica afetado. E chatice ninguém merece. O humor é inerente ao gênero. Diria até obrigatório.

PAREI DE BEBER

Gilles Deleuze - no espelho

Parei de beber. Resolução difícil. Encarar minhas misérias sem paliativos. Aceitar sem fuga meu mal de Montano e outros males diversos. Mas as doenças impulsionam... Não posso ir contra o novo homem submisso que está por vir ou já chegou se me submeto. E agora? Sentir prazer nos clichês da vida. Ver que existe vida antes das nove horas da manhã. Sentir o frio desta cidade ardente e de céu azul em contraste com a negra fuligem da queimada de cana. Terra do Álcool.(ironia?). Olhar para dentro e explorar novos sentidos solitariamente... Mas não estou só. Até Chico Buarque parou de beber após uma breve consulta a um feiticeiro. Tony Platão e Denis Hopper também(“como é bom estar sóbrio”D. H). E João Ubaldo Ribeiro conseguiu tal façanha sem se desvincular do circulo vicioso e viciado de seus amigos cachaceiros. É possível? Não sei...Só sei que no meu caso não da mais para levar uma vida de adiamentos e fugas. Estou agora na fronteira de Gilles Deleuze(1925/1995) “A fronteira é muito simples. Beber, se drogar, tudo isso parece tornar quase possível algo forte demais, mesmo se se(sic) deve pagar depois, sabe-se, mas em todo caso, está ligado a isto, trabalhar, trabalhar. E é evidente que quando tudo se inverte, e que beber impede de trabalhar, e a droga se torna uma maneira de não trabalhar, é o perigo absoluto, não tem mais interesse, e, ao mesmo tempo, percebe-se, cada vez mais, que quando se pensava que o álcool ou a droga eram necessários, eles não são necessários.” Talvez tenha sido necessário para Bukowski já que seu trabalho literário estava intimamente ligado ao ato de beber. Na minha atormentada cabeça funciona mais ou menos assim: Não dá para entrar para o Planet Hemp e não ficar chapado. Ser um “personal trainner” gordo e mal cuidado, um “personal coach” mal sucedido e fracassado ou um jogador de futebol gordo e decadente(quem será? rsss). E quando estamos na fronteira entre a pradaria e o abismo sem saber que rumo tomar é preciso trabalhar, trabalhar... como Deleuze, com a mente sóbria. Viver a vida possível e não ter um lampejo cintilante, falso e brigar com a ressaca de três dias. Com a interminável e reincidente dor física e moral na cabeça. Cansei. Pausa para um “upgrade” na minha vida! E sem moralismos por favor. Se beber ainda é bom para você continue! Tenho grandes amigos que só conseguem trabalhar bebendo; tocar guitarra chapado; escrever textos brilhantes de ressaca. Se amanhã isso tudo fizer algum sentido novamente eu volto para o bar e não aceito censuras! Viva o grande Tim Maia!!! Não tenho interesse em ser exemplo para ninguém já que na referida matéria cada um tem seu limite, seu próprio fígado. Só acho que a avaliação pessoal é necessária. Sempre. Desta feita individualmente e voluntariamente assumo o meu radicalismo particular e momentâneo baseado em um novo contexto de uma nova filosofia de vida que acabo de criar ou aderir. Parei de beber no dia 7 de setembro de 2010. Por simultaneidade é o dia da independência. E esse é o meu grito! ( e o eco virá - com certeza – espero que seja bom!!).

sábado, 28 de agosto de 2010

100 POSTS 100 MOTIVOS PARA NÃO COMEMORAR


Cansei de escrever neste blog. Sei lá! Ninguém gosta de cara que só reclama. Que leva a vida a criticar os outros. Nada aconteceu. O Luan Santana continua dando os seus ganidos. As cachorras...as preparadas. Os pastores de televisão. O Padre Marcelo. O Raul Gil pegando criançinhas. O Henry Sobel roubando gravatas...a delícia da Paris Hilton cheirando cocaína com a Kate Moss... E em ano de eleição os candidatos são a mulher-pêra, Tiririca, Marcelinho Carioca e Maguila. Sem contar os eternos Maluf e Quércia. E eu vou votar em quem? Dos livros mais lidos eu não quero ler nenhum. Das músicas mais tocadas eu não gosto de nenhuma. Das dez mais desejadas eu quero comer todas e não vou comer ninguém. Então para quem escrevo? Ninguém? Dias atrás fiquei fascinado pelo orgasmo de Lady Chatterley de D. H. Lawrence. Não se fazem mais orgasmos como antigamente. Nem o orgasmo é mais o mesmo. Novela então...nem peitinho pode. Que saudades da Lulu no Roque Santeiro. Enfim. Envelheci porra! Quem lembra da Lulu e ainda tem tesão fatalmente envelheceu. Como o Marcelo Mirisola aqui estou eu com meu chinelão Ryder e minha camiseta Hering com a barriga saindo para fora fazendo aquilo que ninguém gosta. Reclamando da vida e pior...sendo saudosista; dando tiros a esmo. Ninguém suporta saudosistas. O negócio é ir para a arena de Barretos . O touro vai ser molestado derrubando um perfeito imbecil mais cedo ou mais tarde. E todos os outros riem, olham para o futuro com esperança(rsss) , compram cavalos pela internet e mulheres pelo telefone. Oh!!!!! Ohhhh!!!! Ohhhh Rebuceteio! Ohh ressaca de três dias! E Cazuza me falando que meus heróis morreram de overdose. E outros morreram de causas diversas. E daí? Quem está preocupado com isso. Glauber, Kurt, Miller, Buk, Hilst, Nietsche, Kerouac, Caio, Modi, Gauguim, Raul, Henfil....quem se importa? São apenas nomes lançados num tempo remoto e primitivo. E a melhor voz do mundo é a de Tom Waits. E ninguém gosta por óbvio. O melhor Halls é o preto. Ninguém concorda. Então para quem escrevo? Sou obrigado a olhar para dentro e vislumbrar a mais completa solidão.(lembrei de Jessé rsss). Sou obrigado a ler esse livro incompleto. Eu sou o único leitor deste livro do capeta. Deste blog maldito. Tempos atrás já escrevia. Que merda! E com 14 anos lia Henry Miller. Que merda! E nessa incursão solitária pelo passado passo os olhos em coisas que escrevi, por exemplo em 12/06/90 quando tinha 21 anos: “é preciso ousar, dar o exemplo, não ficar parado, cuspir, pisar em cima, mijar fora do vaso para que as coisas adquiram um novo rumo, para que as pessoas saiam dessa posição cômoda em que se encontram”. Assim mesmo – entre aspas- tamanha ingenuidade. Que babaca! Eu escrevi isso? Meu Deus....como diria FHC - desconsiderem. “Esqueçam tudo que escrevi”. É isso mesmo. O peito da Cássia Kiss caiu na sopa. Melhor escutar a Kelly Key no Caldeirão do Huck. Antes compre um babador. “Hasta la vista Baby”.
E para terminar um trecho de um poema de Augusto dos Anjos: "A pirâmide real do meu orgulho,/Hoje que apenas sou matéria e entulho/Tenho consciência de que nada sou!"

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Eu juro que tentei!

Antonin Artaud



Eu Juro. EU JURO! Eu tentei Doutor. Tentei me encaixar nessa porra de sociedade. Tomar banho, escovar os dentes, pentear o cabelo e criar uma expressão corporal e facial compatível com a normalidade. Mas aí veio o louco do Antonin Artaud e disse que "Nascemos podres de corpo e alma, somos congenitamente inadaptados". Durma com um barulho desses! Então tentei deixar a bebida. Matar o maldito interesse pelo descontrole irracional. Um chute na inconsequência. Algo ponderável! Um objetivo. Mas com Artaud veio também Baudelaire para colocar na minha cabeça aquele velho mantra: "É preciso estar sempre embriagado. (...). Para não sentir o fardo horrível do tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriague sem descanso". Mais uma recidiva! Sem contar as constantes aulas do meu professor Bukowsky: "beba mais cerveja./há tempo./ e se não há/ está tudo certo também." - Até que numa bela noite na sombra da sarjeta da rua infecta da ressaca entendi Rimbaud: "O poeta faz-se vidente através de um longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos." Enfim e para resumir: sou mais um caso perdido. Sem remédio. Sem salvação. Cai de boca na vida e hoje Doutor você pode me encontrar num bar furreca tomando cerveja barata, escrevendo poemas para o vento e tocando blues. A consulta eu pago depois. Põe na conta do Abreu!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Plínio Marcos o Tolstoi brasileiro


Encontrei o Oswaldo Mendes em uma palestra sobre dramaturgia na Feira do Livro; Escritor, dramaturgo etc; falava sobre Plínio Marcos no Teatro Auxiliadora desta cidade de Ribeirão Preto para uma platéia de no máximo trinta pessoas. No teatro com capacidade para 300; Má divulgação? Pouco conhecimento do público? Desinteresse geral? Sei lá! Talvez uma situação do teatro atual de “Stand ups” e coisinhas burguesas desprezíveis(comédias românticas urgh!). Quem não foi perdeu o relato de quem viveu intensamente com Plínio Marcos numa época em que o teatro incomodava. Contestava. Andava na contramão da estória tacanha deste País. Numa época em que o teatro fazia público e dava uma banana para subsídios. Uma banana para o governo. E hoje com raríssimas exceções tudo é bonitinho, tudo é...digamos “clean”; tudo tem que ter uma relação direta com mercado, para ganhar a verba governamental, do Sesc, Sesi etc; Plínio Marcos ao contrário vivia o que pregava a ponto de vender livros em portas de teatros, morar numa pocilga sem móveis e um colchonete no chão. E quando um amigo passava necessidades tinha o desprendimento de pegar o pouco dinheiro e enfiar no bolso do necessitado. Ou mesmo tirar seu paletó e dar para um mendigo. Portanto está aí sua maior virtude. A verdade. O escritor só é bom quando vive o que escreve como Bukowski, como Henri Miller, Pedro Juan Gutierrez e tantos outros. Desconfio de escritores que fazem muitas pesquisas, que ganham prêmios e dinheiro para escrever. Plínio Marcos escrevia sobre os marginais como ele, que não tiveram escola, que não curtem vestir terno e gravata e falar bonito em português impecável. E como resposta recebia censura e mais censura. A verdade incomoda. Talvez esteja aí a explicação : (poucas pessoas na palestra). Plínio Marcos incomoda até hoje. Mas antes platéia pequena e com qualidade do que platéia cheia de boçais. E isso foi um alento. Semblantes interessados, jovens dramaturgos, artistas. Poucos que talvez façam a diferença. E no final não resisti e fui bater um papo com o Oswaldo que rapidamente saiu do recinto para fumar seu cigarrinho. Tempos negros. Até os cigarros incomodam. As pessoas querem viver mais só não sabem o motivo. Tremendo de ansiedade deu duas tragadas e acalmou-se um pouco e pode me brindar com uma bela dedicatória no seu “Bendito Maldito”. Livro nitidamente de amigo para amigo; de biografado ídolo para biógrafo fã. Claramente deu costas às passagens sórdidas e fixou-se na grandeza da obra de um dos maiores personagens deste País. Ainda bem. Plínio merece bem como “Dois Perdidos em uma noite suja” “Navalha na Carne”, “Barrela” dentre outras obras-primas que atualizam-se a cada ano. E hoje a censura não é política mas econômica. E o censor não é o governo mas a mídia. Constatei. E a dedicatória foi “Tinoco na esperança de que a trajetória de Plínio seja inspiradora, deixo o meu abraço fraterno Oswaldo Mendes”. E a palavra é esta. ESPERANÇA. Naquelas vinte e cinco ou trinta pessoas do Teatro Auxiliadora. Madre de Deus! Nos ajude. Plínio me dê inspiração seja lá onde você esteja. Olhe com carinho para nós aqui nas “quebradas do mundaréu”. E não sei porque no ato final do livro lembrei-me de Tolstoi que assim como Plínio no final da sua vida abriu mão dos confortos burgueses e apegou-se cada vez mais às questões espirituais. Talvez o desleixo de uma barba por fazer. Sem dúvida dois grandes escritores.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Rubem Alves, Ziraldo, Ana Paula Maia e Herbie Hancock(???)


Ouvindo “empty pockets” de Herbie Hancock lá vou eu em mais um texto no ritmo do Jazz e de bolsos vazios. Feira do livro Ribeirão Preto 2010. Primeiro foi o Rubem Alves em concorrida palestra no Teatro Pedro II. E não é que o velhinho é engraçado? Cheio das metáforas espirituosas. Comparou inteligência com pênis e frescobol com tênis. Gostei. Os velhinhos estão cada vez mais despudorados. Aquela coisa permissiva que só a idade oferece. Depois foi o Ziraldo. Mais um velhinho engraçado. E em determinado momento um menininho muito do "maluquinho" chamado João Artur lhe perguntou. “De onde vem sua idéia?”. Ótimo. Gostei também. A resposta melhor ainda. “-da bunda!” E contou a estória do turco que veio para o Brasil e foi maldosamente informado que cabeça em português era bunda. E a Nana Caymmi passando o som! Uma velhinha hiper talentosa e nada engraçada!!! Sei lá. Ouvindo suas belas canções sempre recebo a triste visita da melancolia. Ao contrário do seu papai é claro que tinha a alegria estampada no semblante baiano. E hoje teve uma palestra de uma escritora nova. Ana Paula Maia. Escritora bonitona, com uma camiseta dos Ramones, toda dark, séria, não bebe, acorda cedo para escrever, pesquisa os temas a serem trabalhados e tem uma postura inconscientemente punk/Marxista. Escreve sobre o homem comum, o trabalhador das minas de carvão, do lixo do "serviço sujo". Aparentemente gostei também. Seu blog e bem legal (Killing Travis) e tem uns contos gratuitos. E comprei o livro “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos”. Belo título. Com dedicatória e tudo. Futuramente comento. E teve o tradicional chope no Pinguim. Dr. Sócrates e o Caxassa também estavam lá.(como sempre!). E termino este texto ainda na companhia do Hancock – “I have a dream”. Um não. Vários! Bolsos vazios e sonhos a serem realizados. Aqui vou eu! E para melhorar o visual do Blog aí vai uma foto da simpática Ana Paula Maia.

domingo, 6 de junho de 2010

Lawrence Ferlinghetti Um parque de diversões na cabeça


“Um parque de diversões na cabeça”; que título legal não? Lawrence Ferlinghetti é daqueles escritores doidões da Califórnia(EUA) que tem uma idéia na cabeça e um ácido ou um cigarro de maconha na mão. E em alguns momentos na inconstância do livro (passagens e poemas ininteligíveis) somos agraciados com pérolas como esta jóia rara em alusão a um anti-natalismo comercial(se é que isso existe?): “Cristo Abandonou/Sua árvore desnuda/este ano e furtivamente fugiu rumo/ao útero anônimo de Maria outra vez/onde na escuridão da noite/das almas anônimas de nós todos/Ele aguarda novamente/uma inimaginável/e impossível/Reconcepção Imaculada/na mais doida de todas/as segundas vindas.” Esse poema serve para ilustrar um pouco a tônica do livro. Uma utopia, um desencaminhar os passos monótonos do leitor para uma direção contrária. Certa ou não pouco importa. O julgamento não tem parada; o importante é deixar fluir as novas idéias. Voltando aos momentos “ininteligíveis” poderia culpar a tradução, caso o livro que tenho em mãos não fosse em edição bilíngüe. O original em inglês ao lado da tradução. E pude observar que a tradução dos meninos Eduardo Bueno e Leonardo Fróes está muito boa, muito próxima do original americano. Concluo pois que o cara realmente tem um “parque de diversões na cabeça”. Portanto livro para se divertir e garimpar. Ferlinghetti é conhecido como o pai dos beats, criou a Cult editora e livraria “City Lights” editou livros de Jack Kerouac e Ginsberg(inclusive "O uivo") e continua o mesmo doidão de sempre. E seguindo o conselho do próprio escritor li o livro escutando um disco de Jazz com “The Dave Brubeck Quartet” “Time Out”. E deixei os poemas fluírem com a música sem censura. Já dizia Clarice Lispector: “viver ultrapassa todo o entendimento”.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Carta ao Pai Franz Kafka


Tive um retorno aos clássicos. As vezes necessitamos voltar no tempo para perceber que tudo já foi dito, só mudando o involucro, a roupagem. (e fico pasmo em saber que o cara não tinha nem computador ohhhh! Abre o olho galera do you tube!). Bem, impossível ler esta carta/livro/monólogo "Carta ao Pai" e não observar de súbito a importância literária e psicanalítica da mesma. Também não há como não analisar a nossa postura como pai, como filho ou vice-versa. Uma verdadeira porrada no estomago contra o pai tirano, que com sarcasmo prefere satirizar as preferências do filho e enaltecer suas próprias vivências. Pura vaidade. A velha ladainha do árduo esforço paterno em vão para a criação de filhos tão diferentes do sonho idealizado. E hoje observamos de camarote que uma das maiores personalidades literárias da história não foi reconhecida pelo próprio pai que questionava seu estilo de vida, seus livros, seus amigos, sua forma peculiar de religião e até suas pretensas esposas. Quanta mediocridade. Portanto quando o seu filho estiver fazendo arte em qualquer sentido e recusar-se a vestir um terno incomodo lhe de todo o apoio "please"! É o mínimo que um pai tem que fazer. Dar asas ao filho e não algemas.
Tempos atrás li “O Processo” e nesse livro “Carta ao Pai” temos a oportunidade de entender um pouco mais do universo Kafkiano, seus dramas familiares e vida reprimida ao extremo que lhe levou a escrever este verdadeiro libelo contra a sociedade formal e idealizada. “O processo”(imperdível. Já dizia Paulo Francis!). Enfim, Kafka era um artista que não estava preso aos padrões tacanhos de sua época, às instituições que lhe eram pré-estabelecidas e foi totalmente incompreendido, especialmente e conforme já dito, pelo próprio pai. E aí está a força da literatura. Partindo desta frustração deixou todos esses belíssimos livros/confrontos entre a alma do artista e visão ímpar e o cotidiano cheio de labirintos incompreensíveis para aqueles que enxergam um pouco mais além como Franz Kafka, como eu, como você que leu até esta linha. Somos uns inconformados. E morreremos assim. Viva Bukowski que dispensava empregos em série. Viva os Beatniks que tinham o propósito de subverter as convenções e criaram um “way of life” próprio; enfim, todos esses fantásticos loucos que literalmente chutam e chutavam o balde no salão nobre da cúpula do poder convencional executivo, legislativo, judiciário, social...paterno....

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Dalton Trevisan - o recluso, a obra e as celebridades


Um dos maiores escritores brasileiros; mas o mais esquecido; timidez? Talvez...São essas pessoas que não cultuam a si próprias, que passam pela vida dando mais ênfase à sua obra do que às mundanas tentações. Ler Dalton Trevisan é entrar em outro mundo. Um mundo onde a vulgaridade passa longe mesmo quando o tema é um assunto vulgar e cotidiano. É a maneira de escrever com dignidade, de achar o interesse nas mínimas situações. A graça das nossas próprias desgraças de seres imperfeitos. Mas esse texto está ficando pomposo demais. Os livros lidos são "A gorda do Tiki Bar" e "Duzentos ladrões"; Meros títulos de alguns dos contos ou micro-contos, 41 ao todo onde os temas diversos tratam em suma de algumas taras, neuroses, transitando fácil entre igrejas e inferninhos. É isso. Dalton Trevisan escreve fácil sobre temas difíceis. Ora, como tirar alguma poesia de um encontro indecente entre um lascivo professor de literatura e sua aluna submissa? Ora, os puritanos que me perdoem mas quem mais poderia escrever frases como: "recebo o cálido repuxo do Mestre de Letras no meu cofrinho arrombado: o vinho na taça roubada é mais doce." "dele a grotesca bocarra de gárgula que despeja esse chorrilho de palavrões imundos" . Enfim o verdadeiro mestre da literatura dando uma aula em cada linha escrita. E esse elogio é para poucos. Mais uma flor de lótus no lodaçal. "Avis Rara". E no livro "Duzentos Ladrões tem uma bela homenagem à preferência nacional. Louvação. "Ó bunda bundinha bundona/-a tua gulosa boca vertical/com a exata cesura entre as rimas ricas/não compõe os catorze versos clássicos/rematados em fecho de ouro/de um soneto alexandrino perfeito?" Ahhhh!!! meras brincadeirinhas com palavras, com letrinhas....leia sem receio de errar. E o vampiro de Curitiba odeia ser fotografado. Mas os paparazzi não perdoam é claro. Olha o "belo guapo" aí em cima!. É.... pensando bem ele tem razão. Fotos são dispensáveis. A obra escrita é que importa.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Perca Tempo Ciro Marcondes Filho


Pois então....perca tempo e leia esta dica de livro "Perca Tempo" de Ciro Marcondes Filho, "é no lento que a vida acontece" Editora Paulus. O cara fez jornalismo e pós-doutorado na França em ciências sociais e outras áreas como filosofia etc, professor tradutor, conferencista...; E com muito embasamento teórico dá uma dica altamente fora de moda mas de muita pertinência : perder tempo. Não no sentido de passar por ele em letargia mas simplesmente aproveitá-lo melhor. Conhecer as coisas sem pressa, submetendo-as ao tempo concreto e não ao tempo abstrato(conceitos explicados no livro). Com certeza com isso aprenderemos a olhar, saber, ouvir e sentir as coisas de uma maneira mais intensa e melhor. É o que o autor propõe - Uma revolução social lenta e silenciosa para desatrofiar os sentidos embotados. E o livrinho é uma delícia pois vamos nos apropriando lentamente de idéias de vários filósofos e pensadores como Jean-Paul Sartre, Joachim-Ernst Berendt, Sêneca, Gunther Anders, o cineasta fancês Louis Malle e até mesmo Marco Aurélio com suas meditações escritas a tanto tempo atrás(172/173). O que certamente já determina que o tempo é relativo. Um verdadeiro e breve tratado contra a vida maquínica em que vivemos. Contra a ansiedade e o "horror vacui". E o escritor era o editor do ótimo "O Teatro do Mundo - A Canção" programa da rádio USP que escuto todos os dias enquanto trabalho. Ops! O tempo cruel abstrato me avisa que tenho que partir agora. Abraços longos e beijos prolongados.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Gonzos e parafusos Paula Parisot

Baronesa Elisabeth Bachofen-Echt - pintura de Klint

Este livro da quase estreante Paula Parisot eu achei um pouco irregular, algumas coisas desnecessárias etc. Passamos um período na vida de uma psicanalista, Isabela, que aos poucos vai deixando-se levar pela loucura deliberadamente, a ponto de vestir a "persona" da Baronesa acima em destaque. Então saimos de um mundo um tanto quanto banal cheio de problemas do cotidiano para adentrarmos num terreno mais poético. Sei lá. A idéia é boa tal e coisa mas...fica a idéia que a loucura do cotidiano é muito mais louca do que a própria loucura dos hospícios e dos quartos de cristal. Mas como diria o Rubem Fonseca(padrinho confesso da escritora) ela escreve bem, tem talento coisa e tal. Quem me dera um padrinhão desses! E o engraçado que tinha acabado de ler o livro abaixo sobre Egon Schiele e nesse livro também a escritora fala muito do pintor que influenciou Klint e vice-versa. Vide as mãos da Baronesa pintada por Klint. É Schiele puro!!! E termino com umas citações do livro - editora Leya 1a. edição página 89: "sou uma pessoa incoerente, mas quem não é?" "viver em si, já é, deliberadamente pesado". É verdade!


Os Cadernos de Dom Rigoberto Mario Vargas Llosa

pintura de Egon Schiele


Ou memórias de um libertino ou peripécias de Fonchito, ou fantasias eróticas de D. Lucrecia. Como sempre Vargas Llosa escreve várias estórias dentro de um livro só.
Em resumo seria a estória de um solitário Dom Rigoberto que pelas circunstâncias nada convencionais da traição de sua mulher madrasta Lucrécia com seu filho adolescente Fonchito do 1ª. casamento é obrigado por protocolo social a separar-se. E desde então perde seu norte, sua musa, sua alegria de viver. Percebendo isso e com um misto de culpa e curiosidade Fonchito resolve por molecagem unir o casal novamente. Começam às visitas na casa de D. Lucrecia, as estórias inspiradoras da vida de um grande pintor erótico Egon Schiele. As cartas anônimas....Engendra toda uma armação maquiavélica para atingir seu intento. Paralelamente vamos acompanhando a vida do pintor e traçando as semelhanças entre o drama , Fonchito/Lucrecia/Rigoberto... E tem também capítulos inteiros de recordações das experiências erótico/pornográficas entre Lucrecia e Rigoberto e o riquíssimo passado libertino. É o erotismo de uma música de Mahler e não o erotismo estampado nas páginas da Playboy como ressaltado no próprio livro. Para fechar e estes são os melhores: as anotações impagáveis dos escondidos Cadernos de Dom Rigoberto(cadernos que ele escrevia para si próprio na solidão de seu escritório e da separação, com seus livros e suas obras de arte) . Escritos de uma peculiaridade impar de uma personalidade um tanto quanto ranzinza de um ser totalmente hedonista, erótico, desbocado, despudorado e por conseguinte de um humor extremamente refinado. E o legal é aquela sensação de estar lendo cultas observações em um diário maluco e secreto. Mais um bom livro de Vargas Llosa. E nas entrelinhas temos várias outras estórias. Vamos aprendendo um pouco sobre a estrutura social de Lima/Peru, seus bares, seus hotéis, seus personagens....sem contar os resumos de outros livros sabe-se lá inventados ou não de autores na maioria desconhecidos.(como daquele escritor que escreve um livro inteiro enaltecendo os pés da amada). Ademais mudando de assunto, engraçado como o escritor sempre procura deixar bem claro a sua paixão pela pintura e pelas artes plásticas em geral. Difícil ainda saber o quanto de Llosa vai em Rigoberto. Está aí uma pergunta que eu gostaria de lhe fazer pessoalmente. Com certeza muitas semelhanças que devem estar guardadas em seus próprios arquivos, cadernos e diários. Segundo a crítica Dom Rigoberto é um dos personagens mais bem delineados da carreira do escritor. Sem dúvida!