quinta-feira, 23 de julho de 2015

DANDO UM GÁS NO MUNDO



Luiz Faro Zéfiro da Silva nasceu e passou quase toda sua vida  na pequena cidade de Brisas do Sul, no estado de Minas Gerais. Um homem simples, de poucas palavras, trabalhador rural, cabelos ralos, franzino, olhar distante e sonso, com bem vividos 50 anos a base de muito repolho, couve-flor, nabo, cebola, maça crua e ovos de galinha caipira. A personificação da tranqüilidade bucólica do povo mineiro. A noite depois de seus afazeres no curral da Fazenda Ventania, gostava de sair com os amigos e ir nos bares de esquina para tomar um pouco de cerveja Caracu, que estranhamente misturava com Coca-cola para espanto de todos.

 Depois de umas e outras o pacato trabalhador rural  transformava-se no potente Luizoco, o oco mais temido do estado, quiçá do País. Tal alcunha lhe foi conferida com méritos devido ao potente e sonoro flato  que só ele tinha, capaz de fazer estremecer a terra como um terremoto de grandes proporções e  derrubar garrafas das prateleiras dos bares que freqüentava.

Lá pelas tantas e depois de muita Caracu com Coca, era só alguém começar, para o coro dos bêbados entoar: .” – Oco Oco Oco solta um grande aí Luizoco. Oco Oco Oco solta um grande aí Luizoco...”

E numa performance apoteótica, depois de 30 segundos de suspense e mistério, Luizoco soltava um persistente peido meteorológico de trovão acordando os bêbados que a essa altura insistiam em levar um tête a tête com às mesinhas do bar. Todos alegravam-se e riam admirados de tamanho e incendiário dom e iam para casa felizes, assim como Luizoco que ia dormir orgulhoso e satisfeito por poder proporcionar um pouco de alegria às pessoas sofridas de sua pobre comunidade.

Sua fama espalhava-se como rastro de cobra n,água, desde os rincões das fazendas mais escondidas da região até chegar ao gabinete do Prefeito da cidade que, sabendo da fantástica estória e do famoso peido sete tiros, resolveu tirar proveito eleitoreiro da situação convocando formalmente Luizoco através de ofício escrito para comparecer a uma reunião urgentíssima e secreta   na Prefeitura;

- Seu Luiz, bons ventos o trazem, satisfação recebê-lo aqui no gabinete da Prefeitura.

- Parzer é todo meu seu Perfeito.

- Pois bem, sente-se aí que eu vou  direto ao assunto que, como o Sr. Sabe, não sou homem de meias palavras.

- Pois pó sortá homi de Deus, sô todo orvido

- Fiquei sabendo que o Senhor tem um  peido queima olho assassino que entoa mais alto que labareda em canavial ah ah ah  é verdade?

- Se o povo fala quem sou eu pra desdize!!!

- Pois então homem de Deus, o Senhor é um homem de sorte, temos que valorizar os talentos da cidade, mormente um talento assim, como o seu, tão, digamos, peculiar, “sui generis” .

- Pois diga o que c qué  logo omi de Deus para de dizê parlavra difíci.

-   O negócio é o seguinte, meu secretário de eventos e turismo descobriu na internet, que vai ter daqui a um mês na Europa  um campeonato mundial de flatulência, em resumo, ganha o peido mais barulhento, com medição por aparelho e tudo e gostaríamos de enviar o Senhor com todas as despesas pagas pra representar a cidade e o País nessa jornada. Dinheiro não é problema, pagamos tudo, hospedagem, inscrição, avião....sem contar o portentoso  prêmio em dinheiro para primeiro colocado que será todo seu.

- Vixi homi de Deus nunca andei disso não. Vião é pobrema tô fora, sartei de banda, num vô mesmo. Ce é besta sô....

- Mas como assim Seu Luiz? Vai ser a sua glória. O Sr. vai entrar para os anais da estória desta cidade. Se o Senhor ganhar, Brisas do Sul vai ter a tão esperada projeção internacional que tanto sonhamos, podemos então até criar um campeonato local, quem sabe até trazer o mundial para cá, seu talento é indiscutível o Senhor vai conquistar o mundo meu caro e Brisas do Sul vai crescer de vento em popa.

- Disculpa seu perfeito, sua intenção é boa, mas vião não dá; Num vo mesmo e tenho dito, e agora cum todo respeito, tenho que ir andando cuida das minha vaca e cume meu repolho que eu to cuma fome du cão, passar bem, um bom dia pra vosmice.

De forma abrupta e inesperada Seu Luiz virou às costas e saiu da Prefeitura decidido, deixando o Prefeito pasmo e boquiaberto. Vai ter medo de avião assim no inferno, pensou o Prefeito e voltou aos seus enfadonhos  afazeres diários.

No caminho para casa Luizoco encontrou a sua musa chamada Rosinha, balconista da venda de secos e molhados do Seu Manuel, mulher nova, de fino trato e belas curvas por quem ele vivia arrastando suas asinhas sem o mínimo êxito. Pra impressionar a moça contou que estava saindo do gabinete do Prefeito, do honroso convite para representar a cidade e o País e por fim sua digna recusa. E está lhe falou com toda a sua educação de berço:

- Pois saiba que tu és um borra botas, perdeu a grande chance da sua vida de merda. Frouxo do caralho. Bunda mole! Ah ah ah.

Indignado, cabisbaixo  e com o peito em frangalhos Luizoco que é católico mas com um pé no terreiro, foi consultar seu babalorixá de candomblé que após várias cantilenas, cafungadas e fumegadas lhe disse em tom professoral, de forma profética e com olhar vazio  e perdido no espaço esotérico;

- Misifiu, não existe ateu em pane de avião. Mas desse mal c num morre não. Vai com fé misifiu pra conquistá o mundo e dela o coração;

E foi pensando no seu amor que ele disse sim ao Prefeito, dedicou-se aos treinamentos,  venceu seu medo com doses cavalares de calmantes e sedativos, atravessou o oceano e desceu na Finlândia na cidade de Utajärvi para representar Brisas do Sul e o Brasil no primeiro e único Campeonato Mundial de Flatulência.

Chegando no aeroporto de Helsinque, todo o esforço e superação empreendidos valeram a pena. Luizoco foi recebido pelo embaixador brasileiro local com honras de estado e salva de 21 tiros de canhão, diga-se, muito fraquinhos, perto dos seus próprios petardos, pensou.

No caminho para a cidade de Utrajarvi, num belo carro, numa bela estrada, em companhia do afável embaixador, que desde a chegada mostrou-se um ótimo aliado e parceiro, Luizoco foi apreciando a bela paisagem, os lagos enormes e suntuosos, as montanhas cor de giz tão diferentes dos chapadões mineiros, bem como foi checando os itens em sua matula e todo o equipamento de preparação para o grande desafio que ainda estava por vir.

Estavam lá, às calças e cuecas com fundilhos reforçados, os ovos de galinha caipira, cebolas da roça, nabo da terra, couve-flor, maçã crua, repolho e vários litrões de Coca-cola, bem como o indispensável e até então insubstituível engradado de cervejas Caracu.

Pois bem, chegando na bela cidade foram direto para o local do evento que já estava começando. Ás regras eram bem simples, baterias individuais e eliminatórias, três minutos para cada competidor expulsar os gases pelo ânus em porções anormais provenientes do aparelho gastroentérico , ou seja uma distenção voluntária ou involuntária  do estômogo ou dos intestinos por ar ou gases com o intuito de produzir o maior ruído em decibéis possível medido por um decibelímetro e avaliado pelo corpo de jurados composto por um fonoaudiólogo, um otorrinoralingologista e um engenheiro em segurança do trabalho. Obrigatório o uso de calças ou bermudas e proibido expelir fezes sob pena de eliminação.

Luizoco não estava entendendo absolutamente  nada até que seu parceiro embaixador esclareceu às regras com toda a sua diplomacia a là Arnaldo César Coelho.

- A regra é clara: quem peidar mais alto ganha!!!

E dito e feito lá estava ele cônscio de sua missão e  no meio dos maiores peidorrentos do mundo, todos com um perfil físico e psicológico muito parecido, gordos, fortes, negros, brancos, muito amarelos, suados, barbudos, fedidos, malvados o que causou um certo constrangimento já que só Luizoco era um típico mineiro mirradinho e sonso, destoando sobremaneira  dos demais. Assim sendo, a princípio, ninguém colocou muita fé nos seus dotes peidorrísticos, e não entendiam a razão daquele homenzinho franzino ter viajado tanto e estar ali no meio dos maiorais, tomando sua cervejinha caracu com Coca-cola e com aquela cara de Rock Balboa do Sertão mineiro.

Mas bastou a primeira bateria eliminatória para o constrangimento virar a sensação do pedaço.

Luizoco simplesmente humilhou e desclassificou a grande esperança local Tony Phartman. E olha que ele se deu ao luxo de economizar na flatulência emitindo um peidinho pitila e engraçadinho de apenas 85 decibéis. O suficiente para ganhar a parada e não humilhar os donos da casa. Um gentleman esse brasileiro, pensaram eles.

E assim sucedeu-se a cada nova bateria eliminatória,  conquistando fãs de todas as partes, até deu autógrafos para a garotada.Camisetas com sua foto eram as mais requisitadas na lojinha de conveniências.

 Engraçado que enquanto todos os outros concorrentes causavam repugnância e revolta na seleta platéia, Luizoco tinha uma empatia natural com a galera; enquanto o estrondo dos demais causava susto e aversão o seu flato altíssimo e em vários tons tinha ares cômicos trazendo uma incompreensível alegria para o evento. Sua aparição como nos velhos tempos era apoteótica, quase divina. Como se o ato de peidar fosse uma arte relacionada a origem do universo, ao “Big Bang”, o bóson de Higgs. Ademais quem sabe Deus em momento de extrema flatulência não soltou um pum gigante e criou o mundo?

Pois retornemos ao que interessa:

Passaram-se três dias como um vento.... E Luizoco chegou a semi-final para enfrentar aquele que poderia por fim a sua meteórica trajetória.O famoso  Mr. Metano, o campeão inglês. Era um homem forte, alto, nojento e com uma  ridícula fantasia de tartaruga ninja que sinceramente não combinava nem um pouco com o resto do contexto. Deu um peido de 1oo decibéis enorme, só que para sorte de nosso representante  o inglês provido de excesso de vaidade e jactância deu um peido irresponsável, tipo freio de bicicleta e deu aquela enorme e pastosa melada na cueca.

Conclusão: Desclassificação imediata, e vaias, vaias, muitas vaias da platéia, sem contar o desmaio de várias pessoas por asfixia.

E quem diria que ele, aquele franzino mineirinho de Brisas estaria agora na grande final do primeiro e único Campeonato Mundial de Flatulência. O grande dia finalmente havia chegado, mas a parada era duríssima, talvez a maior parada de toda a pacata vidinha do nosso protagonista. E justo no grande dia  o imponderável aconteceu. Ao olhar o engradado ao lado da cama viu que tinha tomado no dia anterior a última cerveja caracu. O líquido que era o seu elixir da vida. A poção mágica que misturada com os demais ingredientes alimentícios era responsável exatamente pelo arroubo sonoro emitido pelo seu nobre instrumento gástrico.

Meu Deus onde poderia ele encontrar uma garrafa de cerveja caracu na cidade de Utrajarvi na região central da Finlândia??? Missão impossível claro.


O seu aliado, companheiro  e agora amigo de todas as horas, o  embaixador correu desenfreadamente por  todas às lojas de cervejas, supermercados, bares e tabernas da região e nada, nada de Caracu.

E Luizoco com ares de derrota,  desânimo e cagaço,, já antevendo uma provável humilhação  não parava de repetir.

“- Sem Caracu nada feito homi, tamo fudido”.

Mas o embaixador que era um homem muito vivido e inteligente, vislumbrando ou ao menos desejando  que tal dependência fosse meramente psicológica, recolheu as garrafas vazias do quarto de hotel de Luizoco inserindo nelas o líquido negro da deliciosa cerveja finlandesa Nikolai, passando desta feita o bom e velho conto do vigário no rapaz peidante.


Contente e confiante ao ver as falsificadas  garrafas de Caracu, num misto de delírio e felicidade Luizoco gritou.

“- Vambora homi. É hoje que eu vou arrebentar as pregas da meu cu de tanto peidar!!!!!!”


E nesse clima quente, tipo, queima olho, os guerreiros entraram em campo para a mais dura batalha:

 Lá estava ele no lado direito do octógono; (ou seria um exágono?) o adversário dos adversários, ex-pugilista, com seus dois metros de altura e  com mal distribuídos 180 kilos de pura banha e gases, o Russo CATIMBRAL, o homem que segundo à lenda carregava um coquetel molotov  no intestino, pronto para detonar as maiores revoluções e rebeliões da face podre da terra. Seu peido, além do ruído altíssimo era famoso por ser o mais catinguelento do mundo, com um odor capaz de espantar os urubus de todas as espécies e  levantar os mortos e as múmias das catacumbas.

E do outro lado, bem, vocês já sabem, Ele, Luizoco, o oco mais temido de Minas Gerais, quiçá do Brasil, que entrou no recinto ao som da música “Eu quero ver o oco”, dos Raimundos. Brilhante idéia do inteligentíssimo embaixador.

E o Russo CATIMBRAL era o primeiro a se apresentar, e assim foi. Após quase dois minutos e meio de concentração, aquele homenzarrão enorme curvou os joelhos como se fosse iniciar uma dança dos cossacos e expeliu um gás pérfido e repugnante com um ruído de 112 decibéis quebrando vários copos na platéia para espanto geral e comentários do tipo: já ganhou, coitado do brasileiro, tão bonzinho......


Enquanto isso Luizoco se preparava tomando sua improvável mistura de coca-cola com falsa cerveja caracu sem sequer perceber a farsa. “Cervejinha xoxa essa? Parece que ta choca?”, pensava ele.

 O embaixador na Tribuna das Autoridades estava tenso. Será que a malfadada farsa vai dar certo? O que será que vai sair dessa bunda Santo Cristo?. Meu Deus rogai por nós. O embaixador além de inteligente era um homem muito religioso.

Mas o mineirinho de Brisas, como um burrão de raça não refugou. Cumpriu sua sina. Subiu no Octógono(ou seria um hexágono)  ao som de “eu quero ver o Oco, eu quero ver o Oco” agora entoado com um estranho sotaque nórdico por sua eufórica e simpática torcida. Idéia do embaixador é claro.

LUIZOCO após a protocolar concentração e 30 segundos de suspense e mistério, , soltou de chofre o seu famoso trovão assassino, aquele que viria a ser considerado por muitos estudiosos do assunto  o maior dos flatos  já produzidos e emitidos na face da terra, quiçá do Universo, se é que extras-terrestres têm o poder sensorial da flatulência. Vai saber. Dizem que o ruído superou os 120 decibéis que é o máximo que o ouvido humano pode suportar  e que a velocidade dele ultrapassou todas as barreiras, chegando a ser ouvido e sentido em diversas partes do planeta e até fora dele em algumas estações espaciais tripuladas. Um verdadeiro terremoto de 9.5 na escala Ritchter, só comparável ao maior terremoto da história ocorrido no Chile na cidade de Valdívia em 1960.

No dia seguinte todos os jornais e mídia em geral eram unânimes em afirmar. UM FENÔMENO, ALGO ALÉM DA COMPREENSÃO HUMANA.

A Revista Times estampou a foto de LUIZOCO com a bem bolada legenda ‘O PELÉ DA FLATULÊNCIA”.

É claro que a fama e a glória entorpeceram e envaideceram muito o nosso herói. Sempre acompanhado de seu amigo embaixador, foi homenageado em grandes festas na capital Finlandesa e com o prêmio conquistado comprou roupas novas, cuecas reforçadas e uma bela lembrança para levar para Rosinha o seu amor, sua paixão. Uma bíblia em Finlandês. Idéia é claro do embaixador.

Aliás o embaixador não podia deixar o amigo sem saber da farsa da Caracu e em uma dessas inúmeras festas de comemoração e homenagens, após tomarem umas e outras,  contou-lhe toda verdade e encerraram a noitada às gargalhadas e tomando é claro a fantástica Cerveja Nikolai nas gélidas ruas de Helsinque. Luizoco inclusive trouxe em sua matula duas caixas da Breja Finlandesa para o Brasil  e só bebe em ocasiões muito especiais.

Chegando em Brisas do Sul foi recepcionado pelo orgulhoso Prefeito, desfilou em carro aberto pelas ruas da cidade, foi ovacionado e teve que repetir exaustivamente nos bares da cidade a mesma estória que acabei de contar acima, é claro que cadê vez com outras nuances, outras 50 tonalidades de marrom  e outras hipérboles muito maiores do que as minhas, além das famosas performances apoteóticas.

Tudo ia muito bem para Luizoco, sua vida agora até parecia um sonho, mas algo ainda lhe faltava....

Mas é claro.... precisava levar o presente para Rosinha, seu grande amor, sua grande paixão. Quem sabe, em contrapartida, um terno abraço, um beijo de júbilo e desejo e admiração pela sua façanha além mar? Afinal ela foi a grande mola propulsora de tamanha jornada o Leitmotiv condutor de toda a estória.

E lá chegando na venda, com o coração pulsando e saltitando freneticamente, com a bíblia Finlandesa  e duas garrafas de Nikolai para presenteá-la, encontrou apenas o Seu Manuel, sozinho e cabisbaixo, contanto o seu dinheirinho no caixa como sempre fazia;

- E aí homi, turdo bem? Quanto tempo heim?  Cadê a Rosinha?

- Pois.... pois, tu não sabes?

- Fala logo homi de Deus?

- MORREU!!!

- MORREU? Mas como? Morreu de quê?

- Intestino preso! Muito triste.... Morreu asfixiada pelos próprios GASES.


autor: Luiz Tinoco Cabral

terça-feira, 17 de março de 2015

Para Felipa Martins



Uma estante enorme com clássicos da literatura. Mesas e cadeiras enfileiradas. São brancas, simples e estranhamente possuem toalhas. Como ler um livro sobre uma toalha? Por que cantor famoso gosta tanto de toalhas? No pé da estante um banquinho, urna, cofrinho ou escada. Na verdade  uma peça de design sem nenhuma ou  várias serventias. Só pra dar um ar de modernidade. Na parede uma imagem inusitada. Um super-homem numa bicicleta de circo segurando um guarda-chuva. Na composição secundária, nuvens carregadas e  uma gaivota com as asas abertas. Não sei o que o artista ou a artista quis dizer, mas combina com o ambiente, dito sofisticado biblio-resto-bar. Paraíso tropical em forma de livraria parafraseando Borges. No fundo uma porta de vidro  separa o mundo dos livros do mundo real. Aliás o que é real? Para quê uma porta? Porque uma banda se chama “portas”?Questionamentos assim entram e saem da minha mente perturbada. ELA chega. Curvilínea e dançante. Loira, vestido azul de laise, cabelos longos e salto agulha emanando leveza e delicadeza. Enfim uma mulher, daquelas de verdade, nota dez. Nesse exato instante queria ser o super-homem com sua visão de raio X(sem guarda-chuva, sem bicicleta). Esqueço que estou numa biblioteca, ou livraria ou paraíso borginiano ou coisa que o valha. Meus dois fetiches no mesmo raio de visão privilegiada. Tenho que escrever uma tese, um poema, um romance, um parecer jurídico uma porra qualquer. E nesse momento tudo fica num segundo plano, por trás da porta. Esqueço o real. Eu sou o super-homem não é mesmo? Sua pele é branca e entra uma brisa que a deixa levemente arrepiada. Acabou de sair do banho, seu perfume é um Miracle da Lancôme, aliás sua aparição é um miracle, uma miragem, uma vertigem. Como sou o super-homem vejo seus pelos pubianos suaves e loiros. A vulva rosa Lancôme levemente molhada. Um jasmim rosa em flor no início da madrugada. Saio do transe. O espinho de peyote entra na minha carne delirante fazendo estrago. Ela senta, cruza as pernas. A barra do vestido azul levita até metade das cochas volumosas. Ela olha para mim com curiosidade. De observador a observado. Ela desvia o olhar. Será que lê pensamentos? Raio X de pensamentos? Viro para meu torturador imaginário e confesso.- EU SOU CULPADO, EU SOU CULPADO! O Borges fica para outro dia. Entra uma  bibliotecária gorda e velha que até então se escondia atrás da estante. Eu lhe pergunto: -  Não servem uísque nessa espelunca? A gorda com ar de enfado não responde. A loira sorri. Nessa hora Borges diria: “a esperança é o mais sórdido dos sentimentos”.

LUIZ TINOCO CABRAL

sexta-feira, 13 de março de 2015

O MATADOR DE POODLES BRANCOS




Sou brasileiro, solteiro, veterinário aposentado por invalidez aos 38 anos. Não sei como isso foi acontecer? Só me lembro do meu último trabalho. Estava numa fazenda em pleno ato de combate à miíases cutâneas(bicheira) de uma vaca Jersey quando desmaiei e acordei no hospital. Depois disso nunca mais trabalhei. Moro com meus pais e não sou feliz em plenitude, a não ser em alguns momentos especiais conforme vocês verificarão no desenrolar dessa estória. Fui diagnosticado como esquizofrênico mas é mentira. Esses médicos da Previdência Social não entendem nada. Uns merdas! Aliás quem pode dizer que entende alguma coisa nesse mundo sem sentido e nesse País de bosta?

Sempre acordo tarde! A manhã me entedia, me lembra a infinidade de horas em que vou ter que encarar o nada o vazio da minha vida de aposentado. Então ligo o computador e fico nas redes sociais vendo o vazio da vida dos outros. Quanta banalidade.... A vida é banal, mas nessas redes sociais observo o quanto o ser humano é fútil, egocêntrico e egoísta.

Pois bem! Sempre posto alguns comentários políticos para passar o tempo. Acho que política é importante, faz parte e divulgar alguns pontos de vista contra a insegurança e a violência podem ajudar na construção de um mundo melhor. Sou entediado não alienado e por incrível que pareça ainda acredito no ser humano. Ninguém curte os meus comentários. Também não faço questão. Não quero ser apreciado por essa bandalheira de boçais que postam fotos da última viagem  a praia, vídeos de esqui em  Bariloche, mensagens de otimismo, aniversário de casamento, declarações de amor e outras coisas desprezíveis. Não, não...

Mas o que eu odeio mesmo é foto de cachorrinho. De cadelinha, de shitzu, de poodle... que coisinha mais desprezível....Que droga, o suposto amigo além de ter um animal de estimação que  só serve pra defecar no jardim alheio tem que torrar a nossa  paciência????

Existe uma infinidade de infelizes dizendo nessas redes sociais que amam mais animais do que pessoas, mostrando fotos de animais e dizendo que são lindos, pedindo ajuda para encontrar cadelinhas perdidas, típico comportamento pequeno burguês num País onde temos 20,4 homicídios por ano para cada 100 mil habitantes. É de estarrecer. Por isso que no curso de veterinária me especializei em animais de grande porte, vacas, bois etc. Esses pelo menos tem uma serventia. Servem para comer, para fritar bife, churrasco.

Também sou apaixonado por armas. Tenho uma coleção aqui no meu armário. Mas gosto mesmo é da minha Barret M82A1 com mira telescópica e silenciador. O legal dela além do seu formato anatômico e militar é que seu tiro pode atingir até 2 kilometros e meio de distância. Sem contar a aproximação da mira e a sua efetividade. A minha tem até nome. Bartira. Toda noite tiro a Bartira do armário e durmo com ela bem abraçadinho (e descarregada é claro porque não sou bobo). Trato-lhe como uma mulher de verdade. Garanto que é bem menos belicosa. Mulheres de verdade me dão medo, não gostam de mim mas também não dou nenhuma importância. Não necessito delas; me satisfaço sozinho com muita competência,imaginação e gel lubrificante. Aliás se for pensar mesmo não necessitamos de ninguém nessa vida vazia e passageira. Se a necessidade faz o homem no meu caso esse ditado velho não se aplica. Coisa de pederasta.

Pois bem, só de brincadeira coloquei a Bartira num case de violão e comecei a perambular pelo centro da cidade me misturando com essa corja de infelizes que seguem andando e comprando e contratando advogados, marcando consultas com médicos e dando importância excessiva à vida e seus pequenos problemas. É incrível como é fácil andar com uma arma de alto poder lesivo e não ser  notado sendo confundido com um pobre músico indo para um ensaio ou apresentação qualquer.

Cumprimento policiais com semblante de “homem do bem” na maior cara dura. Confesso envergonhado que tenho sempre uma ereção nessas ocasiões. Sou um grande artista e capaz de passar incólume e despercebido nas grandes multidões de cretinos. Um gênio travestido de homem comum. Aliás modéstia é para os fracos!!

Mas vamos aos fatos. Assim como é fácil andar com uma arma pelo centro da cidade sem ser notado é muito fácil subir nas coberturas dos edifícios comerciais, armar um  suporte e acoplar a Bartira. É sempre da mesma maneira. Falo na portaria  que vou em um escritório de um advogado qualquer e me dirijo para a cobertura no último andar que, ao contrário dos países evoluídos, no Brasil não é aproveitada para nada  – mero suporte de caixa d’agua, sujeira e entulho. Um espaço vazio e sem vida. O ambiente perfeito para meu divertimento.

No começo ficava horas no parapeito mirando  para cãezinhos de todos os tipos, chihuahuas coloridos, pinschers enrustidos, chow chows peludinhos, lhasas atrevidos, poodles de todas as cores, pretos, marrons, brancos.....e assim me divertia até o final da tarde e ia para casa me sentindo o senhor do destino de tão repugnantes criaturas. Deus cometeu erros crassos no momento da criação, mas esses bichinhos inúteis....

Um certo dia involuntariamente quando mirava para um poodle branco o gatilho disparou. O tiro acertou em cheio na testa do pequeno cão que morreu na hora e seguiu arrastado pela calçada e puxado pela coleira  por 50 metros até que a sua distraída dona se deu conta do fato. Lá embaixo uma enorme aglomeração, choro desmedido, comoção popular. Em cima do edifício  experimentei o maior êxtase de toda a minha vida. Uma sensação de plenitude, um lampejo, uma razão para viver. Enfim um sentido para a minha existência. Rapidamente desarmei a Bartira, guardei-a no case e fui para casa sorrateiramente. Passei ao lado da cena do crime, exercitando o meu dom artístico com ares de comoção. O crime foi perfeito, a nossa polícia incompetente jamais cogitou quem poderia ser o autor do disparo, sequer investigaram a trajetória da bala. Com certeza pouca importância deram para a morte de um mero cãozinho de madame.

Foi fácil. Diria extremamente fácil mesmo odiando o Rogério Flausino, aquele merda!

Sigo com a minha missão é claro com variações de cidades, centros, edifícios, com bom espaçamento entre um assassinato canino e outro para não causar suspeitas. Afinal aposentado e preso está fora de cogitação. Eu não agüentaria  o tranco e o convívio com os demais detentos nem mesmo em cela especial por direito. O ser humano é difícil. Seria muita humilhação para um artista e gênio como eu.

Matei cães de todas as raças, até mesmo cachorros maiores como Doobermans, Filas e São Bernardos. Muitos me agradeceriam se soubessem.... 

Porém por uma dessas vicissitudes sem qualquer explicação plausível, reparei que  o êxtase maior motivador da minha missão só ocorre quando mato poodles brancos. (???)

Desde então me especializei em poodles brancos. Uns dizem que é uma raça francesa porém a grande maioria acredita ser alemã. É considerada uma das raças mais inteligentes do mundo. Talvez seja esse o mote para a minha obsessão inexplicável. Preciso anotar  para a próxima sessão de terapia.

Frisando é claro que  esse meu terapeuta também não entende nada. Um merda!!! A única pessoa que me entende nessa vida é a Bartira, minha amada, minha companheira, minha confidente. Mas isso já é outra estória...



LUIZ TINOCO CABRAL

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O CHEIRINHO DO AMOR - crônicas safadas - Reinaldo Moraes



imagem retirada do blog da Status - da crônica homônima

Ahhh o velho lema da literatura brasileira – sempre gostar do livro dos amigos... Como não devo nada para ninguém muito menos para o Reinaldo Moraes que conheci na Feira do Livro aqui de Ribeirão Preto lá vai. Dei algumas risadas nas primeiras crônicas. Se fosse para eleger uma elegeria a primeira do livro “Retiro Criativo do Carvalho”. Ótima crônica que traz uma idéia para um retiro de escritores para lá de inusitado. Se fosse para eleger a segunda melhor crônica elegeria a 2ª. crônica do livro “Chaterine, Serge et moi”. Conhecendo o Reinaldo essas coisas que ele narra só poderiam acontecer com o próprio.  Assistir uma sessão de cinema ao lado do Alan Gainsburg e da Catherine Deneuve. O deslumbramento do fã no auge da juventude. Ótima também. O livro de crônicas “O cheirinho do Amor” crônicas safadas, Editora Alfaguara é sem sombra de dúvidas divertido, leve e descompromissado. Mas confesso que esperava mais. Com o passar das crônicas, que foram escritas originariamente e publicadas na Revista masculina Status, o esquema traçado e provavelmente encomendado pela revista começa a ficar repetitivo, diria até técnico, por vezes maçante com assuntos pra lá de datados, em que pese a maestria do escritor, domínio da gramática, do assunto e a manifesta e notória cultura geral. Talvez esteja sendo chato, mas é isso aí, aqui nesse espaço não faço concessões e não estou aqui para puxar o saco de ninguém. O legal de um livro de crônicas ou contos, pelo menos para este modesto leitor, é a divergência de assuntos, o inusitado, o que podemos verificar não muito longe em outro livro do próprio Reinaldo Moraes “Umidade”, onde temos uma gama de assuntos diferentes, crônicas de períodos diversos, a evolução estilística do autor sem cair no enfado e na mesmice. No novo livro “Cheirinho” ficam nítidas às concessões do autor ao esquema da revista e ao gosto médio de seu leitor, em alguns pontos chega até a explicar às citações, ou seja, no ato de escrever a crônica deve pensar: acho que meu leitor não tem cultura para conhecer esse escritor que cito, ou essa obra de arte então lá vai um parágrafo/aula introduzindo de maneira “light” e até indicando o universo paralelo da alta cultura para eles. Tudo bem para revista de mulher pelada vale, é até recomendável, mas para livro, e para o público que entra numa livraria, compra um livro, conhece a obra do escritor e espera um pouco mais do que simples entretenimento ficou devendo. Vixi comecei o ano bravo heim??? Criticando o mestre, autor de PORNOPOPÉIA?  Muita coragem. Mas não se preocupe não Reinaldão. Ninguém lê mais blog hoje em dia; o meu então está no limbo. Comentários por favor
(risos).

sábado, 13 de setembro de 2014

Hosana na sarjeta Marcelo Mirisola




Analisando o último livro do Marcelo Mirisola, Hosana na Sarjeta que comprei aqui na Saraiva do Shopping Santa Úrsula, Ribeirão Preto, por R$32,00. Editora 34 primeira edição. Tem o livro novo do Mirisola até nas Lojas Americanas, quem diria!!! Yahoo!!!

Pra começar aviso que conheço quase tudo que o Mirisola já escreveu, desde o tempo que tinha que encomendar o livro e recebê-lo pelo correio e por isso entendo o mote que o impulsiona a escrever. No caso uma dor de corno ou de amor sempre é bem vinda(ou mal vinda) e serve de combustível, de lenha e adubo. Lembrei de “Joana a Contragosto” outro livro dele. Pensando bem uma dor não, duas dores. Para não se sujeitar a um psicanalista argentino(essa é dele). Fiquemos então com nosso analista de Bagé, ou de Florianópolis ou da Praça Roosevelt. Começamos com um encontro fortuito de um macho heterossexual, meio cristão e intelectual que gosta de Borges, Céline e Cioran com uma fêmea brega, macumbeira, raspada e gostosa em frente a boite Kilt que pode ser em Copacabana, Kuala Lumpur ou nos Jardins. Pois bem lá em frente ao Castelo da Cinderela  M.M encontra a sua  primeira mariposa Paulinha Denise. Não vou ficar descrevendo tudo. Como diria o Tim Maia “read the book”. Mas digamos que  o seu traço marcante é uma carapinha oxigenada. Pois bem, desse encontro vamos rindo do imponderável e trágico dessa combinação imperfeita. O equilíbrio que não existe mas que persiste na tênue corda bamba do sexo que, no caso, não precisa de viagra nem de metafísica. O contraste entre o carnal e o racional com pitadas de sobrenatural. Muitas divagações que vão das qualidades indiscutíveis do Zeca Pagodinho a cinco entidades abaixo de um chapeuzinho de poodle. Se a coisa toda já era difícil imagine quando aparece uma pseudo-fã mentirosa, novinha e adultera na jogada. Ariela é o oposto da outra em tudo pra começar nas regiões baixas onde predomina uma selva amazônica a la Cláudia Ohana. Mas com a nova cara metade e muita palha na cabana o equilíbrio por óbvio também não existe. Sem conflito não há livro, não há vida, não há merda, não há combustível. Entra a questão da juventude da mentira do desejo instintivo pela solidão e pela preservação do homem egoísta e ciumento. Entra agora até um improvável viagra na jogada e uma ou duas brochadas. Sei que falando assim nesse meu espasmo de síntese tudo parece muito pobre e superficial mas só lendo o livro para entender a profundidade, as sutilezas, as associações e citações de uma riqueza ímpar. (“read the book”).



Explico com exemplos:

Só Marcelo Mirisola é capaz de escrever diálogos impagáveis do tipo:

“-Aeroporto? – perguntou o motorista.
– Aeroporto, cemitério do Caju, pruma boate azul em Kuala Lumpur. Deserto do Mojave. Pra avenida chorar pela cabrocha que não apareceu. Vamos resgatar o dr. David Banner de um piano triste. Pruma quarta-feira de cinzas chuvosa debaixo de uma marquise no Anhembi. Qualquer lugar! Me leva praputaqueopariu motorista.” (página 140 1ª. Edição de 34).

Ou tratados de antropologia como este:

“Quando Deus fez o mundo, deve ter olhado pra Mongaguá e pensado: “É aqui”. E carimbou a Baixada na alma dessa gente que não é caipira, não é praiana, não é metropolitana. Não é nada. Basta fazer uma viagem de metrô. Do terminal Jabaquara até o Tietê. Reparem. A cara amarrada. A mesma tristeza, o viço perdido. A deselegância nada discreta da tiazona crente vestida de urubu. Apenas o barulho do vagão, nenhum sinal de vida. Inventamos a embolia. O câncer do pulmão. A neblina eterna cobrindo a Serra do Mar. Hebe Camargo. O bermudão, o Rider e a camiseta regata. E Deus, só pra sacanear, dividiu a conta no cartão em mil parcelas a perder de vista e sentenciou: “agora vão pra Mongaguá e não me encham o saco”. (pág 81 ed 34 1ª. Edição)  (risos).

Sem contar o imperdível estudo sociológico/político/ambiental de um Reveillon no Rio de Janeiro que começa na Adega Pérola em Copacabana e  vai parar numa cobertura/duplex no Leme com vista para a mata e as favelas. (ponto alto). O contraste com a vidinha banal e marginal no Km 60 na Rodovia Raposo Tavares dias depois. Já dizia o lugar comum: “o mundo dá voltas”. E esse livro também de Kuala Lumpur a São Paulo, Rio de Janeiro a Piumhi MG. (faz até uma parada obrigatória aqui em Ribeirão Preto/na Rodoviária).


E depois de tudo isso termina  com deslavado lirismo e uma poesia em prosa  sobre felicidade, solidão, desolação, tilápias e tucunarés na Serra da Canastra. Só poderia ser ele mesmo. Marcelo Mirisola. O resto é mesmice, cópia mal acabada, enganação. Fique com o legítimo(Rider) que não deforma. (“read the book”).



sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A vida financeira dos poetas - Jess Walter


Jass é um escritor americano consagrado vencedor do Prêmio Edgard Allan Poe, mas o que me levou ao livro foi o ótimo título. Conta de forma muito bem humorada a estória de um anti-herói Matt Prior, jornalista com tendências poéticas e artísticas que abandona um emprego fixo para aventurar-se em carreira solo na internet. A partir disto o autor vai desvelando fracassos em série de Matt. O negócio não dá certo e no fluxo vem a crise financeira, matrimonial, familiar, profissional, culminando na crise de identidade com o protagonista aventurando-se numa insólita viagem ao mundo do tráfico de drogas. É claro que nada dá certo. O cara é jornalista e pior poeta como poderia envolver-se em seara tão distinta e tão, digamos, anti-poética. O bacana é que ao mesmo tempo em que o escritor nos entretém com essa personagem tão cativante, paralelamente faz uma crítica a todo o sistema americano capitalista, da busca desenfreada por comodidades, status, coisas e mais coisas, o que leva muitas vezes o cidadão a deixar toda a vida esvair-se pelo ralo, num fluxo constante e perpétuo ruma ao lugar que nos indicaram, que nos reservaram no sistema hidráulico. O esgoto. A selvageria urbana dos encanadores e detentores das torneiras  em Wall Street. O sonho americano nunca foi tão questionado. E é isso, no fundo o livro é : da classe média a classe pobre para demonstrar que não precisamos de luvas se temos bolsos. E o que importa está em outro lugar com certeza. E que para essa sociedade que está aí , começar do zero talvez seja uma boa saída. Sem afetações e maneirismos é claro. Pra começar - deixar o carro em casa e pegar um ônibus é uma salutar mudança de perspectiva. “O medo conduz às formas poéticas mais baixas” (pg 311, cap 28 Ed Benvirá 1ª. edição- titulo/autor supra)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O herói discreto Mário Vargas Llosa

The Women Bathing 1929 - obra de Tamara de Lempicka

Dos prazeres que me restam como homem casado além das alegrias do leito conjugal e oficial e o som da novela  entrando pelas vísceras me sobra ler bons livros. Desta feita confesso: Sou fã de carteirinha do Mário Vargas Llosa , escritor que admiro sobremaneira  acompanhando os altos e baixos de sua carreira como romancista. Simplesmente adoro “O paraíso é na outra esquina” e “Memórias de uma menina má”. Seu último livro “O herói discreto” é um livro discreto. Daqueles sem alarde, sem arroubos de política ou grandes saltos estéticos de um escritor que não tem que provar mais nada para mais ninguém. O Esquema de duas três estórias paralelas e intercaladas que se encontram vagamente ao final continua lá. O resgate de antigos personagens de outros romances também continua lá. Afinal o escritor tem um estilo próprio ao escrever, tem suas cartas na manga, tem 78 anos e nenhuma necessidade de mudar o time que efetivamente joga bem e efetivamente ganha. Porque não? A critica é impiedosa, sempre espera algo novo ainda mais depois que ele ganhou o Nobel de Literatura e se envolveu com política num passado próximo. Só vejo criticas negativas ao livro. É difícil para algumas pessoas pensar, imaginar vagamente  que o escritor quer apenas contar algumas estórias e se divertir com elas sem segundas intenções. Afinal escrevemos para quê? Para influenciar ou para entreter? Porque não as duas coisas sem maneirismos ou afetação? E é somente isso. Um livro sem maneirismo e afetações que trata superficialmente “en passant” de questões como ética e retidão de caráter num mundo materialista. A dificuldade da honestidade no mundo moderno. O medo coletivo. Os personagens principais Felicito Yanaqué e Rigoberto passam por inúmeras dificuldades e provações para manter seus princípios ante às tentações mundanas e triunfam em um final edificante. Os personagens se dão bem ao final e isso a crítica não perdoa. Acusam o autor de neoliberal já que um protagonista é empresário bem sucedido e o outro funcionário/advogado graduado de uma grande empresa. E porque não? Só tem valor escrever sobre artistas do underground que bebem e flertam com o suicídio 24 horas por semana? Acusam-no ainda de novelismo, irrealidade etc.  Com o devido respeito às opiniões divergentes não aceito. As estórias estão bem engendradas e se sustentam e nos impulsionam para a continuação, para o capítulo seguinte sem nenhuma dificuldade. Li o livro em dois dias até perdi a noção do tempo. Os personagens estão bem constituídos, passam na prova do CPF e do RG, e embora tipos comuns, deixam a impressão de magnitude, deixam uma mensagem, ou seja toda essa lenga lenga e para dizer que os personagens deixam o seu recado, a que vieram. Um romance tem que cativar o leitor. E cativa. Ademais sempre achei que o Rigoberto é o alter ego do Llosa. Aquele cara no fim da vida bem casado  que quer curtir as alegrias do leito conjugal e oficial, seus livros, suas gravuras ao som de boa música mas é convidado frequentemente a lidar com toda a urbe ensandecida, críticos mesquinhos e com  essa estranha realidade massacrante do dia a dia  que nos envolve. Talvez não perdoem o escritor devido a esse atual e bem dado piparote na página 180 : “a função do jornalismo nesta época, por exemplo, ou pelo menos, nesta sociedade não era informar, era escamotear toda e qualquer forma de discernimento entre a mentira e a verdade, substituir a realidade por uma ficção na qual se manifesta a massa oceânica de complexos, frustrações, invejas, ódios e traumas de um público corroído de ressentimento e pela inveja. Mais uma prova de que os pequenos espaços de civilização nunca prevaleceriam sobre a incomensurável barbárie.” Mais atual impossível não? Basta ir na banca e ver a capa da última “Veja”. Enfim pode ler sem culpa ou vergonha. Pra finalizar e dar um piparote em você leitor que não acredita no seu próprio potencial artístico (como eu) destaco o diálogo abaixo entre o filho Fonchito de 14 anos e seu pai Rigoberto retirado das páginas 185/186, lembrando que Deus perdoa tudo menos a covardia. Se a carapuça servir já ta valendo. Lá vai: “-Sobre você papai. Você sempre gostou de arte, pintura, música, livros. É a coisa de que fala com mais paixão. E então, por que foi ser advogado? Por que passou a vida inteira trabalhando numa companhia de seguros? Você devia ser pintor, músico, sei lá. Por que não seguiu sua vocação? Dom Rigoberto assentiu e pensou um pouco antes de responder. – Por covardia, filhinho – murmurou afinal –Por falta de fé em mim mesmo. Nunca acreditei que tivesse talento para ser um artista de verdade. Mas talvez fosse só um pretexto para não tentar. Decidi não ser um criador, e sim um mero consumidor de arte, um diletante da cultura. Foi por covardia, é a triste verdade. Então é isso. Não vá seguir o meu exemplo. Seja qual for a sua vocação, vá fundo com ela e não faça como eu, não a traia.” E aí serviu? Como uma luva não é? Esse espaço agora passa a ser de auto-ajuda também. Agora vamos ler o Cântico dos Cânticos que está no livro mais erótico do mundo e procurar na internet o catálogo de Tâmara de Lempicka na Royal Academy. Só vai entender esse último lampejo súbito de vontade quem ler o livro. Só para ilustrar que um romance de Mário Vargas Llosa nunca é um simples romance dispensável como muitos levianamente reproduziram por aí. Cabe apenas um pequeno puxãozinho de orelha no escritor já que ele sacaneou o personagem Fonchito na página 339. Eu  provo: “No free shop ela havia comprado várias correntinhas de prata peruana para das de lembrança às pessoas simpáticas que conhecessem na viagem e Fonchito um DVD de Justin Bieber, um cantor canadense que enlouquecia os jovens do mundo todo e que ele pretendia ver durante o vôo na tela de seu computador. É ruim heim Fonchito? Pelo amor de Deus.... Essa foi imperdoável. (risos).

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Notícias da Matilha Luiz Augusto Michelazzo Editora Coruja




Conheci o Luiz Augusto Michelazzo no lançamento do livro “20 ficções sobre o amor & ribeirão preto”, compilação de textos em que participei com um conto “as mulheres que não comi e outras misérias”. Autografei meu conto para ele e batemos um breve papo. De cara muitas afinidades literárias, referências influências etc. Mas no final da breve conversa ele falou algo que me intrigou. “-Também li “pornopopéia” e escrevo melhor que Reinaldo Moraes”. Pra quem não sabe  Reinaldo para mim é um ídolo, um escritor com grande domínio desse estilo desbocado e despudorado que procuro papagaiar. Dita a frase intrigante vamos então a prova. Fui na Editora Coruja e ressabiado  comprei  o romance “Notícias da Matilha” de Luiz Augusto Michelazzo. De cara adorei a capa com um desenho do grande artista plástico Paulinho Camargo. O livro é cinza e tem 303 páginas muito bem escritas e revisadas pelo próprio autor que escreveu em diversos jornais por vários anos dentre eles o saudoso Diário Popular. Entramos então no mundo das redações de jornal, da notícia fast-food, da rotina incessante em busca de algo que atraia o leitor médio, uma rebelião qualquer, política, drama, num ambiente altamente competitivo e opressor em busca da venda, do lucro da aceitação popular e do editor canalha, sempre canalha. Só os fortes sobrevivem. E o protagonista Antonio Capuletto é um deles sem deixar de ser um eterno repórter idealista e sonhador vivendo em um momento histórico altamente conturbado de inflação galopante e incertezas políticas. Mas tudo isso serve de  pano de fundo para descortinar as sacanagens, e o outro mundo que rola nos bastidores da notícia, entre um plantão e outro nos cafezinhos e barzinhos de final de expediente; E aqui entram as duas outras jornalistas Maria Luiza e Bete (mal casadas) e um tórrido triângulo amoroso de fazer Henry Miller ter uma ereção nas catacumbas. Seguindo uma antiga tradição de grandes escritores de Bocage a Bukowski o Luiz Augusto não tem tramela no teclado. Tecla sem dó nem piedade caprichando nas descrições eróticas e nos detalhes mais íntimos, muitas vezes sórdidos das relações sexuais de seus personagens, chegando muito perto do abismo da pornografia, mas com muita maestria não caindo nele, usando de um artifício muito nobre. O humor. Grande mérito do autor. Todo o texto é permeado de muito humor daquele escritor que escreve curtindo o que escreve sem se levar muito a sério, dando liberdade e vida  para seus personagens sem se preocupar com os pudores o nojinho dos leitores. Parabéns ao Luiz Augusto e para a Editora Coruja que tem prestado um excelente serviço às letras aqui na nossa terrinha roxa. Quanto a prova. Quem escreve melhor? Concluo que pouco importa, o importante é que  ambos escrevem muito bem, com alguns pontos em comum, mas cada qual com seu estilo próprio. Cada qual no seu quadradinho de quatro. O que realmente importa e a pergunta que não quer calar é quanto de autobiográfico tem de “Notícias da Matilha” com a trajetória de vida do nosso escritor e jornalista Luiz Augusto. Pergunta para ser feita no próximo bate-papo, quem sabe tomando um belo chope no Pingüim. Está feito o convite.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Kafka à beira-mar Haruki Murakami

“Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.”
Haruki Murakami, in 'Kafka à Beira-Mar'



Esse Japonês é foda! Escreve pra caralho! Ao narrar duas estórias de personagens solitários que se cruzam com toda sorte de realismo fantástico o mestre Murakami vai nos dando uma aula de como destrinchar romances intercalando alta cultura com cultura pop, filosofia e a escatologia oriunda das coisas banais do dia a dia.Um garoto de quinze anos em crise existencial foge de casa para encontrar respostas para suas angústias e dilemas familiares. Um velho analfabeto que conversa com gatos  vai em busca do seu destino. E nesses caminhos díspares nos deparamos com um menino chamado corvo, chuva de peixes e sanguessugas, portais para outras dimensões, dilemas freudianos e shakesperianos, uma mãe omissa, um assasinato, um caminhoneiro apaixonado por música clássica, prostitutas que citam Hegel,  uma bibliotecária andrógina,conversas com ícones do capitalismo como o bonequinho do Jhonny Walker e o Coronel Sanders, mortes, sexo, descobertas e surpresas a cada página nos causando uma constante sensação de estranhamento. Murakami como sempre cria um mundo muito peculiar, um mundo de sombras que esconde os detalhes do piso irregular em que estamos caminhando de forma sempre titubeante. No final todo o não senso improvável faz o maior sentido posso garantir. E a satisfação após as intrincadas 589 páginas é plena.



Murakami é o queridinho da literatura japonesa atual largou uma vida estável como proprietário de uma casa de Jazz para correr literalmente atrás do sonho de ser escritor em tempo integral. Muito esforço e muito talento.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Quiet Riot no Corinthians - 1985



Tempos atrás na corridinha matinal surgiu no i-pod a música  “balls to the wall” do Accept e imediatamente me veio uma saraivada de lembranças boas do tempo em que eu tinha cabelo em abundância, era metaleiro, andava devidamente paramentado com uma gangue de japoneses metaleiros em São Paulo, com meu grande amigo Silvio Kimura e seu primo Renato, e íamos ao centrão comprar discos e artefatos roqueiros na Woodstock e lá ficávamos sentados na praça trocando idéias sobre música, comportamento, mulheres e deixando o tempo passar. E o tempo passava. Certa vez fomos no show do “Quiet Riot” e os brothers derrubaram o portão do Ginásio do Corinthians; Entramos de graça, a polícia descendo o cacete e fazendo revista durante o show. Eu com o ingresso no bolso(guardei como souvenir) e berrando “c’mon fell the noise” e delirando com os solos de Carlos Cavazo. Bons tempos.....e aí surge a inelutável questão: Em que encruzilhada nosso caminho muda tanto? E essa gravata embaixo do meu queixo?

sábado, 13 de julho de 2013

Efraim Medina Reyes – Técnicas de masturbação entre Batman e Robin, Pistoleiros/Putas e dementes e Era uma vez o amor mas tive que matá-lo.

o escritor brincando de roleta-russa

Fiquei um bom tempo sem postar aqui. Desilusão com a literatura? Não. Novos caminhos a serem percorridos. As vezes como Rimbaud é preciso viver um pouco e como Bukowski fingir uma adaptação, uma integração com a sociedade pra sacanear depois. Mas deu saudade e nesse eterno retorno aqui estou novamente para falar desse escritor colombiano muito interessante. Acima os títulos dos livros que li e que encomendei por sebos espalhados pelo Brasil inteiro. O cara é “bom de título” porém muitas vezes estes não demonstram o verdadeiro conteúdo e por conseqüência  é impressionante a quantidade de “Técnicas de masturbação” devolvidas pelos leitores às prateleiras. Fico imaginando o cara comprar esse livro buscando muita sacanagem e humor despretensioso e fácil e deparar-se com fracassos, desilusões, lirismo e experimentações formais. (risos) Pena que as pessoas não perceberam que é um bom livro assim como os demais e que fogem muito da mesmice. Vai entender o leitor....Com isso ganhei descontos bem vindos na estante virtual. Efraim é desses amigos que encontramos perambulando pela América Latrina, como Gutierrez, como Fuguet e que gostaríamos de tomar uma cerveja na mesa de um bar bem decadente. O cara não tem tramela e fala em prosa e verso desde a chifrada que levou da namorada, uma imaginária transa com Silvia Plath , desventuras de uma banda underground, técnicas para conquista e sedução até uma despretensiosa mini-biografia não autorizada de Kurt Cobain. Portanto mais pop impossível. O alter-ego Rep vai perambulando pelos subúrbios mais escuros das cidades mais apagadas e envolvendo-se nas situações mais insólitas. Nessa miscelânea encontramos momentos muito poéticos intercalados com humor refinado e uma auto-sabotagem constante. O eterno descontentamento desses seres latino-americanos que andam à margem, num local incerto, tão incerto como Cartagena das Índias e quiçá com forçada analogia: Ribeirão Preto minha querida cidade colônia penal. Essa passagem é bem ilustrativa: “Dia e noite deixamos nossos sonhos de amor, nossas loucuras e ilusões diante da tevê enquanto acumulamos desleixo, gordura e remorsos”. Recomendo para quem está lendo os mesmos livros com as mesmas fórmulas várias vezes e que hoje estão na lista dos mais vendidos e amanhã não servirão nem mesmo para forrar a gaiola(objeto em desuso) ou para limpar a bunda. Precisamos ousar nas escolhas meu caro leitor que sai em passeatas, escreve cartazes espirituosos, se emociona e chora e não percebe que continua sendo manipulado pelo Grande irmão e aumentando o ibope dos telejornais. “Retorna neste verso a tarde com os cílios molhados e o sol contradizendo a garoa. Há um potro sem domar amarrado à alma e os olhos da ira se agitam nesta tarde sem cavaleiro” É esse o espírito contestador e vibrante do escritor que atrás de um visual misógino-caribenho e de um auto-marketing duvidoso esconde e revela muitas coisas  nas entrelinhas. O prefácio “a máquina de somar zeros” de “pistoleiros/putas e dementes” é imperdível cabendo aqui algumas transcrições “uma vida sem canções e sexo oral é muito entediante” (...) “os poemas não evitam guerras, nem curam a gripe, mas ajudam a suportá-las” (...) “Se você está lendo esta linha ou a seguinte, o problema é seu; como a máquina de somar zeros, tudo o que eu digo e em que me baseio pertence ao vazio porque o destino de um livro nunca estará nas mãos de quem o escreve, e sim de quem o lê”. Falou e disse! E serviu ao menos para destravar esse blog mais uma vez. Quiça chegarei às quinze mil crônicas de Rubem Braga. O sorriso fechado já é um começo.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Os Anos do Furacão - Mário Bortolotto - Manual de "antiajuda"


foto Bob Sousa



Digo desde agora e sempre que é difícil manter o distanciamento quando nos deparamos com um livro de um cara que é a nossa cara, que tem os mesmos ídolos e quase as mesmas idéias. Aliás isso é um privilégio cada vez mais raro nesse mundo esquisito e multifacetado. Mas vamos lá: O livro “Os anos do furacão”  do Mário Bortolotto narra em forma de crônicas de uma maneira bem sincera e com um vocabulário simples e cheio de gírias (“ta ligado?”); trechos da vida do escritor, dramaturgo, ator, músico, poeta....desde a sua infância até o episódio dos tiros/assalto no teatro da Pça Rossevelt e fatos posteriores a este acontecimento marcante a fartamente noticiado. Tudo bem autêntico, bem a cara do autor, de maneira desordenada, em formato “blog” e  pinçando acontecimentos e brincando com a memória. Porém ao contrário do Marcelo Mirisola que mais inventa do que transcreve a realidade biográfica com proposital picaretagem no livro do Bortolotto temos uma crueza e uma sinceridade quase infantil, singela, você lê o livro e diz: “- É ele mesmo, está tudo ali!”
Com o devido respeito é o mesmo “marginal” corajoso que encontrei em duas palestras aqui em Ribeirão Preto, uma na Feira do Livro e outra nos Estúdios Kaiser de Cinema, sem contar as inúmeras e impagáveis entrevistas, peças, livro de contos, vídeos no youtube, etc. O Mário curte esse negócio de ficar à margem, mas ao mesmo tempo trabalha pra caramba, produz como ninguém e extrai dessa situação, com muito humor, diga-se, todo o seu material de trabalho como um Plínio Marcos, um Gutierrez.
O Mário é um exemplo de anti-exemplo de auto-sabotagem voluntária e só quem tem alguma maturidade de vida pode entender o que eu estou escrevendo. Só esses vão entender o título acima “Manual de antiajuda”, só aqueles que tem um Bukowski ou Henry Miller na cabeceira da cama no lugar da Bíblia.
Muito embora o livro seja de memórias, temos nas entrelinhas várias divagações pertinentes e visões peculiares sobre sucesso, fracasso, estilo de vida, trabalho, coerência, solidão, individualismo, marginalidade, drogas, bebida, esporte, amizade, sinceridade, referências, gibis, poesia, blues.....
Legal ver também a modificação de ânimo antes e depois do dia fatídico. Acho sinceramente que aconteceu alguma coisa importante ali. Antes o texto era mais leve, superficial, agora mais melancólico, mais nostálgico e porque não dizer mais equilibrado e sereno. Laudas em homenagem à filha, aos verdadeiros amigos.... Afinal qual a razão de viver ou ter uma segunda chance senão para estar com aqueles que valem alguma coisa e fazendo aquilo que vale a pena?
Você pode não gostar e não concordar com tudo que o Mário diz, mas é tudo muito bem fundamentado por alguém que vive na carne e constantemente aquilo que escreve.
Uma vez fui numa palestra de uma escritora que veio com essa de laboratório, que  para escrever sobre o lixão pesquisava em livros, em jornais, bibliotecas.... Definitivamente não acredito nessa literatura. Falta sangue, falta esperma, merda, falta verdade, falta adubo natural, urina na meia(essa é do Mário rsss). No livro do Mário voa resíduos para todo o lado. É só ligar o ventilador ou abrir a garrafa. (a capa do livro é o rótulo estilizado de um Jack Daniels – risos novamente). Só para ilustrar o que estou dizendo aí vai uma transcrição da crônica “bem-vindos ao meu mundo”: “Não é o melhor dos mundos e nem é exatamente agradável. É um mundo de um cara confuso que sempre mete os pés pelas mãos e perde o jogo e não consegue trapacear, mas mesmo assim fica posando de “esperto” (...) o meu mundo não cheira bem e as torneiras estão sempre pingando e há restos de comida em cima da pia.” M. Bortolotto na pág 253.
Portanto fica a recomendação – tecle  na editora Realejo e encomende o seu www.realejolivros.com.br. Para mim o livro caiu muito bem. Viver sem grandes expectativas em relação a si e em relação aos outros nesse mundo que persegue o “sucesso” a qualquer custo e tenta esconder às “mazelas” embaixo do tapete. Estou aos poucos pulando fora também meus caros leitores! Não se iludam! Aproveitem enquanto ainda dá tempo. Fica aqui a minha “antiajuda”. Maiores esclarecimentos é só pagar uma cerveja qualquer lá no Bar do Português.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Gibis e literatura. Nerd eu? Longe disso...

Minha relação com os quadrinhos vem dos confins da infância. Era um menino sozinho mas muito curioso com uma irmã cinco anos mais velha com uma prateleira cheia de Mônicas, Cebolinhas, Bolinhas, Brotoejas e Luluzinhas. Depois numa mudança da minha prima Dulcinha herdei uma série de Zé Cariocas, Pato Donalds dentre os primeiros números de tais coleções (inclusive). Coleção essa que foi roída por traças urgh! Teve também aquelas férias em Araruama que comprei “Lulu e Bolinha nas férias” e viajei por Paris e Nova Iorque numa rede da varanda da casa do Tio Joel . Mas a febre começou mesmo com a Tia Guiomar que me deu o primeiro Tintim e depois o primeiro Asterix e a paixão não teve mais fim. Tenho a coleção completa dos dois até hoje. A adolescência chegou e com ela muitos Mads, “Animal”, Chicletes com banana, Rebordosas, Luke Lukes e Cia ltda (guardo todos com muito zelo no meu escritório). Necessário frisar que nunca gostei de Batmans, Robins e Super-homens e outros heróis mascarados. Necessário frisar número dois que entendo os quadrinhos como literatura e não vou ficar falando aqui “graphic novels”, porque isso é uma “frescura du caralho” com o perdão da expressão. É “quadrinhos” mesmo, GIBI, estórias em quadrinhos e tenho dito. Sou nerd? Longe, muito longe disso.... Gostaria de frisar número 3 que os quadrinhos quando bem feitos nos remetem a uma outra dimensão da literatura. Temos uma imagem mais nítida da própria imagem que o autor tenta nos passar; uma imagem mais próxima da imaginação do autor/escritor. Porém ao contrário do cinema essa imagem não esgota tanto a nossa própria imaginação, não satura o nosso cérebro. O desenho por mais realista que seja não esgota a imagem em si. É uma sobreposição de imagens do autor com as nossas loucuras imagéticas que criamos no ato da leitura. Em resumo: um barato sem necessidade de qualquer ácido. E é exatamente isso que tem me levado de volta aos quadrinhos. Na minha idade não há como tomar ácidos sem efeitos colaterais duradouros e indesejáveis.Recentemente li vários Robert Crumbs dentre eles o tão bem escrito “Kafka” com parceria de David Zane Mairowitz e posso sem sombra de dúvidas dizer que é a mais agradável maneira para conhecer esse fantástico escritor tcheco universal. Uma outra dica é o ótimo “os beats” com roteiro de Harvey Pekar e companhia onde é possível visualizar de uma outra maneira, que seja superficial,  toda a cena literária “beat” em meados dos anos 50 e 60 nos Estados Unidos. Também nem tudo é alegria nesse mundo dos quadrinhos. Já tive experiências ruins como o “Palestina” de Joe Sacco, que com o devido respeito e com as devidas escusas pelo trocadalho – é um saco!.Acho que política com quadrinhos não combina muito. Sou nerd? Longe, muito longe disso....Mas sou mais um bom gibi erótico do que uma revista Playboy e tenho dito. Nessa linha reverências obrigatórias ao Sr. Milo Manara e Giovanna Casotto. Bom bem, ops. Toda essa introdução foi para falar sobre dois gibis que li atualmente. O primeiro é “Pagando por sexo” de Chester Brown, o segundo é Diomedes de Lourenço Mutarelli. O primeiro tem o mérito de, com muita sinceridade, relatar de uma maneira agradável, realista e didática um tema para lá de controverso e porque não tabu. O escritor canadense Chester narra em primeira pessoa suas próprias desventuras com prostitutas e similares com toda riqueza de detalhes e traços para lá de primitivos para depois concluir que mesmo com o vazio pós-coito prefere estas relações às relações dita românticas, chegando a conviver por anos com uma prostituta para lá de especial. Por fim desvela toda a hipocrisia e preconceito que envolve o tema, não poupando amigos, sociedade, País etc. Belo trabalho. Todo escritorzinho novo que fica aí tentando jogar as verdades inconvenientes tapete abaixo deveria ler. Já “Diomedes” de Lourenço Mutarelli, peculiar escritor e desenhista que venho acompanhando a vários anos revela a construção de um personagem impagável : Um detetive, delegado aposentado, sujo, desorganizado, piadista e aloprado que percorre os caminhos mais tortuosos para desvendar, ou melhor, não desvendar seus “casos” indo do nada a lugar nenhum, passando por situações insólitas, existenciais e metafísicas e nos revelando um caminho para lá de caótico, escatológico e engraçado. O destino não importa, o que importa é o caminho. Tudo muito noir, com diálogos “a la” Pulp fiction. Certa Feita G. K Chesterton , escritor inglês falecido em 1936 em seu ensaio sobre “como escrever uma história de detetive” estabeleceu a primeira regra: “o alvo de uma história de mistério, como de toda outra história e todo outro mistério, não é a escuridão mas a luz. A história é escrita para o momento em que o leitor a compreende, não simplesmente para os vários momentos preliminares em que ele não a compreende”. Pois não é que o Mutarelli subverte esse princípio com muita propriedade?A compilação da trilogia de 5 ou 6 anos de árduo trabalho, 429 páginas Editora “Quadrinhos na Cia” do nosso amigo Muta só não é obrigatória porque não acredito em “obras obrigatórias” e tenho dito. Nerd eu? Longe, muito longe disso....Em tempo: não empresto os meus gibis!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

sinal dos tempos

Percebo com total serenidade que os tempos são outros ao abrir o Jornal “Folha de S.Paulo” e observar na sua “Folha corrida” do dia 26/11/12 as seguintes manchetes: “Nova Roosevelt – após a revitalização, os aluguéis subiram e os Satyros vão sair da praça;” Caramba...essa é a realidade cruel do nosso teatro(penso)....Na mesma página “Dinheiro dos músicos. Por uma música ouvida um milhão de vezes na internet, algo raro, um músico recebe a miserável quantia de R$360,00”. Putz...que mal....não dá mais para viver de música(penso). Mas de súbito e na mesma página em contraposição vejo este quartzo rosa dos “tempos modernos” “Nerd Campeão - Jogadores profissionais faturam milhões disputando torneios mundiais de games.” (....) Milhões??? Games???? Para fechar a minha agradável leitura matinal o jornal destaca a insólita “frase do dia” “Atenção aos retardados que estão assistindo Pica Pau começou Tv Xuxa” – “Mário Meirelles diretor do TV Xuxa no seu twitter”. Pica Pau??... TV Xuxa???...Estupefato fecho o jornal, acabo de tomar meu café italiano, forte e amargo, como o meu pão amanhecido com manteiga, visto o meu paletó surrado para ir para mais um dia de trabalho enfadonho e ao despedir de meu filho de nove anos que está na TV jogando “Call of Duty Black Ops”....tenho enfim um alento matutino e digo com orgulho paternal:


-MATA...ATIRA...ATIRA....MAIS RÁPIDO..RÁPIDO PORRA... MATA todos eles meu filhão!

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Tropicália - o filme de Marcelo Machado



Aproveitando a ressaca de eleição com o fim do 2º. Turno aqui em Reb’s bem como o forum fechado fui assistir uma matinê no Cinépolis da “avant-première” em Ribeirão Preto do filme Tropicália do diretor Marcelo Machado. Dia 29 de outubro, 13:30 horas – ao escolher a cadeira tinha o cinema todo a minha disposição; “- Se for só eu a sessão acontece?” “- Sim, sem problemas, mesmo sem ninguém!”. Aliviado lá fui eu. Durante os trailers apareceu mais um nerd gato pingado (que não ficou até o final da sessão). Pedi para o operador da câmera acertar o foco que estava horrível e iniciou-se a sessão para os dois gatos pingados. Um e meio vai já que o meu cúmplice barbudo que deveria ter a minha idade foi embora antes do final. Me senti uma flor de lótus. Porém tudo isso é um pecado. Um desperdício. Um despautério. Sei que sou suspeito já que quero justificar o meu investimento(R$8,00 + a pipoca) mas o documentário é ótimo, as imagens selecionadas incríveis e o tratamento delas bem como os relatos muito felizes e com muita riqueza de detalhes. É fácil entrar no climão “flower power” utópico que envolveu a Tropicália com alguns dos nossos ídolos desfilando na telona com aquela trilha sonora tão prazerosa e familiar. O diretor foi muito feliz em deixar as imagens falarem por si com os relatos em off. Um despropósito aquela sala quase vazia... O filme deveria ser matéria obrigatória nas escolas. Já pensou? Hoje aula de Tropicália. Assunto: Liberdade de criação – Subversão – Utopia – Rebeldia - Criatividade.- Isso é que é utopia heim? A despeito do meu privilégio de ter uma sala de cinema exclusiva valia um ônibus escolar na porta do Shopping desovando a criançada para ver e saber ao menos superficialmente algo sobre Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Mautner, Torquato Neto, Hélio Oiticica, Maria Bhetania, Gal, Mutantes, Tom Zé, Rogério Sganzerla, Glauber Rocha & Cia.

Também está ali um libelo contra a mesmice de um ditadura acachapante de um período sombrio da nossa estória de familiares omissos e medrosos. Outrossim e apenas finalizando está ali uma pequena aula contra o conformismo muito apropriada para as novas gerações e essa moçada que fica por aí perdendo tempo com joguinhos de computador, boliche, novela, restart, nx zero.... e que não sabem sequer que um dia existiu um festival de Wigth. Será que tem Mutantes no Guitar Hero? E o assassinato do estudante Edson Luís será que essa moçada dourada e sarada sabe do que se trata?
Pois é...valia aquela gritaria, chicletes voando...neguinho sentado no chão, piadinhas....namoricos e outras interações e interferências para encher o saco deste quase velho triste naquela sala de cinema quase vazia.... Já não se fazem matinês e avant-premières como antigamente.... Vou levar meu filho de nove anos para ver o filme. É claro se eu conseguir tirar ele por algum tempo do minecraft. Missão quase impossível.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Desconstruindo Bukowski (monólogo em dois atos)

Numa pequena sala de aula com um espelho uma velha poltrona, algumas cadeiras de aula quebradas, um café, cafeteira velha, bolacha cream cracker e um copo com água, Chinaski começa a falar para si e para o vento com tom de desprezo. delírio e ressaca.(ao fundo a música “The end” do The Doors bem baixinho – versão instrumental ou repetição reiterada do solo ou qualquer música melancólica do Tom Waits ou Johnny Cash ).


Começa então o monólogo – entra CHYNASKI falando:
1º. ATO

- Compromisso enfadonho, medonho, camarim improvisado, fudido mesmo!, faculdade interiorana, sem grana, implorando para os céus, para o meu “cicerone” afrescalhado lembrar que o palestrante em questão sou eu... “HENRY CHYNASKI”;e que com café fraco e bolacha cream cracker a palestra simplesmente não vai rolar, não, não, não vai rolar legal. Diria até impossível. Improvável....E as dez horas da manhã? Quem foi o infeliz que marcou essa porra! Deve ter sido o cicerone bichinha. O que me leva a divagar, devagar...agora tudo é devagar...(a idade é foda): O que eu não faço por 100 pilas, um quarto de hotel barato e um bom rabo!

(olhando para o lado do palco)

“- O meu amigo, cumpâdi, meu irmão, meu chegado, sabe que fui com a tua cara? Tem como mandar aqui um uísque, um conhaque, que seja um bourbom barato, álcool 90, gasolina, etanol ou mesmo um vidro de perfume qualquer?

(volta a falar sozinho)
“É este o problema com a bebida.. Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom,bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconteça qualquer coisa”

Fico aqui nesse desacontecimento profundo....melancolia profunda...com uma sede do caralho e uma “melancia na bunda”.
Agora tenho que falar com esses “estudantes de literatura”...que porra é essa!? Literatura não se aprende nessa merda de catedral gótica e fria do inferno! Escritor que é escritor tem que levar é MUITA PORRADA MESMO pra ver se aprende sobre a vida sobre a morte, azar, sorte. A merda desta vida não é para amadores não...não... Tem que levar porrada desde criança. Sentir o desprezo de seus pares... ou seriam os ímpares? Nunca achei um ser vivente capaz de apaziguar a minha dor nessa terra de ninguém. Nenhum que chegasse perto da minha “genialidade” que seja, vá lá(modéstia é para os fracos).... Graças aos céus!!! Um Chinaski só já é demais. Mas não estou nem aí não! NÃO! Nunca precisei de amor....compaixão...gratidão....isso é para suburbanos que não podem ouvir a palavra CÚ.

Já fui casado, amigado, juntado com toda a fauna e flora do mundo, até flertei com o amor e paixão com aquela louca linda que enfiava espetos pelo corpo todo e foi embora para sempre. Como era o nome dela mesmo? Mas definitivamente não me venha falar de amor. Fora! Fora! FORA!!!!!! “O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece”.

Aliás que vontade de subir naquele palco agora e mandar todo mundo tomar no cú. Virar para a estudante mais gostosinha e tentadora e falar de forma bem lasciva. “– ô gostosa? Sabia que você é um tesão?, larga de perder tempo e vem aqui me dar esse seu cuzinho agora mesmo que eu vou te ensinar o que é literatura na prática. A litera dura. O “segredo” jamais revelado Ah Ah Ah!!!!! E sem vaselina heim? Ah Ah Ah você vai adorar sua puta!” Antigamente eu era capaz dessas coisas e as pessoas ficavam chocadas! Antigamente eu até me fingia de nazista para ver a reação óbvia do lugar comum. Hoje só faz parte do meu show de velho escritor decrépito. “O velho safado”.Tudo é “showbuzzines”, celebridades....Bem provável que depois que eu morrer esses filhos-da-puta mandem colocar uma estátua em minha homenagem em praça pública. Já estou até vendo os meus cacarecos expostos na Livraria Harlington.;vão estudar as minhas merdas e meu “delirium tremens” em universidades.Falsos...hipócritas....vendidos.

Hoje infelizmente é isso: 100 pilas e a seco. AGUA E CREAM CRACKER! é isso que estou valendo! Ainda se fosse um pãozinho com mortadela... E tenho que suar muita cerveja velha e barata pra subir naquela merda agora e “entreter” esse bando de boçais para pagar o aluguel do fim do mês.Boçais tá sabendo. “Tá ligado manoooo!.” Boçais. Todos uns boçais.

Tempos atrás casei com uma caipira/interiorana/rica/boçal e ninfomaníaca só de sacanagem.....é....todo mundo achava que eu queria a grana dela. Mas na verdade eu só queria tirar uma onda ...é....também sou filho de Deus...(esse filho-da-puta). Só que por óbvio também não deu certo. Ela também não agüentou o tranco. Tinha estomago fraco.

De sacanagem uma vez comecei uma conversa nonsense com a vadia:

“O que há de errado com os cus baby? Você tem um cu, eu tenho um cu, você vai ao mercado e compra um pedaço de filé, que é parte de algo que um dia teve um cu! Os cús cobrem a terra! De certa forma até as árvores têm cus, mas a gente não os vê, elas apenas deixam cair as folhas, seu cu, meu cu, o mundo está cheio de bilhões de cus, o presidente tem um cu, o garoto que lava os carros tem um cu, o juiz o assasino têm cus...até o alfinete roxo tem um cu!”

É não é que a suburbana vomitou? Não agüentou o tranco. Estômago fraco. Vadia.

(...pausa – olhar perdido – sério)

Lembro quando meu pai me batia e eu engolia a seco. Não derramava uma lágrima para aquele desgraçado. Não...não...nunca derramei lágrima para ninguém. Depois, vieram as espinhas, a feiúra e comecei a arrumar emprego a torto e direito para me “enquadrar” só para conseguir comer mulher. Um vendido. Um fingido. E era massacrado pelo sistema, pelos estúpidos...pelos capatazes...pelos encarregados.... ados...ados...ados VIADOS. Trabalhei em matadouros, correios e até para a Cruz Vermelha. Se arrependimento matasse.... “Que tempos penosos foram aqueles: ter a vontade e a necessidade de viver mas não a habilidade” Se bem que esse negócio de arrependimento é coisa de boiola não é? Ou não? É? E para extravasar um pouco ia para casa beber bebida barata. E para agüentar a benga entrando e o exame de próstata nosso de cada dia passei grande parte da minha vida emendando uma ressaca com uma bebedeira, com uma porrada, com uma ressaca, com uma bebedeira, com uma porrada....e por aí fui...até aqui... agora... nesse camarim fudido. Como é que eu ainda achei tempo para escrever esse monte de asneiras? Trinta e tantos livros muitos deles de poesia....loucura pouca é bobagem mesmo.

Bobagem? Quantas vezes não flertei com o suicídio em quartinhos minúsculos com venezianas fechadas. Quem mandou nascer na estrada na contramão, numa estrada infernal cheia de caminhões? Esse é meu problema. Nasci na época errada. Pacifista enquanto todo mundo era belicista, da contracultura enquanto nem sequer existia a palavra contracultura. O “underground” sozinho levantando a bandeira do fracasso enquanto todos almejam e almejavam o “sucesso” a qualquer preço. Sucesso? Que porra é essa?

Nos primórdios, subindo a rua numa noite chuvosa e fria me deparei com um mendigo sujo, cabelos enormes e desgrenhados enrolado em um cobertor grosso, felpudo, xadrez e fumando um baseado. Seus olhos eram azuis. Foi quando eu vi o que eu queria ser, o que eu queria ser...pelo resto da minha vida. Um vagabundo andarilho. Então comecei a escrever uma vez que esse era o caminho mais fácil para alcançar o meu intento. Quem ia querer ler um cara fudido como eu? E não é que hoje essas criançinhas aí fora gostam???? As gostosinhas que na hora “h” não querem me dar? E se eu vomitar em público daqui a pouco é bem provável que eu até seja ovacionado... Vai entender o ser humano(???);

Aliás nunca me considerei um ser humano. Nunca! Nunca quis participar de festinhas...confraternizações....”estar com meus pares”...ou seriam ímpares? Sempre gostei de beber sozinho, escrever sozinho, tudo sozinho... “Não, eu não odeio as pessoas. Só prefiro quando elas não estão por perto.”

E certa feita fiquei cinco anos sem sexo, só na punheta..., no mano a mano, na masturbação.....para não ter que implorar uma bocetinha qualquer, um cuzinho que seja. Isso seria se rebaixar de mais até mesmo para um cara fudido e feio como eu. E não é que quase enlouqueci? Loucura? Quem é louco aqui heim... heim... heim?

E então cheguei a inelutável conclusão: A única coisa que não dispenso nessa vida, como já disse é um bom rabo. Não tem como dispensar. Aliás acho que escrevo só para isso. Pra não ficar pensando em rabos o dia inteiro, ou talvez para teorizar os rabos que passam na minha mente, nas ruas, nos pontos de ônibus. No cú do judas. Quantos ônibus sem destino eu peguei para simplesmente prolongar o contato visual com tão adoráveis e tentadoras criaturas. O perfume natural... A mulher é a maior invenção do criador.
Esse criador filho-da-puta. Arregão! Uma vez eu chamei ele pro pau e ele não veio. Covarde! Fica aí escondido nas suas nuvens colocando essas gostosas para me tirarem do prumo porra! Deus é o caralho!

Nossa...quase ia me esquecendo dos cavalinhos...ahhh,.depois das mulheres a melhor coisa que o criador colocou na minha vida foram os cavalos de corrida. Principalmente os azarões que pagam 9 por 1 . Principalmente nos dias de sorte que não foram poucos....Aliás, melhor dizendo, sorte é para principiante não é?. Eu sei o que é ser um azarão vencedor. Basta olhar os dentes OS DENTES. Jóquei nenhum é capaz de estragar um animal e sua sina de animal, azarão e vencedor. LIVRE, LIVRE porém SEMPRE com um idiota baixinho e desprezível nas costas SEMPRE, diga-se. Vivemos, corremos e morremos e é só. E não há nenhuma glória nisso. E essas criançinhas ficam aí “teorizando” “esquematizando” “escrevendo teses” que nunca serão lidas, fazendo “oficinas”, indo à palestras.... Que vontade de falar para elas com todo o meu desdém: “Sinta mais. Pense menos”.

Uma vez me perguntaram o que era necessário para se tornar um grande escritor. Falei para o imbecil que ele deveria sair, ir para o hipódromo tomar uma cerveja e passar uma tarde apostando nas corridas. O filha-da-puta achou que era brincadeira! E não era. Nunca esses idiotas vão me entender. NUNCA.

Ahhhh....esses infelizes “jovens” querem conselho? Querem? Então toma lá, vamos ao ensaio:(com sarcasmo ensaiando a palestra) Você que é jovem e gosta de litera dura, digo, “literatura” - “Vá para o Tibet. Monte um camelo. Leia a bíblia. Pinte seus sapatos de azul. Deixe a barba crescer. De a volta ao mundo numa canoa de papel. Assine um jornal. Mastigue apenas com o lado esquerdo da boca. Case-se com uma perneta e se barbeie com uma navalha. E entalhe o seu nome no braço dela. Escove os dentes com gasolina. Durma o dia inteiro e suba em árvores à noite. Seja um monge e beba chumbo grosso e cerveja. Mantenha sua cabeça dentro d’agua e toque violino. Faça uma dança do ventre diante de velas cor-de-rosa. Mate seu cachorro. Concorra à prefeitura. Viva num barril. Rompa sua cabeça com uma machadinha. Plante tulipas sob a chuva. Mas não escreva poesia.”

Se alguém tivesse me dado esse conselho minha vida teria sido outra....agora é tarde! Agora fudeu de verde e amarelo!

E essa bichona que não me traz a bebida?...daqui a pouco vou começar a tremer....e quando isso acontece não respondo por mim. Sou bem capaz de virar as costas e simplesmente sumir nessa porra de cidade que sequer lembro o nome. Ai Meu Deus filho-da-puta lá se vão as 100 pilas do aluguel...

Não sei quanto às outra pessoas, mas quando me abaixo pra colocar os sapatos de manhã,penso,Deus filho-da-puta, o que mais agora ?”

Nomes? Nomes? O que são nomes senão uma imposição de alguém que pensa que entende o que ninguém entende e nunca vai entender!? Um sonho estético e patético de uma vida sob controle. Apropriação indébita. A vida inteira tentando fugir de imposições mas não consigo me livrar delas.(???) Virei um nome. Um totem. Um consolo gigante. Com o passar dos anos o pinto vai caindo, caindo, caindo e o nome vai subindo, subindo, subindo....como uma pipa. Sequer sou gente em carne e osso. Um Dostoievski, um Whitmam qualquer.... Um nome “para a posteridade”. “Chinaski O bêbado, louco e safado que escreve sobre a própria vida de merda”.

E como fico puto quando alguém me chama de “beatinique”. Beatinique o caralho bando de maricas pagando pau para um Buda mole filho-da-puta!!!!! “Preciso mais do que colares hippies, uma barba, um turbante indiano e maconha legalizada” Meu negócio é Mhaler...Brahms.... buceta! MUITA BUCETA!!!!

E por falar em buceta cadê o álcool Meu Deus? Você está sempre de brincadeira heim? Filho-da-puta!!!!! Sai daí...saí daí...vem....covarde....COVARDE. (levanta-se com gestual de luta olhando para o alto)

Cicerone entra e fala(ou voz em off) Ou o próprio Deus em off: -Chinaski entra....entra agora...a platéia está ávida pelos seus ensinamentos

Apaga a luz – o cenário muda agora é um banquinho e um microfone e uma mesa. Começa o

2º. ATO

Entra Chinaski ovacionado: ao terminar os aplausos, com cara de contrariado Chinaski fala desanimado

- Bom dia! (mais aplausos – pode ser uma gravação de aplausos)

(Chinaski então vomita homericamente ) deitando-se no chão e contorcendo-se (platéia Ohhh!!!!!!!)

Levanta-se todo sujo e acabado (silêncio) Olha por longo tempo para os olhos de todos(na platéia) de forma embasbacada e finalmente diz:

“-Cheguei numa fase da minha vida que vejo que a única coisa que fiz até agora foi fugir, fugir de mim mesmo, do meu nada, e agora não tenho mais para onde ir, nem sei o que vou fazer, fui péssimo em tudo” (silêncio).......

(A peça pode acabar aqui como uma incógnita ou continuar com o personagem vestindo novamente o personagem com o diálogo abaixo)

- e você aí na última fileira...tá olhando o quê babaca! Vai encarar? Aliás e aproveitando o ensejo porque Vossas Senhorias não vão tomar nos seus digníssimos cús, bando de filhos-da-puta!!!! Não têm nada melhor para fazer não?

(derruba o microfone e o banquinho a mesa, abaixa as calças mostra a bunda ONDE ESTÁ ESCRITO FUCK YOU , rebola, vira e saí de cena).

(APLAUSOS EFUSIVOS – FOGOS DE ARTIFÍCIO – HINO DOS ESTADOS UNIDOS)

FIM.

Luiz Tinoco Cabral 11/06/12

* os apartes em itálico, negrito entre aspas concomitantemente são frases de autoria de Charles Bukowski e extraídas de seus vários livros. (seria legal um efeito cênico para pautar a peça e ressaltar as citações do restante do texto)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

confabulando - a cobra e o velho


Tem uma estória que é mais ou menos assim:

A cobra e o velho

Lá vinha a cobra sincera, desprendida, inteligente e desapegada andando pela rua quando deparou-se com um velho safado, sujo, escorregadio, feio e venenoso pedindo esmolas.

- A senhora cobra não teria um “reá” aí pra eu tomar uma cachaça? Tô com uma sede infernal;

- Ora meu bom senhor, tome água. A cachaça além de fazer mal para o seu fígado não vai saciar a sua sede já que o álcool desidrata o organismo.

- Então me dá um “reá” aí pra eu comer pão. Tô com uma fome du caralho!

- Prezado Senhor, um pão não possui nutrientes suficientes para saciar a sua fome. O Sr. deveria sim tomar água e comer carne. Carne sim lhe faria bem nesse seu estado deplorável.

Então o velho, safado sujo, escorregadio, feio e venenoso sem qualquer consideração puxou uma pistola que estava no seu bolso traseiro deu um tiro e matou a cobra sincera, desprendida, inteligente e desapegada levando-a para sua morada embaixo de um viaduto, comendo-a posteriormente e deliciando-se com aquela carne tão tenra e nobre.

Moral da estória: em tempos de canibalismo quando o velho mendigo tem, sede, fome e uma pistola a cobra vira a própria esmola.

Tem outra estória que é mais ou menos assim:

O velho e a cobra:

Lá vinha o velho safado, sujo, escorregadio, feio e venenoso andando pela mata quando passou ao seu lado rastejando pela terra uma cobra sincera, desprendida, inteligente e desapegada. A cobra ao ver o velho falou:

- Por favor não me mate com o seu cajado, posso lhe guiar pela mata, lhe mostrar as belezas da região, locais com muita comida, água potável, flores em abundância, pássaros exóticos, plantações de canabbis a perder de vista e então lhe apresentar os Deuses da floresta e suas fadas e elfos iluminados que lhe trarão paz de espírito e prosperidade.

Então o velho safado sujo, escorregadio, feio e venenoso pegou seu cajado e com um só golpe certeiro esmagou a cabeça da cobra sincera, desprendida, inteligente e desapegada.

Moral da estória: A cobra se fudeu de novo!!

terça-feira, 10 de julho de 2012

Na arte contemporânea vale tudo (ou quase?)


Cauê e Tinoco no IFF

Semana passada tivemos uma overdose de arte contemporânea no instrutivo e ilustrado curso ministrado pelo doutor, filósofo, professor e curador Cauê Alves no Instituto Figueiredo Ferraz de Ribeirão Preto. (vide foto acima)
Iniciamos pelo estudo de Greenberg intitulado “auto-consciência da arte” passando por todos os “ismos” e artistas relevantes até chegar ao fim da história da arte no estudo de Arthur C. Danto (pós-histórico).
No Brasil passamos pelo movimento Ruptura 1952 que visava claramente romper com os modernistas clássicos, com uma base do movimento concreto, neo-concreto, Tropicália, casa 7, Galerias etc. até chegar no pós-histórico “dantosco” brasileiro dos dias atuais e um olhar mais aprofundado sobre a novíssima geração que com certo alívio não necessita mais contrapor-se a ninguém.
E o que ficou pelo menos para mim sobre a arte contemporânea atual conceitualmente falando é que o romantismo “já era”. É o fim da utopia. A arte não é mais estilo é IDÉIA acima de tudo. Pode-se fazer tudo e qualquer coisa inclusive utilizar-se do passado que está aí disponível. Vale mais o não pensado que está no interior da obra de arte. A arte é heterogênea, plural e ocupa várias e inimagináveis dimensões. Não é necessário uma base sólida mas uma vaga idéia de liberdade. Vamos provocar o estranhamento, a interrogação, fugir do banal, “se perder” .... “Viver ultrapassa todo entendimento” já dizia Clarice Lispector.
E é com esse olhar que temos que fazer e enxergar a obra de arte, sem buscar somente e tão somente o entendimento. O olhar como exercício de liberdade e subjetivismo de nossa experiência, nossa vivência própria, exclusiva e única com a obra, com o mundo....
Resta saber se toda essa liberdade vai levar as artes para um novo patamar criativo ou ao contrário para um esgotamento angustiante. O pós-histórico vai dizer, ou quem sabe o pós-pós-histórico.
E digo que todos esses conceitos são auto-aplicáveis a literatura contemporânea que não está alheia a esta movimentação libertária sempre e incansavelmente em busca do novo. A comunicação entre os diversos segmentos artísticos é muito salutar e necessária. A ampla liberdade então nem se fala. Arte/poesia, inutilidade/necessidade essa eterna ambigüidade que nos faz calçar os sapatos pela manhã.
Particularmente e concluindo o momento histórico é bem interessante, basta conhecer e aproveitar.
E nessa de liberdade total só para ilustrar, descontrair ou avacalhar (como queira) termino este texto citando o narrador esportivo Milton Leite: “QUE BELEZA!”

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Por que os elefantes têm tromba?





Segundo a mitologia hindu, os primeiros elefantes do mundo possuíam asas e brincavam com as nuvens. Mas um dia, um grupo de elefantes pousou nos galhos de uma árvore debaixo da qual um santo asceta transava com uma linda prostituta indiana. Os galhos não suportaram o peso dos elefantes e com a inevitável queda o santo conseguiu salvar-se pulando para o lado mas os paquidermes mataram a linda prostituta indiana instantaneamente. O santo homem ficou tão puto que pediu aos deuses que tirassem as asas dos elefantes. Dito e feito. Os deuses tiraram as asas dos elefantes. Desde então eles que eram seres alegres, livres e brincalhões passaram a trabalhar pesado em circos, zoológicos e filmes de Bollywood. Com isso foram ficando carrancudos, macambúzios e zangados e  no lugar das asas criaram uma extensão nasal cilíndrica e comprida chamada “tromba” que serve para externar a insatisfação do maior dos animais terrestres contra os seres humanos e os deuses, bem como para cutucar os ânus de santos ascetas avaros que transam ao ar livre debaixo de árvores só pra não pagar motel!