segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O Tigre Branco Aravind Adiga


Aqui estou novamente. Dizendo que tudo vai ser diferente! mas não - continuo rancoroso, lendo livros rancorosos, das castas inferiores, dos marginais que buscam escapar da "gaiola de galos". E é nesse espírito que acompanhamos a vida de Balram de uma maneira muito original. Vamos lendo um carta fictícia que ele, o "Tigre Branco", escreve para o Sr. Jibao, primeiro-ministro da China. Nessa carta ele vai narrando toda a sua vida desde a infância na aldeia de Laxmangarh, até a sua ascensão profissional como motorista na capital de um empresário corrupto e paternalista de araque e sua família idem. E vamos acompanhando toda a raiva, toda a indignação, toda a humilhação que os mais pobres e membros das "castas inferiores" empregados sofrem na Índia onde ao que tudo indica a diferença entre as classes sociais é gritante. (Qualquer semelhança com o outro ascendente Brasil não é mera coincidência). Mas o que é indignante é a corrupção nua e crua exposta de forma exemplar no livro (Alguém aí pensou no Brasil novamente???? Folha de arruda???). Bem...bom...na carta o protoganista que conforme já esclarecido acima é um membro das castas inferiores, vai mostrando um pouco da Índia distante das novelas globais, desnudando toda essa indignação para com as questões sociais e a verdadeira armadilha que os mais ricos preparam para os pobres para garantir a subserviência eterna, o servilismo e a "pacificação" social. É o sistema da "Gaiola de Galos"- só lendo o livro para entender. Mas o autor deixa bem claro o tempo todo. A gaiola está para ser arrombada. E os galos vão cantar em outra freguesia. E é exatamente o que acontece no final. O pobrezinho cansando de massagear os pés do patrão, servir scotchs enquanto dirije, ser barrado em shoppings, dormir no chão e calar-se perante todos os absurdos sofridos tem seu dia de glória. Consegue enfim escapar do sistema dando uma "aula de empreendedorismo" hindú e lavando a alma. Literalmente - matando o patrão. É o narrador que coloca tudo de uma forma muito simples; para ele é mera questão de trocar de lado. Facilmente após seu dia de catarse e êxtase torna-se um ser purificado, um empresário de sucesso e conclui na última página "acredito que valeu a pena saber, por um dia, uma hora, um minuto que fosse, o que significa não ser escravo". Difícil discernir até onde a ficção traduz a realidade porque o livro é muito bem escrito e apesar do tema difícil tem um humor irreprochável e sarcástico; mas se for como estou pensando a Índia é uma bomba relógio prestes a explodir e o escritor Aravind Adiga é um porta voz de extrema coragem. Muito persuasivo. Tanto que em 2008 com apenas 35 anos ganhou um dos mais importantes prêmios literários pelo livro: o "Man Booker Prize". E é isso aí - a boa literatura não tem classe social, não tem idade, não tem fronteiras, não tem País. É a rebeldia que move montanhas, chafurda na lama e encontra sua flor de lótus. Um abraço! ps- o Ministério da Saúde adverte: não saia por aí matando às pessoas, mormente o seu patrão após ler este post. É como nos ensina o grande mestre e escritor Peruano Mario Vargas Llosa. "É claro que quando alguém - Dom Quixote ou Madame Bovary, por exemplo - teima em confundir a ficção com a vida e tenta assemelhar a vida à ficção, o resultado pode ser dramático. Os que agem dessa forma em geral sofrem desilusões terríveis".

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O Seminarista Rubem Fonseca




Hoje lendo um artigo no site “Congresso em Foco” deparei-me com mais uma dica do meu amigo Marcelo Mirisola – a dica é simples: quando você ler um livro qualquer que seja comente, fale, escreva. Sob pena de cometer um crime. Ficar falando sobre “Big Brother” a vida inteira. Crime contra o escritor, contra os leitores e contra si próprio. Gol contra.
Na Revista Revide deste mês temos ainda outra frase de outro grande amigo e companheiro de copo que admiro muito. Esta eu vou transcrever – “Tem gente que não dá livros para os filhos porque acha caro. Mas dá uma viagem a Disney. Depois o filho se transforma em um Pateta e ele não sabe por quê”. Grande Fernando Kaxassa. E é por essas e outras de grandes amigos que este blog não morre. Se: manifestando minha paixão por literatura e pela leitura em geral eu puder sensibilizar uma viva alma que seja já terá valido a pena essa maluquice toda de ficar escrevendo ao léu e de graça. Fazendo como diz minha outra grande amiga, prima e escritora Roberta Ferraz. “Atirando pra dentro, pra fora, pra onde?” Mas vamos lá. Está introdução toda está muito séria e melodramática. Como diria Cioran “A vida é um acaso – pra que levar isso a sério?” Na verdade hoje eu entrei aqui para falar sobre o novo livro do Rubem Fonseca – O Seminarista – Editora Agir/2009 – Cara foda o Rubem Fonseca. Ou melhor “fodão”! Num pequeno livrinho policial despretensioso tendo como mote um ex-seminarista que torna-se matador profissional e depois tenta redimir-se pelo amor de uma mulher viajamos numa mente atormentada e extremamente original, de um personagem “sui generis” como poucos já inventados. O “especialista” é um bandido da pior espécie mas que nas entrelinhas encanta pela sua paixão por citações latinas, gregas, por livros, por rock e por esta sua busca tão humana pela felicidade, pela transformação, pela digna aposentadoria. E é aí que mora o “fodão” do Rubem Fonseca. Na verdade todo livro é uma discussão de um tema universal. As pessoas tem a faculdade da transformação da redenção ou somos o que somos sem possibilidade consciente de mudanças? A resposta do livro é cristalina e opta por Cioran, por Nietsche, por Schopenhauer é claro! Não é possível deixar de ser um matador profissional da noite para o dia. O mundo inteiro conspira contra. Nascemos com um caráter e com uma consciência moral peculiar e nos afeiçoamos a isto. Como uma tatuagem. E aí podemos até discutir teorias evolucionistas. Um crápula será sempre um crápula? O que é um crápula? Um bandido que mata por dinheiro ou um bom pai de família que dá uma viagem à Disney para o seu filho emo? E o engraçado é que todos os grandes bandidos do livro são ex-seminaristas e nas entrelinhas podemos ver mais uma vez o “fodão” do Rubem Fonseca. Uma crítica sutil à igreja. Enfim, parafraseando o personagem do livro “como diria Cícero, a fabulis ad facta veniamus, passemos das lendas para os fatos”. É um livro delicioso. Para ser lido fácil e no meu caso em Arraial D’ajuda depois de 20 anos sem pisar por lá. E Arraial mudou muito. Mas o Rubem Fonseca continua o mesmo. Escrevendo sobre “pessoas empilhadas na cidade enquanto os tecnocratas afiam o arame farpado”. Essa eu tirei de sua pequena biografia de rodapé. E o Rubem é formado em direito....(mais um advogado escritor!)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Bukowski e seus textos autobiográficos


Aqui estou eu em nova incursão na obra do mais notável crítico do "status quo", da vidinha medíocre, das boas intenções. do progresso, dos propósitos, do "algo mais" que não existe. Ler as 479 páginas da compilação dos textos autobiográficos de Bukowski requer estômago mas principalmente maturidade. É como ler um Nietzsche desiludido porém não recluso com uma garrafa de cerveja ou vinho na mão o tempo inteiro. E vamos caminhando por sua vida, a infância difícil de um filho que não amava o pai, não amava a mãe, não amava os amigos de escola...não amava porra nenhuma até descobrir sua salvação! Os livros e a bebida sem contar outras "cositas". É dele a famosa frase: "Tudo que peço da vida é um punhado de livros, um punhado de sonhos e um punhado de vulvas".: Adolescência difícil entre problemas com acne e a própria feiúra. Já adulto, muito sofrimento com a falta de reconhecimento, a falta de interesse por qualquer trabalho "normal", a falta de grana, mulheres duvidosas, muitas brigas em bares e porradas em garçons. Já na velhice o seu auto exílio provocado pela sua insatisfação com o mundo. Sem contar as apostas nos cavalinhos. As visitas femininas nas loucas madrugas e muita escatologia. Muito sarcasmo. Mas com tanto sofrimento também muita riqueza.O cara sobrevive até hoje e tem fãs no mundo todo e no Brasil uma verdadeira legião. Afinal escrever para ele era como comer, fazer amor dentre outras necessidades básicas Disse certa vez: "Essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura". Enfim Bukowski é uma viagem imperdível. Mais uma vez recomendo sem pestanejar. Textos curtos sem grandes pretensões mas com muita verdade em sua substância. E a verdade dói. E a dor purifica. Afinal como diria o próprio Buk "um bom poeta pode fazer uma alma despedaçada voar."

domingo, 27 de dezembro de 2009

Uma luz no porão

"cuide bem de sua fé, faça tudo para a sua fé render..."






Outrora, em meados de 1993 quando tinha acabado a faculdade de direito e não tinha nenhum rumo a tomar, resolvi prestar concursos públicos. Logo eu que odiava rotinas, burocracia, protocolos, provas, autoridades e coisa que o valha. Mas a estabilidade....a respeitabilidade(perante a família é claro)....e principalmente senão exclusivamente o salário eram motivos fortes. Então para me concentrar na árdua batalha, montei meu bunker no porão da vovó. E lá ficava com aquelas apostilas ridículas e um abajurzinho sofrível tentando assimilar os "interesses difusos em espécie" ou mesmo os elementos "essenciais" do direito administrativo. As horas passavam lentas até o esperado grito da vovó lá em cima. - Hora do lanche; e a empregada descia com uma bandeja de prata com um pratinho e uma fatia de pão-de-ló + uma jarrinha de suco de caju. Bendita vovó! Tudo ia bem, mas o tédio e a minha falta de interesse pelo código comercial falavam mais alto. Comecei a olhar para os lados e a contar o número de desenhos na cortina, a quantidade de pontos no tapete...o número de revistas dispostas na estante...;Ato contínuo e como não tinha mais nada de interessante para fazer resolvi ler as revistas. Era uma grande coleção da extinta revista Cruzeiro. E foi lá que descobri os textos da Raquel de Queiroz, colunista assídua que na edição de 01 de agosto de 1959 publicou o texto intitulado "Nada é sagrado" que transcrevo agora parcialmente : "Todo o artista, quando não erige a si próprio um pedestal, pelo menos se isola, sem querer misturar com as demais raças dos homens, de quem não se considera igual(...) "Em busca dessa sinceridade Jean Jacques não se peja de contar que obrigava a pobre Tereza a enjeitar os filhos dele na roda dos expostos. Dostoiévski esmiuça até a exaustão os seus espasmos de epilético, a terrível embriaguez de seu vício incurável - o jogo. Gide expõe, perversamente as nuanças mais íntimas do seu desvio, e, achando pouco, não nos poupa sequer o espetáculo da frustração e ressentimento que é a vida da triste Emanuèlle O'Neill, esse arasta a família toda para a ribalta - a mãe morfinômana, os irmãos, o pai alcóolatra. E não se diga que eles foram grandes a despeito disso. Não, eles se chamam grandes precisamente por causa disso." Legal não? E assim prossegui lendo Raquel, dentre outros iluminados jornalistas e escritores no porão até que não precisei mais do abajurzinho sofrível , das apostilas e dos lanchinhos, diga-se, deliciosos. Que Saudades da vovó! Passaram-se 16 anos ou mais e nesse tempo todo prestei apenas um concurso público. Não passei. Graças aos céus! Ou a Raquel de Queirós...sei lá! Tanto faz.
Luiz Tinoco Cabral

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Atiraram outra vez no dramaturgo


Pois é conheci o Bortolotto por citações de escritores atuais que prezo, blogs restritos etc; pouco espaço na mídia, muita bebida e outras cositas mas pra encarar o excesso de talento e a falta de reconhecimento. Cheguei a ler seu ótimo blog atirenodramaturgo.zip.net/, um puta cara legal, tem uma banda de blues, recita poemas pornográficos, ressuscitou como ambiente cultural a praça Roosevelt no centro de São Paulo, tem peças com uma temática atual, amigos interessantes, um desapego comercial etc. De repente eu que nunca assisto o “Jornal Hoje” sou brindado por uma triste notícia na TV: Dramaturgo leva quatro tiros e seu estado é grave. Reagiu a um assalto ao teatro. Pasmem! Assalto a teatro que cobra 15 reais a entrada e vive provavelmente de subsídios ínfimos e por insistência e boa vontade de uma militância cultural amiga e fiel . Dura realidade. E agora a mídia dá o sofrível espaço sensacionalista como deram para o Marcelo Fromer, o Marcelo Yuca etc. É de estarrecer a hipocrisia, o tom vago e rotineiro da notícia que antecedeu a notícia com certeza muito mais esperada - a do Mengão campeão. Ninguém percebe que demorou quarenta e sete anos para aquele artista chegar ao seu estágio?,Para aquele talento brasileiro com todas as dificuldades começar e continuar a florescer a despeito do descaso geral e tiros diários? Que o cara é influência para uma enormidade de artistas e pessoas insatisfeitas com o “status quo” que só gera porcarias e excrescências como esta que entrou pela TV agora a pouco?
E a jornalista para garantir seu emprego na emissora termina o Jornal rindo e desejando boa tarde! Como ter uma boa tarde depois de uma merda desta! Merda de notícia, merda de jornalismo. E na dúvida tive que entrar em sites de amigos do Mário como a Clara Averbuch e o Mirisola para saber que o seu estado é estável e não grave e que o grande dramaturgo, músico e escritor Mário Bortolotto vai sair desta se Deus quiser. E o brasileiro continua vibrando com o Mengão campeão....jornalismo canastrão....político ladrão....abre o olho mermão!
E fique esperto porque vc que é atuante, inteligente, consciente, faz teatro experimental, música, poesia e escreve livros acima da média pode ser o próximo. E nada disso interessa. Só a cor e a quantidade do seu sangue rubro neste mundo negro.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

a bala que liberta



Lento caminhou para fora de casa. Olhou para os dois lados. Atravessou a rua. Suspirou cansado. Limpou o suor frio da testa. Pegou um revólver calibre 38 e atirou na própria boca. Será que o barulho acordou sua esposa? Seus filhos? Toda a sociedade? Será que um vira-lata sujo lambeu seu sangue na calçada? Quem foi que disse que a vida é uma doença degenerativa e sexualmente transmissível?

Pornopopéia Reinaldo Moraes

Como deixar de comentar este que foi o livro que mais me surpreendeu no ano? Reinaldo Moraes consegue não só escrever um livro ou um capítulo intrigante mas vários PARÁGRAFOS intrigantes e bem escritos(na sua maioria). O livro inteiro é uma profusão de idéias extravagantes num contexto aparentemente desconexo mas que conecta perfeitamente com a idéia principal do livro e a característica do seu personagem central Zeca - cineasta maldito falido drogado e prostituido(uma Cristiane F de 42 anos) ; mas que não abre mão de sua personalidade de suas idéias. Politicamente incorreto ao extremo vai desnudando toda a hipocrisia das vidas "bem vividas" daqueles que tem o barbear rente e macio já enaltecido por Mirisola. (Sempre Mirisola...). E vamos vivendo uma vida desregrada que pode terminar tanto numa suruba num templo metido a Hindú, como nas praias quase privadas da fictícia Porangatuba, nos puteiros de Paraty, nas bocas de fumo da grande São Paulo, ou mesmo nos balcões imundos do Bar Bitch. Personagens inesquecíveis como o mineiro Nissim, sua esposa ambígua, a dona da pousada, sua amiga milionária, o Dr. advogado Margarido que sempre introduz as conversas com "meu querido", as prostitutas cocainômanas do Bar Bitch, a caiçara linda e dentuça do Bar da "Ilha das Rocas", o caseiro, o menino/maurícinho que passa, o empresário, o traficante, o policial corno, o travesti....enfim nosso personagem Zeca hedonista e com a crítica aguçadíssima, baseada na sua cultura geral peculiar não deixa escapar ninguém. Nem mesmo ele. Sobra merda, sangue e esperma pra todo mundo nesse ventilador giratório chamado Pornopopéia. Leia se tiver estômago! A refeição é farta e estranhamente rica. E já encomendei o "Tanto faz" livro de estréia do autor que em 1981 tornou-se "cult" e narra a estória de um estudante bolsista que vai para Paris abandona os estudos para vivenciar uma outra Paris - quem sabe aquela do submundo de Santiago Gamboa, Hemingway ou mesmo do catalão Henrique Vila-Matas cada qual fazendo suas descobertas a seu tempo. E é isso aí: "estudando e lendo vou crescendo" - li no para-choque do caminhão. Tchau - vou comer um miojo com salsicha a la Reinaldão.



terça-feira, 24 de novembro de 2009

É O FIM


fim
somos como rosas que nunca se esforçaram por florir
quando devíamos ter florido
e é como se o sol ficasse desgostoso com a espera.
- charles bukowski -

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Arte e criação

"Venus" de Franz Goethe


Vai uma dica de um blogeiro André Freitas baseada nos ensinamentos do grande escritor e pensador Alemão Johann Wolfgang Von Goethe (amiguinho de Schopenhauer) que procuro utilizar no meu dia a dia e principalmente na literatura: "Goethe dizia que toda busca envolve vários erros. Quem não tem coragem de errar não dá um passo novo e prefere trilhar caminhos que já foram trilhados, citando e analisando o que já foi dito antes.É preciso livrar-se do compromisso com o êxito para poder criar. O êxito, como objetivo, é castrador da criatividade e pode até significar concessão à mediocridade" A.F. Nesse sentido uma música que fiz para a nossa banda Sábios Insanos "para viver com arte". Enfim - este blog não é de auto-ajuda mas não deixa de procurar uma motivação. Um alento. Especialmente quando estou lendo "Pornopopéia" e podendo observar todos os dias o desprendimento e os acertos involuntários de outro grande escritor que definitivamente não tem medo de ser feliz. Isso é talento.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Monstros Invisíveis Chuck Palahniuk

foto extraída do blog clube da luta baseado no outro livro (famoso) de Chuck

Vendo uma foto de Chuck Palahniuk sou remetido a imagem de Jack Kerouac, aquele tipo de brutamontes das letras. Daquele escritor com braços sarados que gosta de porrada, droga, sexo, maluquices e escatologia. É essa a pilastra de sua literatura. O livro "Monstros Invisíveis" era para ser o seu primeiro romance mas foi reiteradamente recusado pelas editoras por ser "doentio demais". É mole? Depois o cara arrebentou com o "Clube da Luta"(vide foto acima) e os editores estão publicando qualquer coisa que ele escreva. Escreve e vende, escreve e vende para cinema já que seus livros parecem roteiros. Esse então primeiro romance é descaradamente um roteiro de cinema naquilo de mais atual já que num mesmo parágrafo e/ou capítulo vamos para o passado para o presente para infância, juventude e vamos correndo os anos da personagem principal de trás para frente de frente para trás sem uma cronologia reta e pontiaguda(diga-se careta). "Corta para", "corta para"....Escritor de estilo. Com certeza queridinho dos Festivais de Sundance. Mas tirando as brincadeiras de lado, gostei da coisa toda. É a história de uma mulher/modelo que depois de um acidente de carro/tiro fica com o rosto totalmente desfigurado tem que fazer um balanço/auto-análise e reinventar a sua vida. O livro passa então a fazer uma séria de críticas a sociedade de consumo que eleva a beleza ao patamar único de satisfação e projeção social. Vc é aquilo que vc parece e não aquilo que vc é! Entendeu? Portanto o livro sai da mesmice de historinha de cinema pra entreter e vai um pouco além! Entra realmente na estética literária e não a estética meramente cinematográfica também presente e isto é muito salutar. Cria um climão próprio: operações plásticas, mundo "fashion" vidas reinventadas a cada momento, uma transexual de nome Brandy Alexander, criação das irmãs Reines(hilárias), a própria protagonista, seu irmão ambíguo, o namorado duvidoso, enfim ninguém é o que parece ser e as pessoas vão mudando de nome e de objetivos até um final surpreendente e maluco que não vou dizer aqui para não tirar o tesão. Alguém ainda tem tesão enquanto lê? Eu tenho. Inclusive quando vou ao cinema. Ontem fui ver o novo Tarantino - Bastardos Inglórios e me deliciei com a originalidade e as piadas inglórias. Pano rápido. Corta para o relógio que tenho que sair. Como diria o Brad Pitt no filme em seu italiano macarrônico Arrivederci amore mio.


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Van Gogh e a literatura


Carta de Van Gogh a seu irmão Theo: "talvez eu gostasse de escrever sobre muitas coisas, mas a vontade passou a tal ponto que vejo inutilidade nisso". Assim mesmo, curto e grosso - escrever é inútil. Quatro dias depois de escrever a frase acima o cara se matou com 4 tiros no peito. Essa constante relação da literatura com a morte. Alguns escrevem para não morrer outros pintam quadros, outros plantam árvores. Alguns ganham dinheiro. Outros colecionam relacionamentos, carros, ilusões.... Mas no fundo todos sabemos como a Márcia Denser . No fundo, no fundo e um pouco além de nossas motivações não nos resta muita coisa. A vida afinal de contas é... BESTA! E está ficando cada vez mais...leiam o belo artigo da Márcia Denser no site Congresso em foco. E eu ainda escrevo...e sigo escrevendo....mas a frase acima seria ótima para encerrar este blog não? Porém meu desespero e desilusão ainda é pouco. E ainda amo muito o lóbulo branco e tosco da minha orelha esquerda.



segunda-feira, 12 de outubro de 2009

BLOW-UP - DEPOIS DAQUELE BEIJO


Foi a primeira vez que fui beijado por Antonioni. Era um adolescente interessado. Não tinha a percepção de sua obra que tenho hoje. Revendo o filme que tanto me impressionou, vejo que ele permanece vivo. E como....
A princípio por mostrar a Londres de nossos sonhos tropicalistas, suas ruas, suas cores sombrias, seus tijolos vermelhos, seus carros negros. Só por isso vale o filme.
Aliás a idéia de Antonioni é essa. São vários filmes dentro do mesmo. A música incidental de Herbie Hancock em contraste com os silêncios das árvores, com os silêncios do filme em si. É o cinema como tem que ser. A imagem diz mais que mil sons, mil trejeitos e mil efeitos especiais.
Mas a estória em si que não se revela também é reveladora(Heim???). Um assasinato. Será? Ou será apenas uma forma de mostrar a vida de um fotógrafo na Londres efervescente? Da Londres do Rock e da benzedrina, da maconha, do vinho tinto. Da London London das festas regadas a muita droga e The Yardbirds?
Ou será a paranóia de um fotógrafo e sua desorientação e de suas modelos desorientadas, de uma época com várias, tantas opções que não se consegue vislumbrar uma certa sequer?
Caminhamos pelo filme vendo pessoas apáticas assistindo um show e desesperadas em busca de um souvenir(pedaço de guitarra jogado na platéia). Mímicos jogando um tênis imaginário; um vendedor de antiguidades que maltrata seus compradores e não quer se desfazer de seus pertences; uma passeata em fila militar de pacifistas contra a guerra; modelos perdidas e vendidas em busca de auto-afirmação e/ou diversão pura e simples. A aquisição de uma élice de avião antiga pelo puro deleite e prazer estético.
Na realidade Michelangelo Antonioni é um voyeur e um crítico sutil de sua sociedade. Basta a lente na realidade, basta a lente....
Sem contar que o filme conta com a belíssima Vanessa Redgrave e é inspirado em uma obra de Julio Cortazar.
Aula de cinema. Obra de arte. Imperdível!(aliás como todo o conjunto de Michelangelo Antonioni) . E este filme é de 1966. Não se fazem mais filmes como antigamente!
Boa noite; Beijo na testa!!!!!Durma com esta!

OH! BARBARELLA!!


Recomendo este filme para estilistas, travestis, cartunistas, drag queens, hippies tardios, descolados em geral....e principalmente para heterosexuais voyeristas que ainda não conhecem a angelical carinha e as adoráveis pernas de Jane Fonda no filme que lhe levou ao estrelato.
O filme é meio retrô, meio psicodélico, ficção-científica e baseado numa história em quadrinhos onde uma mercenária das galáxias(Barbarella), num mundo futurista e pacífico tem como missão encontrar o grande "Duran Duran" e barrar os seus anseios de dominar o universo com uma arma poderosa.
De quebra a mercenária até então civilizada, descobre toda a delicia do mundo pagão e atrasado, sexo selvagem, bárbaro, e transforma sua missão numa adorável ode ao sexo em contraposição ao sexo do futuro sem contato físico.
Enfim, uma deliciosa bobagem, com toques artísticos indiscutíveis e com uma protagonista deliciosa, Jane Fonda, no auge de sua beleza e usando as roupas mais extravagantes e sexys do planeta.
Para se ter uma idéia o filme começa com um strip-tease de Jane Fonda, flutuando e com uma roupa de astronauta. Cena impagável.
Vale a pena dar uma espiadela. E pensar que eu nem tinha nascido, o homem ainda não tinha pisado na lua e Woodstok ainda era um embrião. O filme é de 1968.
E como diria o Seu Jorge: "é isso aí"!



domingo, 4 de outubro de 2009

Emerson Wiskow e seu "Ovos de Touro"



provável auto-retrato extraído do site do Emerson "cavalos não correm deitados"

Eu gosto do Wiskow e é só. Poderia criticar o seu livro, dizer que tem erros de português gritantes, que as estórias muitas vezes não são devidamente aproveitadas, que falta surpresa em muitas delas mas não. Gosto do Wiskow. Da maneira como ele desenha e disponibiliza seus textos; gosto dos seus gostos e referências, o velho Buk, Gutierrez, mulheres gostosas, bares etc. Gosto da sua peregrinação em busca do auto-conhecimento como escritor. E gosto de algo que supera qualquer falha dele. Sua cara-de-pau! no sentido de ausência de pudores como escritor. A literatura está aí para quem quiser e isso é muito bom. E ele explora tudo isso muito bem aparentemente sem segundas intenções. O que é um alento. Seu anti-profissionalismo é salutar e sua crítica ao Daniel Galera melhor ainda. Tá certo - o cara (Daniel)conseguiu escrever um romance e isso já é muita coisa em um País como o nosso. Mas ele não é essa coisa toda! Dá pra compreender?Gosto inclusive de algumas fixações recorrentes. Me identifico. Wiskow é um grande voyeur! Seus suicidas, suas vagabundas, suas bundas com muita carne, seus prostíbulos decadentes, os bares gelados que não tenho por aqui(Rib 40 graus). Nem vou dizer que não gosto de marcianos, cigarros, mulheres verdes, uma cabeça-decepada, um encontro com Jesus na Zona, exaltação ao próprio pinto. Não! Não vou! Porque gosto do Wiskow e é só. Como um irmão de uma confraria secreta e restrita.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Incompletos Albano Martins Ribeiro

Ler Albano Martins Ribeiro não é fácil. Vc tem que entrar no site http://www.osviralata.com.br/ que dedica-se à publicação divulgação e distribuição de literatura independente, fazer um depósito e pedir o livro do autor supra que aliás e o proprietário e único empregado da editora independente como ele faz questão de frisar. O livro chega no prazo sem nenhuma cartinha num envelopinho padrão e causa um certo estranhamento. "- Como é que coube um livro de 100 páginas nesse envelopinho?" De quebra você tem que aturar as letrinhas miúdas de um mini pocket book e ficar amassando as páginas no meio para ler as linhas na íntegra sem malabarismos . Porém a surpresa é boa ou seja vale o pequeno sacrifício. Afinal para ler bestsellers bem encadernados e que não dizem nada é só ir na livraria mais próxima. Albano tem aquela escrita que chega como o vento, nua, com os acontecimentos da vida. Ele narra as putarias e sacanagens do cotidiano e das relações humanas(de amor ou...nem tanto). E se pudesse escolher entre os vários bons contos ficaria com o excelente "sexta à noite, no purgatório" que narra às desventuras de um personagem que, na esperança de um sorriso antigo e vibrante de sua companheira, tem que aturar uma reunião social nitidamente de conveniências numa noite gris. Peço "vênia" ao escritor para transcrever um trechão do conto que pode dizer muito mais do autor e do livro do que estas minhas "vênias" e "mal traçadas letras" urgh! Brincadeira heim!? Esse latinismo e essas frases feitas não me pertencem(influência do Garófilo - meu professor de Filosofia do Direito). Mas voltando ao assunto vamos lá: "pois é, Nina querida, eu sabia que ir a essa festa não era a melhor coisa a fazer naquela noite. Mas você disse tantas vezes que fazia questão, e eu acabei indo de sapatos duros com a roupa errada a um lugar de valetes surdos e anões, cheio de homens arrogantes mulheres putas e burras vestidas de vermelho e preto, de uísque bom e traiçoeiro, um lugar cheio de gente em que a gente se sente sozinho, sozinha, um lugar onde há pratos e pratos e garfo garfo garfo e faca faca faca e colher colher colher e taça taca taça, mas onde não se serve comida, só pães anões com micro-manteigas e quibes de pó-de-arroz com cheiro de peixe, telões que passam jogos de futebol ao vivo, um lugar onde há gêmeas idênticas identicamente horrorosas, onde só as mulheres inatingíveis dançam, onde os mágicos não tem assistentes de maiô e você chupa o pau - como ninguém o saberia fazer - dos canalhas de cabeça cúbica e sorriso de fauno que patrocinam seus projetos". AMR Uau! Inferno ou purgatório? Lembrei-me até de um conto do Mirisola "basta um verniz para ser feliz". Lembrei-me inclusive de Bukowski pela crueza e simplicidade que o conto chega à conclusão acima - ao grand finale. Tô até vendo a carinha do Albano , com ressaca, barbinha por fazer, coçando a testa e digitando o texto com ênfase, com verve com raiva. São os momentos únicos....É isso aí Albanão! pau no cú deles e delas , desses faunos e "deusas", daqueles que tem "o medo de mostrar o rabo, sujar a gravata".(essa é do Mirisola). E assim mesmo no seu estilo - sem vaselina!!!!!
Portanto caros e infindáveis leitores - entrem no site, naveguem com a devida atenção, descubram boas novidades, comprem o livro que é baratinho e aproveitem para adquirir(de graça) os e-books "O cabotino" do Polzonoff e "Ovos de Touro" do Wiskow. VIVA A LITERATURA INDEPENTENTE!!!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Paris não tem fim - Enrique Vila-Matas


Acabo de ler o ótimo livro acima do escritor catalão que descreve a época em que ele vadiava por Paris para tornar-se um escritor; morava num pequeno apartamento da escritora Marguerite Duras e seguia os passos do célebre escritor Ernest Hemingway. Foi a descoberta do ano! Ora, um livro que dá vontade de ler novamente não é uma descoberta? E quando dá vontade de conhecer os outros livros do autor? Sem dúvida! Enrique é fá de Borges e demonstra uma capacidade intelectual muito além dos escritores imaturos atuais. Tá certo que ele não é novinho, coisa e tal, mas demonstra muita segurança na escrita e principalmente nas citações. Livro de escritor que lê. Que vive o dia a dia de escritor. Que conviveu com escritores. Também com loucos como o personagem real Bouvier "eram somente as palavras de um louco. Muitas vezes, porém, os loucos anunciam o que vai acontecer". E dentre as pérolas extraídas temos aquele personagem boêmio Parisiense que muito rico e herdeiro investia seu dinheiro em uma pesquisa sem fim com um tema esdrúxulo apenas para sustentar uma infinidade de estagiários, estudantes e pretensos escritores. E vamos passeando por uma Paris vibrante e seus cafés como o "des amateurs" e o "Flore" ou mesmo o Bar do Ritz enquanto o autor ainda jovem tenta escrever o seu primeiro romance "A assasina ilustrada".
De repente na página 107 temos a seguinte citação do camarada René Char "a perdição do crente é encontrar sua igreja".
E ao acabar o livro fiquei com a impressão de que encontrei a minha. Bem longe dos evangélicos...chatérrimos...E pra quem não gostou deste post fica uma citação de Jacques Prevért que grifei na página 230 que dizia que "tinha um pé na Rive Droite, outro na Rive Gauche, e o terceiro na bunda dos imbecis". Ulalá!!!
A tradução é de Joca Reiners Teron e já temos no Brasil traduzido "A viagem vertical" "Bartebly e companhia" "O mal de Montano" e para lançar o novo "Suícidios exemplares". Leiam Enrique Vila-Matas - sem medo de ser feliz.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Pulp e o velho Buk

Saúde! Acabo de ler mais um livro do velho Buk "Pulp", o último de sua vida onde um detetive atabalhoado Nick Belane, entre tardes e noites de realidade insuportável e momentos de intensa depressão tenta desvendar alguns mistérios e justificar sua profissão insólita. Uma brincadeira de Bukowski com o gênero, tachado de subliteratura. Porém o que o velho Buk faz não pode nunca ser tachado de "baixo clero". Trata-se de uma paródia, uma imitação burlesca do gênero para atingir outra finalidade já que o grande mistério a ser desvendado é a própria morte representada por um pardal vermelho. Um belo livro. Um belo final para este escritor iluminado que soube conservar seu estilo único até seus 73 anos, influenciando uma infinidade de escritores até os dias de hoje. A foto acima é pra ilustrar uma de suas grandes paixões: A bebida - "voltara ao meu velho amigo, uísque escocês com água. O uísque escocês é uma bebida que a gente não gosta imediatamente. Mas, depois que se acostuma, ele opera uma mágica". Realmente - há momentos que só um velho e bom uísque escocês é capaz de superar a solidão e a velhice ou a solidão da velhice tão bem descrita no livro: "Portanto, agora, ali estava eu. Sentando ouvindo a chuva. Se eu moresse agora, ninguém verteria uma lágrima em todo o mundo. Não que precisasse disso. Mas era estranho. Até onde um trouxa pode ficar solitário? Mas o mundo estava cheio de velhos rabugentos como eu. Sentados ouvindo a chuva e pensando para onde foi todo mundo. Aí é que a gente sabe que está velho, quando fica pensando para onde foi todo mundo. Bem. não foram para lugar nenhum. Não precisavam ir. Três quartos estavam mortos." E nessa busca improvável para desvendar mistérios quase insoluveis vamos nos deparando com personagens que parecem extraídos de algum gibi ou filme de gangsters : Cindy Bass , Jeannie Nitro, Billy French, Dona Morte, Johnny Temple....
Portanto mais um livro memorável para ser lido sem ser levado a sério, aliás como sugerido pelo próprio autor em sua dedicatória: "dedicado à subliteratura". Mas não deixe de ler nas entrelinhas: afinal o velho Buk é o velho Buk e a morte é um pardal vermelho que abre o bico e nos mostra um enorme espaço vazio com um enorme vórtice amarelo mais dinâmico que o sol.
E infelizmente em 1994 o fulgor intenso da luz amarela invadiu e envolveu o nosso herói das letras e das garrafas. A chuva fina que cai lá fora me convida a verter lágrimas que engulo já que o velho Buk com certeza não aprovaria. Vivamos intensamente enquanto é tempo. Mais um brinde!!!!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

perna cabiluda

Só mesmo entrando no portal de curtas do Brasil http://www.portacurtas.com.br/ para acompanhar uma insólita história de uma perna sem corpo que perambula pelas ruas de Recife e desperta os maiores surtos de imaginação, medo, desejo e curiosidade em toda uma população.
É a magia da literatura popular de cordel que por muitas vezes apresenta-se com qualidade indiscutível e eternizou seres lendários como Raul Seixas.
Bom também ver o poder que o rádio desperta no imaginário popular e Chico Science em ação(saudades!) e finalmente entender aquela música da "perna cabiluda" do Zé Mané e coisa e tal.
O Pernambucano é acima de tudo um....contador de histórias. Meu sogro, seu Reginaldo, não nega.
O curta-metragem em questão(documentário) é de Beto Normal, Marcelo Gomes, João Júnior e Gil Vicente . Mesma turma que realizou o ótimo "Cinema, Aspirinas e Urubus"
E como o vento vem descendo...descendo...de Recife a Ribeirão Preto, sigo aguardando ansiosamente o último Chico de Assis "Baixio das Bestas" que está começando a passar no Canal Brasil (já que no cinema eu perdi!)
Saravá pra todos(assistam curtas - entrem no portal acima) e CUIDADO COM A PERNA CABILUDA!
Quanta à ilustração acima a mesma não tem nenhuma relação com o texto. É que por uma questão estética não ia colocar uma "perna cabiluda" no meu blog. Então vai uma antítese. Só pra agradar meu sogro! Afinal..."é disso que o povo gosta"

Brincando com Clarice


Um outro final para uma crônica de Clarice Lispector:

“A tarde, sentada nos degraus de uma escada, em rua deserta do Grajaú, a menininha pobre, ruiva, solitária estava com um soluço seco a incomodá-la.
Nisso, veio passando um cachorro basset ruivo. Parou diante da menina, sem latir. Fitaram-se mudamente. Sem emitir som, eles se pediam: um solucionaria o problema de solidão do outro.
O cachorro foi embora. Incrédula, os olhos da menina acompanharam-no até vê-lo dobrar a outra esquina. “Mas ele foi mais forte do que ela. Nem uma só vez olhou para trás.”
C.L.


Final punk noir decadente:

Mas o tempo passou....a menina que esperava o bonde cansou da espera inútil e foi para casa descansar eternamente. Os bondes já eram.

O sol escaldante deu lugar a uma lua cheia, “noir” e mórbida que resplandecendo negrume transformou a menina em mulher.

Com a lua cheia “dark” e nebulosa o cão virou homem que virou lobisomem. O famoso Lobisomem do Grajaú. Terror das operárias que voltam das fábricas no frio indolente das madrugadas escuras.

E naquela malfadada noite o terrível lobisomem inconseqüente movido por seu lado humano animalesco violentou aquela mulher com toda a brutalidade em todas as posições. De frente de lado, papai mamãe, 69, cachorrinho. Com o passar do tempo tiveram vários e juntaram os trapos.

A tampa e a panela. O problema e a solução.

Hoje encontramos no Grajaú, ao som de tiroteios, um casal de velhos vermelhos com uma ninhada de bassets ruivos às margens da represa Billings dando comida aos cadáveres e fezes que boiam em suas águas. Cheiro de esgoto no ar.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Manifesto Insano


Confesso que no início relutei.

Porém agora depois de um ano entrego sem pudores: participo de uma banda de música “Sábios Insanos”; nos reunimos todos os sábados numa chácara cercada de árvores, passarinhos e cerveja Cristal para tocar The Clash, Sex Pistols, Titãs, Paralamas, Ultraje, Beatles, Eric Clapton, Stones, Tim Maia, Made in Brazil(está é da Manú Zappa/vocalista), Mutantes, Mamonas, Roberto Carlos, Raul, Secos e Molhados, Wander Wildner, Falcão...Arrigo...Martinho... e uma infinidade de outros intérpretes e compositores, bem como algumas músicas próprias. Importante: Tudo sem um roteiro pré-determinado.

Ou seja voltei a ser adolescente de novo. Com 40 anos. A “sabedoria insana” me mostrou que as coisas básicas e simples é que devem valer a pena e ser prioridade nesse meu segundo e derradeiro round de vida.

E hoje para mim o básico é minha paixão “insana” pela música. Não a música clássica tocada em teatros imponentes que também gosto. Não importa se a música é boa ou não se sei tocar ou não. O importante é a reunião, cerveja, os amigos, o bate-papo. E também, claro... a música, o som em toda sua naturalidade e improviso....de preferência Rock and Roll básico. Cru. (até pode rolar um samba! Um “Seu Jorge”!)

Na banda heterogênea e vasto/eclético repertório estão alguns velhos amigos de infância(Os Deléos Fernando e “Jão”) , minha irmã Chris , meu sobrinho André Tinoco a super tatuada Manú Zappa (e quem vai chegando pode tocar!). Pessoas maravilhosas que se reúnem não para ganhar dinheiro, não com finalidades sociais espúrias tão em voga, mas apenas pela reunião nesses tempos em que músico fica o dia inteiro com a cara no monitor como diria o Mirisola: “manipulando seu próprio autismo”.

Meu amigo e mestre Hell “cara rapaz” já me disse isso. O músico hoje perdeu aquele tesão de tocar em grupo; De ficar uma tarde juntos numa garagem ou galpão tirando uma onda e uma música; De se reunir com outros músicos; De improvisar. Hoje tudo é tão eletrônico, tão frio...tão estúdio...., tão computador....tão partitura...tão certinho que o legal é o erro (ou o acerto involuntário). A esculhambação. E nisso a banda é muito boa. Na imperfeição.

Tem uma moça que dizendo-se empresária passou alguns sábados por lá tentando formatar a banda, criar uma “identidade comercial”. Coitada – quebrou a cara e sumiu!(apesar de ser uma ótima pessoa...bem intencionada....e ter deixado metade do nome da banda) Ninguém ali é muito chegado à ordem e progresso.- Aliás sempre achei que a ordem é contrária ao progresso mas isso é outra história -. A banda faz jus ao seu nome, ou seja, um retrocesso/volta às origens movido à insanidade sábia(???); faz jus àquilo que falei lá em cima quanto a “coisas básicas” e do eterno retorno. Nosso objetivo, ou pelo menos o meu é a falta de pretensões. Tocar por tocar...Pra ver onde vai dar. (... rimou/dá até música). É o famoso tesão do Roberto Freire.

Um dia também apareceu um músico “profissa” por lá dizendo que música é 97% transpiração e 3% inspiração. Com todo o respeito discordo. Queremos inverter ou subverter esse percentual. Inclusive o Sr. Pedrazzi está como sempre convidado a ajudar. E muito.

Portanto(e voltando ao manifesto) se alguém me perguntar porque um bando de velhacos(as) quase carecas, mezza calabreza, mezza mussarela se reúnem para tocar rock and roll todo sábado a tarde, tirar uma onda, uma música. Respondo: Não sei...não quero saber...E pergunto – Quem é que pode saber???? Porque por trás de uma ação tem que haver uma intenção?

Uma coisa é certa : os “Sábios Insanos” não vão tocar na Capital !!! A banda passará intencionalmente “a francesa” pelos anos vindouros tocando o seu réquiem antítese da atualidade. Com muito prazer! Obrigado!

Podem fechar as cortinas que o sooommm vai começar a rolar!!!!! E seja o que Deus quiser!
rsssssss

LUIZ TINOCO CABRAL