segunda-feira, 16 de março de 2009

Scliar....


Acredito, sim, em inspiração, não como uma coisa que vem de fora, que "baixa" no escritor, mas simplesmente como o resultado de uma peculiar introspecção que permite ao escritor acessar histórias que já se encontram em embrião no seu próprio inconsciente e que costumam aparecer sob outras formas — o sonho, por exemplo. Mas só inspiração não é suficiente".



Palestra do Moacyr Scliar no ano passado na Feira do livro. Este cidadão simpático, porto-alegrense, que conheci pela primeira vez no âmbito literário em 1992, lendo "Sonhos Tropicais" uma visão romanceada da vida de Oswaldo Cruz.
Bem o cara já escreveu muito....e é membro da Academia Brasileira de Letras, por conseguinte dispensa comentários.
O que queria dizer é que a palestra de graça no Auditório Meira Jr. no Salão de Idéias foi, digamos, uma delícia.
Delícia porque entre tantos escritores ascendentes e sem dentes, Scliar é uma jóia rara de inteligência.
Começa a palestra declinando uma máxima óbvia que o domínio da técnica literária só se adquire lendo e é muito diferente da narrativa oral, gênero que era dominado por seu pai(marceneiro), grande contador de histórias e que junto com a sua mãe(professora) despertou o interesse do filhão pela literatura.
Depois nos fala que foi ser médico por "medo de doença", mas não medo de ficar doente, mas pela impotência perante ela. Isso, o estudar medicina e tornar-se médico, de certa forma apaziguou tal sentimento. Scliar até hoje desenvolve as duas atividades.
Conta a estória das "mães alimentadoras" que sua mãe era obcecada em dar comida aos filhos a ponto de correr atrás do escritor com um prato de sopa pelas ruas. Seu irmão não comia nada e intrigada com o fato do mesmo permanecer vivo resolveu investigar. Descobriu que a despeito de não se alimentar em casa, ele se alimentava numa construção ao lado junto com operários que lhe cediam comida. Foi feito o pacto operário muito antes de Lula. Ela passou a fornecer comida para os operários com a condição deles repassarem comida para seu filho. (cada uma!!!!)
Mudando totalmente de assunto contou que Willian Faulkner, escritor americano dizia que se necessário mataria a mãe para escrever uma boa estória e que qualquer boa estória vale mais que um grupo de velhinhas que de certa forma poderiam ser exterminadas. Ao contrário Scliar defende a ética do escritor na escolha de temas etc.
Contou ainda que certa feita o escritor supra (Faulkner) veio para o Brasil num encontro literário e após quatro dias tomando todas perguntou para sua anfitriã: "o que é que eu estou fazendo em Chicago?" eh! eh! eh!
Criticou o sistema imposto aos escritores para escreverem em jornais. Tudo se resume a espaço tempo e brincou que com a aproximação da "Dead Line" o escritor acaba encontrando a fugidia inspiração.
Elogiou Frans Kafka, e seu grande poder de sintese, que foi o primeiro escritor que presentiu o nazismo e o stalinismo e escreveu sobre o assunto e que Kafka, Prouts e Joyce mudaram/transformaram a literatura do Século XX.
Lembrou de Osman Lins que por ser pouco acessível passou desapercebido pelo mundo, fato que ocorre com alguns grandes escritores. Contou que uma vez na Feira do Livro de Porto Alegre compareceu numa sessão de autógrafos do escritor e que só tinha duas pessoas. Ele e uma professora de literatura.
Defendeu ainda Dalton Trevisan salientando que a crítica é ruim quando diz "MAIS UM LIVRO DE DALTON TREVISAN" como se ele não acrescentasse algo de novo em sua obra. Vislumbra nas entrelinhas a evolução do escritor que apenas aprimora a cada ano o mesmo tema e sua forma de narrativa que não se preocupa com nomes, ambientações etc, mas resume o algo mais, o substancial do texto.
Quanto a reforma ortográfica foi enfático. A mudança que está aí não vai desencadear nada de bom e que a língua portuguesa deveria sofrer uma mudança drástica, inclusive acabando com a crase. Brincou que a crase foi criada apenas para humilhar as pessoas que nunca sabem quando aplicá-la.
Referindo-se à escrita utilizada pela moçada na internet, deixou seu ponto de vista: "estão escrevendo. Já está ótimo" e que tais novidades só enriquecem a língua, por pior que à primeira vista possam parecer. (o escritor é a favor do anglicismo)
Quanto à opinião de Ligia Fagundes Telles de que o Brasil tem escritores demais, discordou: O Brasil não tem tantos escritores e à escrita tem que estar ao alcance de todos, como forma de expressão de emoções, de sentimentos e quanto mais pessoas escrevendo melhor, jã que assim como escritores passam e morrem sem deixar vestígios o destino de um texto literário é muito incerto e se apresenta com estranhos mecanismos de absorção. (citou Dom Quixote de Cervantes e a despretensão do escritor ao escrever uma das maiores obras literárias da Humanidade).
Concluindo: AULA DE CULTURA - uma hora foi pouco!
No final ainda fui brindado com uma dedicatória no livro "Um sonho no caroço do abacate" - "para tinoco, leitor culto, abraço do Moacyr" - disse que o livro é uma das histórias de imigrantes que escutou em sua infância.
Obrigado! Valeu!!!

terça-feira, 10 de março de 2009

Claudio Cunha rapaz família

Cláudio Cunha à direita no filme "Oh Rebuceteio!"


No ano passado, passei o feriado de Finados no Grande Hotel Aguas de São Pedro. No primeiro dia encontrei na piscina do hotel um senhor recatado, com sua jovem esposa, brincando com suas filhas. Um bom pai - pensei - uma esposa jovem - também pensei.(o ser humano as vezes pensa mais do que o necessário!).
A noite o hotel oferecia em seu imponente teatro uma peça para os hóspedes: "O Analista de Bagé - e o filho Gay" Cláudio Cunha e Cia.
Por óbvio(e depois de toda esta introdução) lá estava o senhor recatado, rapaz família, bom pai...vestindo bonbacha, chimarrão em punho contando às piadas mais cabeludas do planeta e dando aqueles conselhos mais absurdos, para analista nenhum botar defeito(ou botar defeito. Depende do senso de humor!).
A peça é altamente, digamos...convencional. Foge quase completamente do texto de Luiz Fernando Veríssimo - só sobrou o joelhaço.
Cláudio Cunha e sua peça estão no livro dos recordes como o espetáculo de maior longevidade com o mesmo protagonista e ator.
Ante este fato ele nos passa a impressão de total domínio do tema e do personagem, brincadeira pura e simples com a arte teatral, entretenimento sem maiores pretensões ou consequências.
Como dito acima a despretensão é total, e a peça depende todo o tempo do carisma e competência de Cláudio Cunha, já que o restante do elenco é...como poderia dizer educadamente: sofrível!
No final da peça fui falar com o Ator, afinal já dizia o meu amigo Leandro Francói que sou um "tímido cara-de-pau". Comecei com uma gafe, já que sou fã de carteirinha do filme "Oh Rebuceteio!"(1984), um dos únicos pornôs brasileiros com inteligência e humor, bem acima da média e de autoria e direção de Cláudio Cunha(vide foto acima).
O ator agradeceu a lembrança meio sem graça e depois fiquei sabendo que ele de certa forma renega o filme que o estigmatizou como "diretor de filmes pornô".
Certa feita no programa Jô Soares foi recebido assim pelo Gordo: "-Vamos receber o ex-seminarista que tornou-se diretor de filme pornô".
Cláudio Cunha ficou puto, já que tem uma cinematografia de respeito e este Oh! Rebuceteio! foi o único pornográfico na acepção correta do termo com cenas de sexo explícito. Antes disso o diretor já tinha toda uma trajetória no cinema erótico com filmes como "Amada Amante" "O gosto do pecado" dentre outros.
Mas...pensando bem...fazer o quê né Claudião!? Afinal quem deita na cama cria fama mesmo e sem querer ser moralista...e já sendo(está é do Gordo!), não deveria renegar aquele que é um de seus melhores filmes que inclusive recebeu críticas de peso como a que transcrevo: "O grande cuidado artesanal torna o sexo agradável de ser assistido, mesmo pelo espectador que não esteja minimamente interessado em voyeurismo. E os diálogos são claros, engraçados e fazem pensar além da história narrada.(...) Repleto de meta-linguagem, espécie de “A Chorus Line” sem vergonha, “Oh! Rebuceteio” nos remete a todas aquelas histórias que ouvimos desde a infância sobre a liberdade sexual no meio artístico, notadamente no teatral. É este o mote para o semi-exploitation de Cunha: uma peça, um diretor com idéias de psicanálise reichiana e um elenco de jovens entre 20-25 anos ávidos pela fama". Andréa Ormond
No dia seguinte lá estava novamente "o devasso" , brincando calmamente com sua filha no "mini-clube" do Hotel, ensinando-á a desenhar; sua jovem esposa participou do futebolzinho à tarde entre os hóspedes. Jogou no Gol.
E findou-se o feriado de finados. Vivas aos mortos vivos!!!!!!!!!!!

Tristessa de quem não leu



Mais um livro de Jack Kerouac, uma ode ao amor por uma “junkie” decaída chamada Tristessa; uma mexicana índia com olhar de Madona viciada em morfina. Entre tremores, bebedeiras, quebradeiras, num México perdido em cidades distantes de qualquer mundo urbano, conversando com galinhas, porcos e animais domésticos diversos, em busca de um pico, de uma cama....a espera da morte.
Na verdade neste livro somos obrigados a perceber que Jack Kerouac na verdade não era muito normal mesmo. Sua prosa espontânea e sua técnica de “fluxo de consciência” nos mostra toda sua loucura. Parece em determinados momentos que estamos conversando com um daqueles americanos cabeludos, cheios de cartazes coloridos que anunciam o fim do mundo e/ou a invasão da terra por ovnis e alienígenas.
O livro todo é um poema: “nunca é suave o chuviscar que não perturbou a calma”
Num País distante, num México inexistente: “os xales azul-claros das mulheres, os xales roxo-escuros, os lábios das pessoas levemente rosados em meio ao azul geral do alvorecer”
Escrito por um louco chamado Jack Kerouac que na sua juventude foi afastado da marinha por “razões psiquiátricas” . O livro é baseado em episódio de sua própria vida; quando perambulou pelo México com o amigo Allen Ginsberg e teve um caso com uma índia chamada Esperanza.
Agora não consigo entender como um cara que teve o budismo como bandeira e escreveu “On the road”, resolveu no fim da vida apoiar a Guerra do Vietnã e criticar os hippies.(???)
Porém que se dane a política e “de médico e de louco todo mundo tem um pouco”. Afinal quem nesse mundo é totalmente coerente??? Quem não teve vontade de flertar um pouco com o imponderável?
Fico com minha devoção aos beats, Allen Ginsberg e Jack Kerouac – que nos brindam com constância com parágrafos “loucos” como este:
"Vou acender velas para a Madona, vou pintar a Madona e comer sorvete, anfetamina e pão – “Maconha com carne de porco”, como disse Bhikku Booboo – Vou para o sul da Sicília no inverno e pintar lembranças de Arles – Vou comprar um piano e me mozartear – vou escrever histórias tristes e compridas sobre pessoas na lenda de minha vida – Este é meu papel no filme, vamos ouvir o seu.”
Isto é apenas... literatura.

domingo, 1 de março de 2009

A morte e a morte de Quincas Berro D'água


Por coincidência estive em um Velório hoje. Enquanto o coveiro desempenhava seu mister, fiquei observando os contratastes entre a triste situação da morte e o dia lindo e ensolarado. Ao fundo podia-se ouvir os sons de uma festa infantil com muita música. Mais ao fundo ouvia-se uma partida de futebol. Duas crianças imundas trocavam figurinhas encostadas em um túmulo alheio. Duas senhoras em tom jocoso, discutiam qual delas seria a próxima vítima.
Enfim, todo velório tem um pouco de insólito, e é desse universo que Jorge Amado se apropria com o humor que lhe é peculiar para criticar a burguesia, a hipocrisia e exaltar, pasmem, A VIDA.
Com um tom realista fantástico a la Garcia Marques, esse pequeno conto é considerado por vários críticos como uma pequena obra-prima.
Acompanhamos a vida de Joaquim Soares da Cunha, pacato cidadão, homem probo e sua súbita transformação nos dez últimos anos de existência em Quincas Berro Dágua, bêbado errante, maltrapilho,rei da marginália e das putas e vagabundos de plantão no Pelourinho.
Morreu feliz na vagabundagem, mas os parentes o obrigaram a vestir terno e gravata no caixão e cumprir os rituais fúnebres, as exéquias.
Tudo em vão. A rebeldia de um sorriso sarcástico prevaleceu. Num momento de total desprezo e descuido dos parentes, na calada da noite, seus verdadeiros amigos começam a desnudar o cadáver, levando-o ao verdadeiro cerimonial, ao cerimonial da alegria baiana, um morte feliz, bebendo cachaça ao lado de sua amante, perambulando pelas ladeiras e sendo "enterrado" no mar.
Segundo um trovador do Mercado, passou-se assim:
"No meio da confusão
ouviu-se Quincas dizer:
"- Me enterro como entender
na hora que resolver.
Podem guardar seu caixão
pra melhor ocasião.
Não vou deixar me prender em cova rasa no chão"
E foi impossível saber
o resto de sua oração" J.A. Rio, abril de 1959
Concluindo. Fico sem palavras! Simples como a vida deveria ser(e a morte também), fruto da sabedoria popular e em decorrência fantástico! Grande sacada!
Vou dormir melhor essa noite. São os raros momentos únicos...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Scott Turow amigo de fé


Falar de Scott Turow é falar um pouco de um amigo muito próximo, embora não o conheça e sequer tenha a possibilidade remota de conhecê-lo pessoalmente. Scott Turow é aquele exemplo de pessoa bem sucedida . Advogado brilhante, formado em Harvard; além de advogado é um escritor de thrillers jurídicos de grande apelo comercial vendidos no mundo inteiro.
Mas para falar de Scott temos que lembrar de seu primeiro livro que não é um romance, mas uma breve autobiografia que relata um ano crucial em sua vida. O primeiro ano na Faculdade de Harvard. Ali temos a razão da pessoa bem sucedida. O esforço pessoal sem esquecer a ética, que aliás nunca é esquecida em seus livros. São os dilemas éticos dos operadores e estudantes do direito.
Depois disso veio o sucesso retumbante de “Acima de qualquer suspeita” e outros bons livros que culminaram no atual “Os limites da lei”, onde sempre somos obrigados a olhar para nós mesmos, na nossa conduta como advogados , membros do poder judiciário, Juízes e seres humanos em sentido amplo. A ética nunca dissociada da profissão e das relações humanas em geral.
Muitos podem falar que Scott escreve roteiros fáceis para cinema. É verdade...o aspecto comercial está sempre lá, na ânsia de entreter com boas histórias do mundo jurídico e com um tema que cai como uma luva para o público americano(principalmente) que adora as peripécias do “mundo legal”. Porém se o leitor pinçar melhor poderá ver um interesse maior nas entrelinhas...É só isso que gostaria de ressaltar de um amigo muito próximo. Afinal de contas “amigo é para essas coisas” e Scott foi algumas vezes crucial para não me afastar do direito, não me deixar levar pelo desânimo profundo que as instituições jurídicas e situações profissionais as vezes me causam. Scott Turow é pura paixão pelo direito apaixonante, o direito ético, o direito bonito dos livros e não o direito da realidade tacanha, precária e mesquinha que muitas vezes nos cerca.
Valeu my friend!!!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Arthur Schopenhauer


O que dizer de mais um livro de Irvin D. Yalom, “A Cura de Schopenhauer?
Primeiramente fico bem a vontade porque ninguém. Ninguém lê este Blog! Aliás ninguém lê quase nada a não ser aquilo que interessa para ganhar dinheiro ou coisa que o valha! Pessimista eu? Então conheça o personagem principal deste livro para saber o que é um cara pessimista. Um cara que simplesmente desiste da convivência humana considerando que esta convivência no sentido pleno de engrandecimento do ser humano é inviável. Vários filósofos beberam nessa concepção. Talvez os mais famosos sejam Nietsche e Schopenhauer. É verdade. Porém traídos por este estilo de vida enlouqueceram ou passaram a maior parte da vida como loucos marginais. Será que estou ficando assim? Não....ainda tenho um lastro de convivência humana, embora não suporte mais ir ao campo, shopping, clube, igreja....
Mas...voltemos ao livro – Tudo se passa com um psicanalista, Hertzfeld, que tem como base de seu trabalho a terapia em grupo. Num estágio de doença terminal(Câncer) , num balanço/acerto de contas final, resolve ir atrás de seus pacientes mais problemáticos, aqueles em que o tratamento não surtiu efeito. No início desta busca encontra o seu maior fracasso; Philip, uma pessoa totalmente mudada e isolada com base nas idéias de Schopenhauer, o maior pessimista de todos os tempos. Nessa convivência firmam um trato. Para Philip adquirir o aval de Hertzfeld para tornar-se um psicanalista , teria que participar de um grupo em terapia. Surgem os embates dialéticos e muitas desavenças motivadas pelo conflito e pelas diferenças latentes de todos os membros do grupo até à redenção improvável de Philip e dos demais. Paralelamente vamos em capítulos intercalados conhecendo a vida fantástica de Schopenhauer. Aliás o maior mérito de Yalon é trazer a filosofia para o leigo, para o cidadão comum, despertar essa paixão pelas idéias no sentido imaterial, amplo...
Enfim é uma leitura que cria um momento diferenciado...um algo mais filosófico de uma maneira divertida e voyeristica, como se pudéssemos observar uma sessão de terapia sem comprometimentos, à margem, como uma mosca.
Recomendo para os adeptos da terapia em grupo, porém acho que hoje observando melhor as coisas acredito muito mais em Schopenhauer, que certa feita disse: “o conhecimento é limitado, só a estupidez é ilimitada”. Desta feita morreu isolado como sempre viveu depois de ser obrigado a conviver com os “lastimáveis bípedes humanos”, como aliás se referia Shcopenhauer.

esses russos...


Vai escrever bem assim lá na Sibéria! no Cáucaso! Esses Russos são fantásticos(pra não cair na baixaria e dizer foda!). Acho que aquela neve toda, aquele frio de congelar Pinguím, e todas aquelas tragédias pessoais fez um bem danado para escritores Russos de um modo geral.
"Salada Russa" Editora Paulus, 1988, Coleção Asa Delta. Bela iniciativa para resgatar e introduzir escritores como Tolstói, Gorki, Púchkin, Tchêkov dentre outros que em pequenos contos vão desnudando para nós os mistérios da Rússia tão distante....e agora um pouco mais próxima.
Primeiro temos um conto de Púchin (1799/1837), exilado duas vezes é o maior dos poetas Russos. Morreu aos 38 anos em um duelo. O conto "Nevasca" a princípio lembra outro conto "Senhores e Servos" de Leon Tolstói. Mas de repente, de uma terrível tragédia nos sobra uma adorável surpresa. O conto brinca com o acaso, com as coincidências, com as surpresas que a vida reserva.
O Segundo conto é de Liérmontov(1814/1841), foi preso e deportado e morreu de duelo aos 27 anos(será que eu já li essa introdução?) Aqui também temos um conto que brinca com o destino na pessoa do "Fatalista", com a crença muçulmana que "o destino humano está escrito no céu", com aquela coisa de estar no lugar certo na hora certa ou no lugar errado na hora errada, concluindo o protagonista que não há que falar-se em predestinação mas que tudo depende do acaso. "quem pode saber com certeza se está ou não convencido de alguma coisa? E quantas vezes não tomamos por convicção um engano dos nossos sentidos, ou um equívoco de nossa mente"
Turguêniev(1818/1883) e seu conto "A codorniz" nos introduz, pasmem, naquela época na bárbarie de um hábito comum e deprimente. A caça e a natureza predatória do homem e sua insensibilidade. E olha que sequer existia o Greenpeace!
Mais um conto de Tolstói(já analisado neste Blog) "Depois do Baile" quando Ivan Vassílievitch inebriado com o feitio de uma donzela, seu pai e toda à pompa do momento entre danças e música, entorpecido com o encanto do momento é obrigado, "depois do baile" a ver a face trágica do ser humano com o pai da moça açoitando um servo até a morte. O encanto se desfez, inclusive em relação à donzela, o que levou Ivan a concluir que "o homem é incapaz de compreender sozinho o que é o Bem e o que é o Mal, que tudo depende do meio ambiente, que as circunstâncias violentam o ser humano"
Gárchin (1855/1888) sensível e impressionável foi internado em clínica psiquiátrica e matou-se no vão de uma escadaria durante uma crise nervosa). Meu é só tragédia! Vai...vai ser escritor vai....
O conto "O Sinal" conta a estória de um homem simples, do povo, que, na qualidade de trabahador da ferrovia tem seu destino de herói traçado pelas circunstâncias de uma amizade. E mais uma vez muitas reflexões sobre a natureza humana. "- Não é a triste sina que nos consome, a você e a mim, mas sim os homens. Não há fera no mundo mais feroz e selvagem que o homem".
Agora o grande gênio. Este é gênio: TCHÊKHOV(1860/1904) - depois de pobreza e privações, começou a escrever para ajudar a família, formou-se em medicina, morreu de tuberculose aos 44 anos e criou um estilo próprio, um clima, uma "atmosfera" única e especial.
O conto "obra de arte" é uma brincadeira com uma situação banal. O que fazer com aquele presente indesejável? Porque não somos sinceros as vezes?
"Pamonha" é uma aula de enrolação da classe proletária, concluindo o patrão: "como é fácil ser forte nesse mundo!"
Já o conto "O Diplomata" trata da incapacidade de um amigo de família de nome Piskariov, contar ao marido sobre o falecimento de sua esposa e o conto "Um problema" conta a estória da família Uskov e a tentativa vã e desesperada em honrar o nome da família denegrido por Sacha Uskov que em determinado momento de sua vida desconta uma letra falsa numa instituição bancária.
Enfim - Tchêkhov trata de situações do cotidiano, com muito humor e prosa refinada e desdiz a máxima de outro grande escritor João do Rio "de onde menos se espera, e dali mesmo que não sai nada".
Depois temos Gorki, outro dramaturgo (1868/1936) amigo de Tchêkov era o escritor dos vagagundos, miseráveis e marginalizados.
O conto "tão simples" nos mostra uma passeata socialista como se toda aquela utopia fosse "tão simples" assim.
Já o conto "Bolês" que no meu entender é o mais belo do livro, nos mostra uma prostituta solitária de traços grotescos que cria um noivo imaginário para corresponder-se imaginariamente por intermédio de um estudante letrado e insensível que em determinado momento cai em si: "Eu compreendi....E senti uma coisa dolorosa, tão ruim, fiquei com vergonha. Ao meu lado, a três passos de mim, vive um ser humano(...)" Uau!!!!!!!!!! e por fim para fechar o raciocínio "No fundo nós mesmos também somos decaídos" "...no abismo de toda sorte de presunção e convicção quanto à excelência e superioridade de nossos nervos e cérebros sobre os cérebros e os nervos daquelas pessoas que são tão-somente menos astutas que nós"
E a Coletânea fecha com Grin (1880/1932) preso e exiliado na Sibéria, o mais ocidental dos escritores russos e por isso mal visto por seus pares socialistas. Hoje a história mudou muito.
O conto "A voz e o olho" conta a aventura de um cego que volta a enxergar após uma operação bem sucedida e depara-se pela primeira vez com seu amor: "Naquele momento, a imagem coreta que Rabid formara dela, imagem gerada pelas trevas, foi e permaneceu aquela a que ela não esperava".
Portanto se "a coisá tá russa" pode ser um bom sinal! Para a Literatura então é um sinal claro e preciso, como respirar e tomar água.
Recomendo este livro para aqueles que como eu, logo de cara pegam o "Crime e Castigo" ou "Guerra e Paz" para ler!!!!
Melhor ir com calma e ir se ambientando aos poucos para curtir depois as grandes obras-primas russas. Esse livro "Salada Russa", como já disse, é uma excelente iniciativa. Um excelente início.

A vida não é um suicídio




Quando você estiver triste, achando que sua vida é uma droga, que tudo de ruim acontece com você, que nada mais vale a pena, que a alma se esvai em devaneios insanos, que tudo que vc passa são enganos. Leia o livro "É isto um homem?" de Primo Levi.
Nada nesta vida é por acaso e até em Auschwitz como perseguidor ou perseguido, um homem pode aprender um pouco sobre sua natureza e a dos demais;
O livro é de estarrecer. Melhor relato em primeira pessoa dos horrores de um campo de concentração que se tem notícia. É de arrepiar.
Então deixa o livro falar por si:
"Frente a este mundo infernal, minhas idéias se confundem; será mesmo necessário elaborar um sistema e observá-lo? Não será melhor compreender que não se possui sistema algum?"
"A capacidade humana de cavar-se uma toca, de criar uma casca, de erguer ao redor de si uma tênue barreira defensiva, ainda que em circustâncias aparentemente desesperadas, é espantosa e mereceria um estudo profundo"
"Porque assim é a natureza humana: as penas padecidas simultaneamente não se somam em nossa sensibilidade; ocultam-se, as menores atrás das maiores, conforme uma lei de prioridades bem definida"
"frente à pressão da nescessidade e do sofrimento físico, muitos hábitos, muitos instintos sociais são reduzidos ao silêncio"
"considera-se tanto mais civilizado um país, quanto mais sábias e eficientes são suas leis que impedem o miserável ser miserável demais, e ao poderoso ser poderoso demais"
"A não ser por grandes golpes de sorte, era praticamente impossível sobreviver sem renunciar a nada de seu próprio mundo moral; isso foi concedido a uns poucos seres superiores, da fibra dos mártires e dos santos"
"Parecia impossível que existisse realmente um mundo e um tempo, a não ser nosso mundo de lama e nosso tempo estéril e estagnado, para o qual já não conseguíamos imaginar um fim."
"Para os homens vivos as unidades de tempo sempre têm um valor, tanto maior quanto maiores são os recursos interiores de quem as percorre"
"Sorte que hoje não há vento. É estranho: de alguma maneira, sempre tem-se a impressão de ter sorte: de que alguma circunstância, ainda que insignificante, nos segure à beira do desespero, nos permita viver"
"Uma parte da nossa existência está nas almas de quem se aproxima de nós"
Ou seja um livro muito bem escrito que entra no cerne da existência e do ser humano, numa situação peculiar, do ponto de vista de uma pessoa de muita fibra, que vivenciou o pior dos pesadelos em terra e não perdeu a esperança e a fé.
E eu aqui reclamando da fila no banco, da espera prolongada no cartório!!!!
E dane-se a posição de vários biográfos quanto ao suicídio de Levi. NÃO ACREDITO!
Não acredito que um cara que passou por tudo aquilo com tanta dignidade e tesão pela vida ia entregar a vida num suicídio tosco, num fosso de edifício, queda do terceiro andar(sem nenhum bilhete). Legítimo acidente. Só não enxerga quem não quer ver!!!
E adorei a capa com a foto de um arame farpado envolto por uma delicada teia de aranha, um fundo verde e azul. O livro é exatamente isto. A poesia da natureza humana e da convivência nos lugares mais improváveis.
Bela foto. Bela capa. Belo livro. E como diria outro italiano ilustre - Roberto Benigni: "A vida é bela".

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O paraíso é na outra esquina Mario Vargas Llosa


O livro trata da vida de Paul Gauguin e sua avó Flora Trìstan, o primeiro dispensa comentários, grande pintor impressionista, radicado no Tahiti e posteriormente nas ilhas Marquesas, amigo e no final da vida inimigo do "holandês louco" Van Gogh, acreditava que o "paraíso" estava em fugir da vida burguesa, européia voltar as origens selvagens. Só assim a arte teria sentido, seria pura e interessante. E assim o foi no começo do século 20.
Viveu então uma vida riquíssima, porém pautada por grandes tragédias pessoais e doenças e miséria, originadas na sua escolha não convencional para a época. A liberdade total. Vide auto-retrato acima.

A sua avó Flora Trìstan também era uma figuraça. Uma das primeiras mulheres a se rebelar contra a revolução industrial, em meados de 1840; começou a perambular por toda a Europa divulgando e relatando os horrores sociais oriundos da indústria e condições de trabalho, jornadas absurdas, desrespeito às mulheres, a prostituição abundante na Inglaterra, crianças trabalhando em condições desumanas, a redução de pessoas à condição de escravo(a)....
Criou então a "União Operária" escreveu livros a respeito, e se tornou então, sem sombra de dúvidas, uma das primeiras sindicalistas e feministas da história. Personagem riquíssima. Buscou seu "paraíso" junto com os sansimonistas e foueristas, enfrentando muito preconceito e ignorância, numa utopia ideal da insubmissão dos operários às condições sub-humanas vividas na época. Uma heroína, que sacrificou sua vida em prol de um ideal.
Será que o Lula já ouviu falar alguma coisa sobre Flara Trìstan???? Duvido!
Grande livro, leitura extremamente agradável, na minha adorada Trindade, de um grande escritor Peruano Mário Vargas Llosa.
Esses escritores latinos só me surpreendem!
Viva os escritores latinos. Abaixo aquele louco nacionalista da Venezuela.

Alberto Fuguet - Baixo Astral


Trata-se de um livro, ou melhor um puta livro legal, que fala sobre um adolescente rico latino americano residente no Chile na década de 80.
Seus pontos de referência e alienação aos poucos e após várias crises vão se dissipando, culminando no apoteótico amadurecimento às duras penas.
Dosado com muitas situações hiper interessantes e bem escritas, cenas dignas de um "road movie", a estória se passa em uma semana(semana de votação do "Sim" e do Não" à Constituição de Pinochet).
O personagem Martìns Vicuna, um jovem de 17 anos(quase 18) extremamente inteligente,fruto de uma educação bem cuidada em escolas particulares, porém alienado e patético,passa seus dias em viagens estudantis, bares da moda, festas em casas cinematográficas de seus amigos ricos, prostíbulos de luxo, cheirando cocaína, se entupindo de bebida(rótulo preto) e criticando sua vida as pessoas qeu o cercam e o mundo como um adolescente mimado em constante baixo astral.
Aos poucos o personagem vai descobrindo a sua verdadeira identidade, bem como verdadeira situação de seu País e do mundo.
Dito desta forma a coisa toda parece piegas, cópia com final moralista do livro "O apanhador nos campos de Centeio" Sellinger
Não é bem assim já que o próprio autor brinca em seu livro com a comparação inevitável, traçando inclusive as diferenças e semelhanças de um jovem primeiro-mundista de Nova York com um jovem terceiro-mundista do Chile.
Vide algumas informações que reputo interessantes: Alberto Fuguet nasceu em Santiago, em 1964, e viveu na Califórnia até os 12 anos em virtude do trabalho de seus pais naquele País(não tem nada haver com exílio e outras cositas latinas) retornando posteriormente ao seu País de origem. Formado em Jornalismo na Universidade do Chile, foi crítico de rock, cinema e colunista do El Mercurio e é considerado um lider da nova literatura latino americana.
"...uma geração inteira de escritores pretende descartar a noção que realismo mágico é tudo na ficção latino americana. Alberto Fuguet emerge como a ''''''''mais irresistível voz'''''''', diz Mario Vargas Llosa, '''''''' por sua prosa segura e idéias ambiciosas, assim como a liderança que assume entre outros jovens parricidas''''''''." Revista Time"
Imperdível!!!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

barba e bigode


"é preciso ter caos e frenesi dentro de si para dar à luz a uma estrela dançante"



Um debate cruel entre o "barba" Breuer e o "bigode" Nietzsche, nos leva a um "eterno retorno" àquele mundo fantástico do início do século passado. Viena.
O livro nos mostra um encontro fictício entre o grande médico e o grande filósofo, o primeiro tentando curar uma enxaqueca e o estresse do outro/ o outro tentando curar a angústia do primeiro; ambos com tormentas existenciais oriundas do âmago, das entranhas mais obscuras daquele ser ininteligível chamado "mulher".
Bertha Pappenhein e Lou Salomé destroem todo o machismo enrustido de uma época, mesmo aquele arraigado e forte do filósofo do ano 2000. Prêmio de melhor coadjuvantes para elas!!!!
Basta um passeio pela internet para ver várias críticas favoráveis ao livro , maior expoente da nova literatura. A literatura de idéias! Uma delícia sem dúvida! Quem não gostaria de ver um debate, mormente um sobre as questões mais íntimas de dois dos maiores pensadores da humanidade, com amigos ilustres como Freud, Reike, Wagner etc!
No meu caso é sintomática a associação entre os problemas existenciais de um homem de 40 anos(Breuer), cansado da vida cheia de imposturas e buscando uma nova vida, mas com medo e impotência natural proveniente do passar dos anos.
"minhas metas foram imposturas: jamais foram o verdadeiro destino do rapaz infinitamente promissor."
"Chegar aos quarenta abalou a idéia de que tudo me era possível. Subitamente, entendi o fato mais óbvio da vida: que o tempo é irreversível, que minha vida estava se consumindo"
E é assaz satisfatório, ver que o anti-cristo também é humano, "demasiadamente humano"; que o homem de ferro também tem coração. Será ficção demais???? Exagero de Irvin D. Yalom? Não creio! Afinal "o orvalho cai mais abundantemente quando a noite é mais silente".
Enfim, poderia tecer vários comentários que de certa forma redundariam em plágio ante tantas críticas bem elaboradas. Mas como hoje estou com a macaca fico com Dostoievski que certa feita escreveu que "algumas coisas não devem ser contadas, exceto aos amigos; outras coisa não devem ser contadas mesmo aos amigos; finalmente existem coisas que não se contam nem a si mesmo!"
Tudo isto para não tirar o prazer que você terá ao ler o livro e tirar suas próprias conclusões afinal um dos ensinamento que ele passa é que "existe um rumo meu e um rumo seu, mas que não existe "o" rumo."(...)
Portanto esta noite o blog vai dormir no divã de Sigmund Freud.
Bons sonhos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
ps. todas as citações entre aspas foram retiradas do livro - nunca antes grifei tantas páginas.

A Morte de Ivan Ilitch Leon Tolstói


"O homem não tem poder sobre nada enquanto tem medo da morte. E quem não tem medo da morte possui tudo"

Como comentar um pequeno livro que contém aquela que é considerada a melhor novela já escrita? Trava até os dedos no teclado.
Mas vamos lá!
É a história de Ivan Ilitch, burocrata do direito que no final da vida, sofrendo às agruras de uma doença dolorosa e incurável, tem que parar forçosamente para fazer um balanço de sua vida, suas relações sociais, afetivas, familiares....
E descobre a falsidade de tudo, que cambiou a vida por nada, por algo superficial , material e fútil.
A relação com sua mulher demonstra o engôdo. Tudo ia bem quando ele estava bem financeiramente, de saúde, progredindo etc. Tudo ia mal nos momentos de dificuldade. "sua mulher começou a perturbar o curso tão ameno e tão correto da sua existência"
Os amigos que de forma constrangedora tiveram que abrir mão de seu jogo de cartas para homenagearem póstumamente o velho "amigo" de olho nas possibilidades de ascensão profissional.
O trabalho que nada acrescenta, que invalida às verdadeiras necessidades humanas de cunho espiritual, que trava a existência entre quatro paredes num molde tacanho e pré-moldado por alguém.
A necessidade da decoração impecável de seu apartamento, e a infelicidade em habitar neste ambiente insípido.
Ivan em determinado momento questiona-se: "E se na verdade, minha vida consciente, não foi o que deveria ter sido?"
E o narrador responde: "Seu trabalho, sua existência bem regrada, sua família e seus interesses mundanos - tudo isso talvez não passasse de mentiras"
Na verdade o livro trata da maior verdade de todas e que ninguém quer ouvir: No fundo todos nós, pequenos burgueses, caminhamos para a morte e não conseguimos reter a vida, mentindo pelo caminho para nós mesmos em várias oportunidades.
Um senhor toque num ponto crucial da existência e com luvas de pelica de um grande escritor.
E o livro foi escrito em 1886. Faz tempo heim?!!!!
E a vida de Tolstoi é outro romance: O barbudo acima, autodidata, individualista, influenciado por Sterne, anti-materialista, viveu em San Petesburgo na Rússia, casou-se teve treze filhos e escreveu "Guerra e Paz" e "Anna Karenina".
Em determinado momento de sua vida apesar de ser um escritor e pai de família bem sucedido, rompeu com a autoridade, quer estatal, quer religiosa e viveu até o final seu cristianismo peculiar, com base na máxima que "o homem deve servir a Deus e não viver para si mesmo"
Deixou de beber, fumar, tornou-se vegetariano e passou a vestir-se como camponês, abstendo-se do desejo carnal em relação à sua esposa, abstendo-se de empregados e terminando a vida sozinho em busca de Deus, morrendo em 1910.
Leon Tolstói portanto era um puta de um loucaço!!!! Cada uma....
E o livro em questão é reamente uma obra-prima inperdível da literatura mundial.

domingo, 18 de janeiro de 2009

pé na bunda



Nesse livro "Joana a Contragosto" encontramos o personagem M.M., escritor quase-famoso, autor de 5 livros com 41 anos, perambulando entre Rio e São Paulo, criando expectativas de edredons no varal, cães, gatos, um sítio em Itatiaia, músicas de Roberto Carlos...ou seja, o amor bateu pela primeira vez na porta de nosso personagem.
Apaixonou-se por uma garota de 21 anos, inteligente, moderna, independente, rica, bonita e levou um pé na bunda. O tesão não rolou após uma noite de chimpanzés num Hotel vagabundo no Rio de Janeiro, aquela cidade do "Cristo estrangulado em nuvens de magnésia bisurada" . Joana ainda matou a sua filha/indiazinha com a pílula do dia seguinte ao som de Nelson Gonçalves cantando Lupicínio Rodrigues.
E o livro com grande maestria trata dessa situação. Entre idas e vindas acompanhamos o desmanche das certezas do protagonista e a sua transformação em ser voador na maturidade após a retirada de seu chão. A "mulherzinha" vence, e lhe coloca como adorno para o resto da vida todos os tipos de provações e provocações. É um acerto de contas de M.M. com todas as mulheres que já passaram por seus livros.
É meu caro M.M. "depois de ter exercido a consciência amorosa da babaquice, o sujeito torna-se efetivamente um babaca. Vai para a sarjeta, chafurda" e só lhe resta escrever um livro a contragosto para o deleite de seus leitores.
Obrigado por seu "sacrifício compartilhado"
E a despeito de suas novidades e um novo lirismo que ainda não conhecia gostaria de parabenizá-lo pelo grande desabafo: "Às mulheres que não me quiseram – repito – desejo a infelicidade plena. Às outras, que tiveram pagamento adiantado, desejo bons negócios e um feliz ano novo"
Vale ou não vale a pena ler Marcelo Mirisola? Eu não entendo....corram para as livrarias. Melhor que pagar a conta do analista!

O homem da quitinete de marfim




Agora estamos nas crônicas onde com a coragem de sempre Marcelo Mirisola detona a classe média, Caetano e Feelings, Ed Motta, Chico e Budapeste, SP Fashion Week, Kikitos, Lula, Nando Reis, Fernanda Yong, Rita Lee(ou será Serguei?), Sertanejos, Tarcício Meira(ex-galã arriado), Penélope, Ayrton Senna ,Zíbia Gaspareto, Olimpíadas, cineastas banqueiros, "a turma do gueto" e cara feia(rap), Ferréz, "cavanhaque fashion" , demais "Gagliassos da vida" e todo o "mundinho barrichello"
Por outro lado eleva Primo Levi, Nelson Gonçalves, Juliano Garcia Pessanha, JunichiroTanizaki, Cioran, Guga , disk-pizza , batatinhas sabor churrasco e pipocas amanteigadas.
Enfim, leitura de prazer inconfessável, lá na Bertioga, no meio do apartheid social Bertioga/Riviera de São Lourenço, comendo pescadas e tomando cervejas em lata(do lado pobre é óbvio!).
Você pode até discordar de Mirisola, mas uma coisa é fato: o cara é corajoso pra caramba e cara-de-pau a ponte de resenhar seu próprio livro e dizer-se - "maior escritor vivo - e negligenciado - da língua portuguesa".
O duro é que é a mais pura verdade dele: "o mestre do insuportável"
Até quando todo mundo vai fingir que Marcelo Mirisola não existe????? Por favor, desejem a morte de Mirisola, mas não o ignorem!

O homem comum Philip Roth






Tolstoi Moderno? A morte de Ivan Ilítch dos tempos atuais? Reputo um tanto quanto exagedado. O livro é bom, tal e coisa e coisa e tal mas daí para um clássico....
Para o escritor americano, o homem comum é aquele que torna-se um publicitário de relativo sucesso, artista plástico nas horas vagas, passa por três casamentos, férias em praias paradisíacas, tem um irmão milionário, filhos distantes e ausentes, problemas constantes de saúde ,crises psicológicas oriundas da degeneração da velhice e uma aposentadoria digna num balneário da Flórida.
Este provavelmente é o homem comum americano!!!
Para mim o homem comum estudou pouco, teve que trabalhar para ajudar os pais, tornou-se um digno auxiliar de almoxarifado, assiste jogo do Corinthians nas horas vagas, atura a mesma megera até o fim da vida, tem um irmão pederasta e falido, filhos malcriados e sem educação, problemas com a bebida, hemorróidas e crises de depressão oriundas da merda em que vive ; no fim do mês tem que encarar a fila do INSS.
E ambos mortais caminham para o final do túnel da mesma forma, sem grandes feitos, sem grandes emoções, como Eu. Como você!
Frase do livro: “Mas não há como refazer a realidade. O jeito é enfrentar. Segurar as pontas e enfrentar. Não há outra saída”.
Um questionamento:“A gente nasce para viver, mas em vez disso morre?”
Enfim, um belo e singelo ensaio sobre a velhice, sua dor e a chegada do “nada” em nossas vidas!!!
Recomendo para menores de 40 anos.

Livros de Aventura e Amyr Klink



"intensos esses instantes que vivemos, impressos num perfeito e mágico rastro de luz" Amyr Klink



"Na linha d`agua". Livro bom para ler no Guarujá, muita chuva, muito mar em frente, na Praia da Enseada, que estranhamente estava cercada de urubus e pombas, estes últimos, sem qualquer cerimônia, comeram toda a minha porção de pescada à dorê. Paciência; não estava mesmo grande coisa.
Quanto aos urubus, ouvi os comentários do proprietário do quiosque: - Esse Guarujá tá atraindo cada bicho estranho...
Livro menor de Amyr Klink. "Na linha d'água" Aliás li todos os livros de Amyr. Desde a Viagem Épica da África ao Brasil(remando) até a Fantástica viagem "solo" para passar o inverno na Antártica(no veleiro Parati). Este novo livro é sobre a idéia de um barco - ParatiII" até tornar-se realidade. Um misto de perseverança, sonho, trabalho árduo e compensação que culmina num barco impecável, simples e seguro, e em decorrência viagens bem mais chatas e sem graça para o leitor comum.
Porém...por analogia podemos aplicar a aventura de Amyr nas diversas aventuras a que estamos sujeitos no nosso dia a dia e na nossa busca pessoal.
Uma mensagem otimista, já que Amyr é um empreendedor de sucesso, embora em atividade tão distante de nossa realidade, ou ao menos da realidade de muitos.(navegação/exploração profissional)
É muito interessante a parte em que Amyr tem que cruzar com seu barco de várias toneladas de Itapevi, onde foi construido até litoral, passando pela cidade de São Paulo, com transporte especial. A aventura náutica mais estapafúrdia que poder-se-ia imaginar, demonstrando inclusive que a aventura real pode estar em qualquer lugar: desvendando lugares inóspitos, mares, entraves burocráticos ou vencendo viadutos que não correspondem a altura indicada;
Necessário ressaltar a minha paixão por livros de aventura.
Tudo começou com a Tia Guiomar que me deu alguns livros/gibis do Tintim. Depois comprei a coleção inteira, fui com ele até a lua, Tibete, Otokar e outros lugares improváveis.
Após, teve o próprio Amyr, Shacketon e seu "Endurance"(a maior aventura de todos os tempos), viagem à foz do Rio Nilo com Sir. Richard Francis Burton(que não é o ator), Thor Heyerdahl e o "Kon-tiki" , família Schuman, escaladas diversas com Waldemar Niclevicz, Jon Krakauer, Mallory e Irvine; ralies com Cyril Neveu, viagens a ilhas exóticas com Stevenson, caçando baleias com Melville, pescando com Hemingway, indo para Antártica com Scott("a pior viagem do mundo") e porque não viajando pela Europa, Rota 66 e Machu Pichu com meu amigo de infância Sérgio Motta...
A lista é grande e não necessariamente na ordem acima proposta apenas de forma exemplificativa e é um gênero de literatura que me fascina já que foge do lugar comum e literalmente nos leva a lugares incomuns, bem distante da nossa massacrante rotina diária.
Tais livros me desperam um outro fascinio que levo pela vida. As viagens diversas, sempre buscando algo novo e mais distante. Talvez a literatura tenha me levado a fazer a trilha inca, Patagônia, aos picos de montanhas que conheci, cachoeiras, chapadas, rios, trilhas, etc.
Enfim. Mais um livro de Amyr Klink. Mais um aprendizado. Mais uma inspiração. Quem me conhece sabe! O importante é sempre estar "na linha dágua". Quem leu sabe!

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

UTOPIA



"Se o rádio não toca
A música que você quer ouvir
Não procure dançar, ao som da mesma valsa não não não...
É muito simples, é muito simples
É só girar o botão" (Raul Seixas/Paulo Coelho)



Não sei por que raios eu adoro esta estrofe desta música, como adoro as coisas simples, muito simples, que encerram máximas verdades sobre a vida. Viva Raul! Viva Paulo Coelho!!!!
As vezes nos vemos em um determinado ponto da vida em que não vislumbramos qualquer saída; as noites parecem intermináveis, a angústia dos erros cometidos, a insatisfação de uma vida num molde tacanho que não produzimos. OHHHHHH!!!!!!! Nessas horas o que fazer! É muito simples...
"É só girar o botão"
Se você está naquele casamento insuportável, com aquela mulher/megera/monstro que não lhe dá espaço, que implica até com a cor do seu cadarço, que vive lhe dando esculacho, o que fazer. Ora ora ora! É muito simples!
"é só girar o botão"
Se tem que diariamente se sujeitar a um trabalho absurdo de ridículo de importante para um chefe importaannntíssimo de idiota, que vive peidando e colocando a culpa naquele empregado suuuuper competente, ou seja, você! Caramba – rebele-se! Saia fora- siga o exemploll! Afinal...
"é só girar o botão"
Meu filho... a vida é uma só! Nunca ninguém lhe falou isso?(...) Nem mamãe???
Lembre-se que "o homem é o único ser que tem o poder de modificar as coisas" Raul Seixas - (novamente)
Faça como o Vinícius, case nove vezes; faça como o Cazuza...enfie o pé na jaca; faça como o Tim Maia...não tenha papas na língua("cadê o retorno?!"); faça como o Tom Cruise naquele filminho..."Jerry Maguire"(acho que é isso), mande o emprego para a estratosfera!!!!!
Afinal... como já dizia a fantástica e mutante Rita Lee... no final das contas e no dia do juízo final : "tudo vira bosta"
Boa Noite!!! (e "não me vire às costas")

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O Atleta e o Velho Safado




2028, o Brasil como a maior potência econômica mundial é sede pela primeira vez dos Jogos Olímpicos.(futurismo ou delírio???).
O rapaz de quarenta e dois anos acorda às onze e trinta com uma terrível ressaca em uma manhã chuvosa, negra e poluída na cidade de Santo André/SP. Ele é solteiro, tem quarenta e dois anos mas aparenta bem mais. Pesa exatos oitenta e nove quilos e meio o que não lhe cai bem considerando ter um metro e sessenta e nove de altura.(um a menos do que este pobre cronista que abaixo subscreve).A barriga proeminente e flácida cultivada em anos de sedentarismo encobre o cinto em torno da calça; as olheiras da ressaca em torno de seus olhos negros lhe dão uma aparência de zumbi, misturado com vampiro, o que de certo combina muito com seu cabelo cumprido e ensebado que não vê uma tesoura a tanto tempo. Sua roupa maltrapilha e suja lhe dá uma aparência de mendigo vagabundo, o que aliás só não é verdade porque desde um ano após as Olimpíadas de Pequim recebe uma vergonhosa aposentadoria por invalidez da Previdência Social que lhe possibilita beber pinga e ligar para o disk-putas sem ter que pedir dinheiro nas esquinas da cidade. Aposentou-se após sofrer os horrores da síndrome de “burn-out”ou para os puristas - crise aguda de estresse decorrente de sobrecarga no trabalho.
Olhou no espelho e não gostou do que viu. “As aparências enganam...os outros!”(pensou e sorriu sarcasticamente). Ligou a televisão e os canais só falavam da porra da merda das Olimpíadas de São Paulo. Desligou rapidamente. “– Que porra!” Gritou sozinho.
Saiu na rua e encontrou sua irmã toda atleta, toda animada, toda exemplo como sempre foi. – “Quer ir para São Paulo? Hoje é a abertura das Olimpíadas. Tenho ingresso!” Com um olhar perdido no horizonte e uma dor dilacerante no peito, recusou-se a responder....virou às costas e foi para o famoso bar do “copo sujo” de seu compadre Genésio como fazia todos os dias na hora do almoço desde que se aposentou.
Cumprimentou respeitosamente todos os bêbados que começavam a enfileirar garrafas na mesa. Pediu uma branquinha para variar, jogou dois dedos no chão para o santo do dia e começou à fazer sua fileira irregular de mini-copinhos de geléia. A televisão do bar mostrava a porra da merda da festa de abertura Olímpica. -“Oooo Genésio desliga está merda!?”- Foi atendido prontamente;
No fundo do copo começou a vislumbrar seu passado e a pinga começou a liberar reminiscências profundas e dramáticas que culminaram na pergunta de sempre “-Onde foi que eu errei?” E o choro lhe veio fácil e farto em um pulo. E que pulo...
Amparado por Genésio foi para um quartinho nos fundos do bar onde um colchão porcamente imundo lhe esperava. Mas o sono não veio. “E essa barata gorda andando na parede?... e essa festa toda aqui do lado?!?”....(pensou).E aquela frase maldita que lhe acompanhava à 20 anos como um mantra veio a tona em um salto: “_Esse garoto se destruiu, ele está destruído...esse garoto se destruiu, ele está destruído”....
E estava. Lembrou-se subitamente de uma frase de Charles Bukowski - "Não sei quanto às outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os sapatos de manhã, penso: Deus Todo-Poderoso, o que mais agora?"

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A corrida...


Sempre começa com um acordar forçado, um café ralo, uma buzina estridente após um alongamento medíocre. Corredores ansiosos. O som é tecno. Depois o desagradável tecno vai dando espaço para a solidão e o compasso de passos monótonos e repetitivos. O silêncio impera.
O cheiro é de suor. As mentes confusas. –“Será que chego ou não chego? – Qual o sentido da vida?- Porque estou aqui?” E por aí vai...
Os kilometros passam pintados pelo chão; copos d’agua jogados nas sarjetas sem nenhum pudor. Subidas e descidas. A respiração ofegante. A dor na panturrilha, na coxa; os calos latejantes nos pés e as malfadadas bolhas.
As mentes confusas – “Não tinha coisa melhor para fazer? –Qual a razão disto tudo? - Cadê a minha cervejinha!?!?!”
Lá pela metade entramos no moto-contínuo, o piloto-automático assume; e a dor vai dando espaço para um prazer improvável. A mente mente . Seguimos em frente em busca de um objetivo que neste momento resume-se a...chegar!
Próximo à chegada aplausos anônimos e alentos: – “vamos, força que você consegue – tá chegando....”
Nessa hora, sempre um corredor apressado na retaguarda. Por uma questão de honra ou idiotice aceleramos também... O tecno horroroso novamente. Aquele mestre de cerimônias soltando palavras, tempos e premiações lúdicas com muita animação.
Após cruzar a linha recebemos: uma medalha de plástico, um tempo e uma banana!
E por incrível que pareça ...voltamos para a próxima... para a próxima...e para a próxima...
Continuamos a correr de ninguém para lugar nenhum com muita felicidade, satisfação e orgulho.
Apesar de todos os dissabores, correr é um vício saudável, sendo que endosso inteiramente as palavras do corredor e escritor Marcio Dederich: "Era um velho quando comecei a correr. Vem daí meu arrependimento por uma coisa que fiz na vida: devia ter começado a correr mais cedo. Hoje estaria mais jovem"
Por fim aproveitando uma frase da música "a letra a" de Nando Reis: "certeza é o chão de um imóvel. Prefiro as pernas que me movimentam"

Luiz Tinoco Cabral

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Nietzsche pra lá de Bagdá




Toda a minha vida procurando os espíritos livres, Henri Miller, Bukowski, Gutierrez, Hilst, Kerouac, Gauguin, Modigliani.... me levaram aos 39 anos até Nietzsche, me levaram até que enfim "Para Além do Bem e do Mal".
Livro para ser lido com muito cuidado e respeito. A princípio desprezo a opinião de Nietzsche sobre as mulheres e por vezes sua falta total de humanismo e desprezo pelas "castas inferiores" bem como sua predileção pelo aristocrático. Não é possível que a vida se resuma a uma eterna "luta pelo poder". Há excessões meu caro!
Por outro lado temos que enaltecer sua visão artística do mundo, seu estilo e sua luta pelo afastamento da vulgaridade e pela descrição nua e crua do mundo como ele é, bem como as críticas severas e com propriedade sobre à visão metafísica das coisas e à filosofia de conveniências.
Enfim, nada melhor que alguém em 1886 dizer que a ambição metafísica "prefere um punhado de "certeza" a toda uma carrada de belas possibilidades".
Que: "não se deve ir a igreja quando se pretende respirar ar puro"
"O cristianismo deu veneno para Eros beber. Este, na verdade, não morreu, mas ficou viciado".
Mas o mais importante é o manifesto para os filósofos do futuro contra a felicidade geral dos rebanhos e suas cantilenas "igualdade de direitos" e "piedade para os que sofrem", bem como as deturpações e uso indevido do falso altruísmo dos poderosos e a aceitação passiva dos comandados. ABAIXO O INSTINTO DA CONSERVAÇÃO!!!!!!DO MEDO!!!! DA FALSIDADE!!!!!
Afinal: "A objeção, o desvio, a desconfiança alegre, a vontade de brincar são sinais de saúde. Tudo o que é absoluto pertence à patologia".
Na mesma esteira nos conclama a sair do marasmo da "fácil comunicabilidade da necessidade" das "vivências apenas medíocres e vulgares". Sentimento facilmente vivenciado em estádios de futebol, igrejas ou Shoppings Centers.(...)
Pena que a mente humana é capaz de deturpar qualquer coisa, sendo Nietzsche em momento histórico peculiar, indevidamente apropriado pelo anti-semitismo, nazismo e facismo, logo ele que anteviu às grandes guerras, escreveu claramente contra o anti-semitismo, inclusive enaltecendo o povo judeu e criticando o racismo e xenofobismo alemão que começava a formar-se. Mas conforme o próprio Nietzsche sabia: O ser humano é capaz de tudo em sua luta pelo poder, e nisto ele foi traído pela própria irmã que filiou-se aos ditadores medíocres de sua época.
Quem vê o bigodão acima pensa numa pessoa reclusa, solitária, de mal com a vida, que, como sabem, terminou seus últimos 10 anos com problemas mentais. Não é bem assim. Nietzsche tem uma visão(em alguns momentos) muito mundana e alegre da vida, o que se observa quando diz que existindo um Deus este deveria dançar; que o concubinato foi corrompido pelo casamento ou que "maturidade do homem significa o reencontro com a seriedade que se tinha nas brincadeiras de infância".
Enfim, entre os vários Nietzsches, fico com o alegre, o não rancoroso, o artista, o literato, aquele que buscou o perigo, que foi de encontro à mente tacanha e conformada de sua época, aquele que apesar de todo o sofrimento não cambiou à vida por nada e cheio de orgulho por si, glorificou-se na eternidade e nos deu lições como está:
"O essencial "no céu e na terra" é, repito, que se obedeça durante longo tempo e num único sentido: a longo prazo. É assim que se obtém e se obteve sempre algum resultado pelo qual vale a pena viver na terra, por exemplo virtude, arte, música, dança, razão, espiritualidade - qualquer coisa sublime, refinada, louca e divina".
Para os filósofos do futuro e os espíritos livres: "Aquilo que nos atrai é exatamente o infinito, o desmesurado. Assim como os cavaleiros no cavalo desenfreado, largamos as rédeas perante o infinito, nós, homens modernos, semibárbaros que somos - e sentimos a nossa felicidade apenas onde nos sentimos mais - em perigo".
E pergunto de forma indignada à Madre Helena ou à Irmã Batista ou a qualquer uma daquelas maravilhosas freiras do Colégio Santa Úrsula: Porque demorei 39 anos para conhecer Nietzsche????

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O casamento acabou...




ELE


O casamento acabou. Para Ele, o balanço geral até que era bom; algumas rugas a mais, uns sonhos a menos, mas não perdera a capacidade de sonhar com algo melhor. No final era isso que importava.
Após a separação tudo era novo; e Ele que nunca tinha notado a sua própria existência começou a ler os existencialistas principalmente Sartre: “Ninguém deve cometer a mesma tolice duas vezes. A possibilidade de escolha é muito grande”. E com esta frase martelando na cabeça começou a explorar as possibilidades que desordenadamente lhe apareciam. Muitas festas, muitas mulheres, alguns homens, um travesti , inúmeras bitucas de cigarro e várias taças vazias. Ele experimento de si mesmo fazendo acontecer sua própria existência.
Tudo saia conforme o planejado até aquela fatídica noite onde lhe esperava o fruto do acaso. Ela surgiu do fundo do bar, com um vestido branco, um cabelo molhado e um olhar de mistério estonteante. Nunca tinha visto aquela mulher tão linda, tão dona de si mesmo, o avesso daquela de outrora incapaz de explorar seu livre arbítrio. E foi amor a primeira vista, uma paixão fulminante que culminou em casamento. E desta vez Ele se fez pleno. Coerente com sua nova filosofia de vida chegou a conclusão que Sartre estava certo; a separação não estava mais nos seus planos.


ELA

O casamento acabou. Para Ela, perder assim tão futilmente o único homem que amara era uma tragédia. Não sabia o que fazer de sua vida outrora tão planejada. Um dia lendo um velho livro muito em voga nos anos 70 deparou-se ao acaso com uma frase que lhe fez pensar “Ninguém deve cometer a mesma tolice duas vezes. A possibilidade de escolha é muito grande”. Pensando nisso disse um basta para suas lamúrias e anos de anulação. Ligou para aquele ex-namorado de infância que ainda lhe cortejava e entregou-se inconsequentemente como jamais tinha feito. Porém ao ficar só a culpa logo veio; para esquecer entrou no primeiro bar que lhe ocorreu; saindo do banheiro por ironia do destino lá estava Ele....sozinho, sentado em uma mesa, com um olhar triste e demonstrando uma fragilidade linda que até então desconhecia. Foi o suficiente para confirmar o que já sabia. Amava aquele homem. E sem pensar duas vezes casou-se novamente. “-Que se danem os outros... o velho livro... as inúmeras possibilidades; sou um tola mesmo e morrerei assim.”

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Quinzinho, Raul, Paulo Coelho uma prima e eu




Uma vez num bar ainda jovem, conversava com uma prima mais velha todo animado falando em escrever uma música, um livro, quem sabe lançar um poema. Eu era, como disse, jovem e ainda acreditava nas coisas....
Foi quando ela me disse em tom desiludido e profundo que já tentou tudo isso e terminou num apartamento/quarto/sala dando aulas de inglês para débeis mentais da classe média.
Porra, cacete, minha prima predileta, aquela que assistiu um Show do Queen em um teatro para 50 pessoas em Londres, que tocava violão 8 horas por dia e separou do marido americano pela arte, pelos amigos, quem sabe para escrever uma música, um livro, um poema...;(???)
Sem esquecer que ela morou nos Estados Unidos, que flertou com Woodstok, que era a cara da Rita Lee e fazia uns solos do Yngie Mallmsteen.
“- Dou aulas de inglês para débeis mentais da classe média e vejo o meu filho crescer ; e vou todo mês buscar a pensão alimentícia no Banco do Brasil, faço o supermercado e sonho com um aumento na pensão para o ano que vem”
...ela não sabe, sequer se lembra, mas naquele dia criou mais um iconoclasta desiludido, mais um ser autômato em busca do maldito salário no final do mês.
Eu tinha 15 anos, já bebia cerveja de forma constante, usava um maldito cabelo na testa e era um pretenso artista. Assistia filmes de arte no Cine Clube Cauim, (Fellini, Godard, Antonioni) e acreditava que o mundo podia ser mudado e que “o destino é a gente que faz” e outras babaquices adolescentes que hoje só o Paulo Coelho acredita.
Mas eu acreditava de coração porra! E tinha 15 anos (ao contrário do Paulo Coelho).
Desde então a cerveja começou a amargar em minha boca. Passei para o uísque (o demônio engarrafado). Chafurdei na lama, lambi paredes, beijei sarjetas, mijei em becos sujos. Dormi com mulheres suspeitas, sem carinho; abusei da boa vontade de outras. Chorei sozinho nos quartos escuros.
Foi quando então fiz cursinho, depois Faculdade, casei, tive um filho, me tornei um cidadão respeitado (“ganhando quatro mil cruzeiros por mês”) e escondi no fundo do baú as músicas os livros os poemas e as pretensões.
Neste intervalo Raul Seixas morreu!
Hoje sigo firme para a aposentadoria, tomando a cerveja amarga e o uísque falso, curando ressacas com bebedeiras, na esperança de passar meus dias na praça XV dando comida aos pombos, lendo os classificados e jogando dominó.
Mais um cafezinho(da Única) por favor...um chopinho do Pinguim...um cigarro quem sabe...
- Olááá Quinzinho....tudo bem????

caio fernando abreu





Mais uma descoberta. Por diversas motivações passei a conhecer esse grande escritor das pequenas coisas, dos anti-heróis, das miudezas da vida.
A foto a beira mar, cabelo hippie, carango velho, viajando...quem sabe para o sítio de Hilda Hist vem a motivar qualquer um e desperta uma saudade daquele período em que não vivemos por mera questão de gerações...quando o sonho de consumo era ir para Katmandu e fazer experimentações.
Escritor de cultura linguística indiscutível, português impecável e idéias bem colocadas, de uma criatividade ímpar, um dos poucos escritores que li, que tem uma marca, um modo próprio de escrever.
O interessante e como ressalta Lígia Fagundes Telles, é que o escritor não se atém à modismos, e estilo passageiro, escreve aquilo que tem vontade de escrever, sendo que em uma análise do próprio, até meados do fim da vida não atingiu o profissionalismo, sendo o ato de escrever um ato necessário, que vem das entranhas e não da superfície.
O Ovo Apunhalado é datado(???)...(só se vc ler o período em que foi escrito). Os textos são atemporais, embora as idéias reflitam aquela coisa da época, quem sabe de ácido lisérgico , dos Beatles e do "flower power", margaridas, avencas e outras cositas.
Já o Ovelhas Negras é puro tesão para quem gosta de escrever. É uma viagem pela evolução do escritor, como escritor e como pessoa, desde os 14 anos até meados de 1995.
Observamos já no primeiro conto que o cara tinha que ser escritor, já brincava com a escrita e suas possibilidades estéticas criando um "climão" ora um anti-climax.
Na contramão de outro escritor citado neste Blog(que queima aquilo que não gosta e vive fazendo fogueiras), o Caio tem essa mania(a meu ver salutar) de guardar os pedaços de textos, pseudo-textos que muito embora numa primeira análise nada possuem em última análise ou dependendo de quem analisa possuem a capacidade que tanscende o próprio texto de emocionar demonstrando o novo escondido nas entrelinhas.
Vivendo e aprendendo....fico devendo a foto do escritor em sua fase "doidona"!!!!!
LEIAM! É O QUE É MELHOR É BARATINHO E TEM EM "POCKET"!!!!

Pedro Juan Gutierrez em três livros





Em tempos de Cuba na ponta da língua da mídia e de ponto final da era Fidel Castro(será?), necessário resgatar esse escritor que demonstrou toda a instabilidade da ilha, seu regime de ditadura socialista bem como toda a instabilidade daqueles que lá residem, inclusive o escritor, sem deixar de ressaltar o fascínio pela ilha. Tipo:"me bate mas eu te amo".
Em "Trilogia Suja de Havana" temos um relato visceral da vida do próprio escritor, cercado de sexo, excrementos e muita bebida e drogas; acompanhamos o mesmo pelas suas "bad e good trips" pelas ruas sujas de Havana, bem como pelos corredores dos edifícios do Malecon, limpando a bunda com jornal e jogando o papel nas coberturas improváveis de tempos de outrora, levando a vida possível, passeando em carros da década de 50, fazendo bicos, se prostituindo, e buscando o prazer imediato para satisfazer a falta de compromisso com o futuro, o ápice do descompromisso com a vida e seus objetivos.
"Sexo não é para gente escrupulosa. Sexo é um intercâmbio de líquidos, de fluidos, de saliva, hálito e cheiros fortes, urina, sêmen, merda, suor, micróbios, bactérias. Ou não é. Se é só ternura e espiritualidade etérea, reduz-se a uma paródia estéril do que poderia ser. Nada".
Não ia dizer mas vá lá! A comparação com Bukowski e Henri Miller é inevitável, porém com uma dose de latinidade, cores mais vivas e calientes.
Num segundo tempo me deparei com "O Rei de Havana" onde um anti-herói fictício que perambula pelo mesmo ambiente miserável de Havana e cercanias porém com um texto meio realista com momentos de realismo fantástico, situações fictícias beirando o absurdo da degradação física e moral que fatalmente culmina com a morte do protagonista.(sem qualquer moralismo – aponta apenas a verdade nua e crua).
Não gosto de ser desmancha prazeres, mas para aqueles que não vão ler o livro , e para aqueles que vão(sacanagem!) apresento o seu final, que para mim é o que ficou e é uma síntese do que acabo de falar:
"Sua agonia durou seis dias com suas noites. Até que perdeu os sentidos. Por fim morreu. Seu corpo já estava apodrecendo por causa das úlceras feitas pelos ratos. O cadáver se corrompeu em poucas horas. Chegaram os urubus. E o devoraram pouco a pouco. O festim durou quatro dias. Foi devorado lentamente. Quanto mais apodrecia, mais gostavam daquela carniça. E ninguém jamais ficou sabendo de nada."
Livro menor do autor comparado ao anterior, mas de leitura obrigatória para compreender a trajetória de Pedro Juan Gutierrez.
Agora retomamos o texto em 1ª pessoa. O autor já um pouco mais famoso(Até o Supla se apropriou indevidamente do "papito") mas sem abandonar sua Cuba, escreveu o relato de sua experiência com uma fã sueca e seus dias no 1º mundo como "escritor convidado". O livro "Animal Tropical" para mim é um dos melhores. Pedro Juan narra de forma hilária, muitas vezes trágica, às diferenças existentes entre o "Animal", latino e o "humanismo" Europeu, ressaltando as diferenças em todos os campos, principalmente no campo da sexualidade.
Imaginem um cubano nú, fumando charuto e bebendo rum na sacada de um edifício de três andares de sua amante sueca em Estocolmo? É como se o Homem das Selvas retornasse à civilização.
E nesse jogo de contrastes e diferenças o livro se sustenta muito bem, culminando com o retorno do protagonista e escritor à sua adorada e deteriorada Cuba não suportando o "bem estar" asséptico do mundo nórdico e Europeu, do 1º mundo do tédio, das facilidades da internet, e-mail(até isso é novidade para ele), das ações indenizatórias, da falta da liberdade de expressão.
No fundo temos que fazer uma alto crítica já que de certa forma também somos animais tropicais e Cuba não está tão distante de nossa realidade. (eles não tem pasta de dente, desodorante, mas pelo menos têm saúde, educação, cinema...) . Quanto saio do Brasil também tenho a mesma sensação de deslocamento, de apego a toda esta bagunça, esta esculhambação generalizada. Um livro que trata também desse assunto, porém de forma romanceada é Budapeste, de Chico Buarque, essa coisa do estrangeiro, do viajante...mas aí é outra estória.
Preciso retomar a leitura de Gutierrez, já que estou um pouco por fora das suas produções atuais. Já saiu o "Mucho Corazón"? Comentários e dicas por favor!
Um pouquinho de informação: "Pedro Juan Gutiérrez(1950, Cuba) foi vendedor de sorvetes, soldado, instrutor de natação, trabalhador rural, locutor de rádio e jornalista entre outros ofícios É escultor, pintor e autor de vários livros de poesia. Com Animal Tropical , conquistou o Prêmio García-Ramos de Romance 2000, para obras em língua espanhola"

"Vamos dormir que as visitas querem ir embora" Fuad Hanna

vagabundos iluminados com o pé na estrada





"agosto finalmente chegou com um golpe que fez tremer a minha casa e trouxe pouco augúrio de agosticidade. Fiz gelatina de framboesa da cor de rubis ao sol poente."



Acordei cedo hoje e li meu horóscopo: "dia ótimo para você se conectar com as altas instâncias, cultivando a arte, a espiritualidade e as formas de união sagrada com a natureza e o universo".
Então terminei de ler o livro supra "Vagabundos Iluminados" de Jack Kerouac, que estabelece exatamente esta conexão.
O duro é trabalhar depois desta passagem do livro:"seu único problema é nunca ter aprendido a visitar lugares assim, você permitiu que o mundo o afundasse no esterco"
ou esta: "este pobre rapaz, dez anos mais novo do que eu esqueceu, durante os recentes anos de bebedeira e decepção, todos os ideais e prazeres que conhecia anteriormente, ele não liga a mínima para o fato de não ter dinheiro nenhum, tudo que necessita está dentro de sua mochila"
e por aí vai...; deu para sentir o climão flower power? Os beats é que começaram tudo. Woodstok , hippies, beatles etc não existiriam sem Alan Ginsberg, Jack e Cia que estão lado a lado no Beat Museum nos EUA.
O livro é uma versão radical/zen/budista de outro livro que li em 1994 "On the road" Pé na Estrada também de Jack Kerouac.
Aliás já escrevia resenhas dos livros que lia naquela época - vejam uma transcrição dos meus arquivos: "Soltando as palavras como Jack Kerouac, em seu livro "on the road". Total liberdade de expressão, exatamente o que estou a precisar agora. Sair da linha, sonhar um pouco, esquecer o dinheiro, os compromissos e as responsabilidade.
Com muito Jazz, estradas, velocidade, bebida e um descantamento com a vida fútil, a geração "beat" tem neste livro uma cartilha para um modo de ser diferente, inconsequente e livre, uma válvula de escape do capitalismo.
Os ídolos são pessoas errantes, andarilhos, cantores e músicos de bares suspeitos, mulheres idem(suspeitas), mendigos e...pilotos de corrida.
O ideal é passar pelo mundo sem fincar raízes ou constituir famílias tradicionais. O correto é correr cidades, conhecer pessoas fantásticas, diversas e em quantidade.
Bebida e comida barata, hotéis à preços módicos, caronas, empregos simples para juntar dinheiro e cair na estrada.
Um mondo ideal, uma leitura fascinante pela singeleza e inocência de um escritor que acreditou com veemência numa utopia. Aula de vida para os "inhos". Explico: "menininhos" "mauricinhos" que acreditam ser a vida um "Audi" na Garagem e férias na Disneylandia.
Enfim, o livro é um convite ao SONHO tão distante do americam dream " LTC 1994
Agora lendo o outro livro de Kerouac impossível não comparar com este meu primeiro relato, minha primeira impressão. Continua tudo lá...as caronas, as viagens, as pessoas fantásticas, comida barata o sexo desenfreado...com dois fatores novos e que sempre fizeram a minha cabeça: NATUREZA E MONTANHAS.
O Prazer de escalar montanhas: Vide mais uma transcrição - "para mim uma montanha é um Buda. Pense na paciência, centenas de milhares de anos só paradas ali perfeitamente silenciosas e como se estivessem rezando por todas as criaturas vivas naquele silêncio e só esperando que a gente acabasse com toda a nossa complicação e nossas bobagens".
Pelas citações acima dá para ver porque a maioria dos especialistas e fãs de literatura beat consideram o "Vagagundos" como o melhor romance de Kerouac.
Tesão puro. E não é o tesão do Aurélio, mas o tesão pela vida!!!!! I O que esta geração "beat" com certeza tinha de sobra.
O duro é saber que enquanto estes caras curtiam a vida os Republicanos faziam a festa...culminando neste "Bush", nesta guerra imbecil do Iraque e tantas outras atrocidades do momento atual.
Mas vá lá... ninguém é de ferro né: e politica e cultura sempre ficaram um pouco dissociadas!
O livro conta a história de Ray Smith que insatisfeito com seu "way of life" conhece Japhy Rider, um montanhista zen/budista que lhe apresenta a outra face da moeda da consumista sociedade americana.
Pasmem! O livro é de 1958 e por consequência do que falei acima é de uma atualidade estarrecedora. Será que ainda existe espaço para tanta utopia????
VAMOS SONHAR MINHA GENTE!!!!!!
E por falar em sonho acabo de ler outro livro da minha sonhadora predileta Hilda Hilst "A obscena Senhora D" que em determinado momento do livro e suas elocutiones define bem o que é viver: "viver é afundar em cada caminhada" "a vida foi isso de sentir o corpo, contorno, vísceras, respirar, ver, mas nunca compreeender".
Mas aí e outra estória para outro post! Beijo na testa!
E encerro com uma oração de Hilda Hilst/Casa do Sol/1981:
"Livrai-me, Senhor, dos abestados e dos atoleimados"

o velho safado




Factótum(1975), representa o minha nova incursão na obra de Charles Bukowsky, último escritor maldito, ídolo de outrora, dos meus tempos de alto envolvimento etílico e tardes livres.
O livro narra as aventuras ou melhor desventuras do alter-ego do escritor "Chinaski", escritor errante e alcóolatra , perambulando pelas diversas cidades americanas em busca de sub-empregos, bebidas, mulheres vulgares em becos sujos, ou seja, livro bom para ser lido em mesa de boteco com trilha sonora: Tom Waits ou quem sabe o blues do ZZ Top. (este eu desenterrei- lembra - os barbudos....)
O interessante do livro é que ele é autobiográfico - Bukowsky não escreveu o livro. Ele é o livro. Sua vida é o livro. Ele mesmo é o maior anti-herói da literatura norte-americana. Acho que inclusive chega a superar outro ídolo de outrora. Henry Miller.
Bons tempos em que o autor se envolvia com a literatura. Último remanescente daquela geração de escritores que se envolvia com a literatura de tal forma que passavam a fazer parte dela. E como sofriam....é inimaginável ver nos dias de hoje um escritor errante pagando com a própria vida pelo prazer de ser simplesmente escritor, com todas as implicações pejorativas de sua opção; o escritor ia fundo na tristeza, no sofrimento para depois, com beleza, retratar tais sentimentos.
Hoje escritor tá recebendo cachê adiantado e despesas pagas para passar férias em Tóquio e escrever sobre a experiência. Não que isso seja errado, mas são outros tempos não? São outras experiências, são outras verdades(ou inverdades observadas em tubos de ensaio!) Mas deixa essa polêmica pra lá!
O filme de 2005 com o Mat Dillon no papel de Chinaski/Bukowski nos apresenta um escritor fortão(muito diferente das fotos acima) e o texto encenado nos dias atuais! Dá prá passar o tempo e observar que o texto não envelhece, porém necessário dizer que o livro é muito mais completo e instigante em uma ordem cronológica muito mais interessante e com o charme da década de 70.
Entre o livro e o filme fique com o livro...e veja depois o filme como puro entretenimento oriundo da curiosidade humana!(uau...)
Já ia esquecendo: entre uma cerveja e outra Bukowski escreveu e publicou mais de 45 livros de poesia e prosa e seis romances, dentre eles Factótum.
E por falar em texto que não envelhece, dias de hoje, escritores contemporâneos... que tal esta passagem do livro Factótum: "A lei do mais forte. Sempre havia homens à procura de empregos na América, sempre esta oferta de corpos exploráveis. E eu queria ser um escritor. Quase todos eram escritores. Nem todos acreditavam que podiam ser dentistas ou mecânicos de automóvel, mas todos tinham a impressão de que podiam ser escritores. Daqueles cinquenta caras ali na sala, provavelmente quinze consideravam-se escritores. Quase todos usavam palavras e sabiam escrevê-las, isto é, quase todos podiam ser escritores. Mas a grande maioria dos homens, afortunadamente, não é composta de escritores, ou mesmo de taxistas, e alguns homens - muitos homens - infelizmente, não são nada."
Conclusão: Bukowsky é uma porrada no estômago! Um brinde!!!!

Dulce Whitaker Tinoco Cabral





Dulce Whitaker Tinoco Cabral, nasceu no Rio de Janeiro mas ainda criança veio para o interior de São Paulo e aqui viveu intensamente.
De beleza singular, encantava todos em Ribeirão Preto, cidade em que passou grande parte de sua vida; casou-se com um médico, teve três filhos, vários netos, bisnetos....
Mas o grande lance é que ela escrevia poesias de uma singeleza e delicadeza ímpares.
Escreveu dois lindos livros "Um punhado de Saudade e de Lembrança..." e "Flores e Espinhos ao Longo do Caminho", livros que releio com constância e com imenso prazer.
Escrevia poesias por inspiração e dizia que a inspiração "ajudava a reviver o passado e ao mesmo tempo somá-lo ao presente, tão cheio de surpresas".
Sinto saudades!!! Sentimento tão bem retratado por ela em suas poesias. ("Soluça a saudade, a saudade profunda, A saudade que é dor...a saudade que é grito!")
Daquelas conversas intermináveis sobre os mais diversos assuntos, e principalmente sobre arte e literatura, tudo acompanhado de muito suco de caju e pão-de-ló. Da sua voz rouca recitando versos! Do meu avô emocionado ao ouvir as lembranças do passado: do jasmineiro em flor, da velha árvore que tombou, dos amores da mocidade, da sobriedade da velhice....
Quando falta-me a inspiração para entender a vida e expressar meus sentimentos, me aproprio de seus versos...como agora...
"É a roda da vida, girando...girando...
São entes queridos que vão nos deixando,
É o nosso mundo que vai se acabando...."
Mas não se esqueça minha avó que as gerações se renovam e: "nas partículas do coração de cada descendente, o seu amor estará pulsando eternamente!"

Uma Carta para Hilda Hilst


Hilda,
Li o seu livro "Contos D’Escárnio, onde as estranhas experiências sexuais de Crasso e sua aguçada crítica ao comportamento de suas amantes e amadas e a si próprio, tornam-se uma crítica generalizada para toda classe artística, aos leitores, ao próprio autor(você se questionando) e a toda sociedade.
Você tenta educar o leitor desesperadamente, usa o seu personagem ou seus personagens para desfraldar uma série de ataques à pobreza da literatura nacional e porque não de toda cultura impregnada de mesmice. Seu cinismo perante essa situação é mortal, irônica até o fim do túnel, retratando um País no fim do poço.
Seus contos com tema erótico/pornográfico, talvez um meio termo entre os dois, revelam uma beleza plástica literária jamais imaginada nos livros do gênero. "Avis rara".
O vocabulário vastíssimo é exemplo de respeito e admiração pela língua portuguesa, ficando muito distante do rebuscamento desnecessário, revelando uma riqueza pouquíssimo explorada, tão importante para uma comunicação diferenciada, estudada e de alto nível, para um leitor(em geral) tão mal acostumado e acomodado buscando a simplificação.
Você quebra tabus, demonstra uma visão aberta, banalizando e desnudando tudo aquilo que vivemos tentando esconder; esse lado animal, não civilizado – o sexo em conflito com o intelecto – a busca e a não busca de explicações para o inexplicável, o homem inserido no contexto natural, impulsivo, a magia do ser humano e tudo o que lhe cerca. O mistério.
Assim também me senti ao ler "Cartas de um Sedutor", impressionado com a qualidade do seu texto...tanta riqueza...tanto humor refinado neste País tão pobre, sem referências e sem graça.
Espero poder "cruzar" mais vezes com pelo menos alguns de seus 28 livros e com os novos que ainda virão e muito obrigado por me iluminar um pouco.
Mil beijos de admiração
Tinoco (13/01/93)

Depois de um mês estou deitado na sala lendo Machado de Assis e recebo um telefonema, 10:00 da manhã; minha mãe me chama. "telefone para você – Hilda Hilst" (Uau!)
Meu coração foi a mil – ligou para agradecer o carinho de minhas palavras e pedir para que eu reza-se por ela. Estava passando por dificuldades financeiras, em vias de fechar um negócio(venda de uma fazenda ou sei lá!) e estava um tanto apreensiva, diria até carente, precisando de uma palavra amiga.
Acho que dei-lhe a palavra amiga, ou balbuciei qualquer coisa típica de um garotinho assustado com a situação inusitada.
Me deixou seu telefone e abriu as portas de sua casa , colocou-se a disposição para receber doações. Qualquer garrafa de vinho ou caixa de Whisky seria bem vinda! Deixou bem claro (eh! eh! eh!).
Salve Hilda!

o quadro branco na parede branca



São os momentos brancos, sem inspiração, como um quadro branco na parede branca. A tentativa frustrada do criar....da não tão simples criação artística.
Já dizia o anti-profeta Zaratrusta: "-Estamos beirando o esgotamento criativo". Alguém já colocou o bigodinho na Monalisa por você. Duchamp expôs seu urinol em 1917. O ambiente artístico é cada vez mais claustrofóbico.
Então se você é artista e tá nervoso com tudo isso, faça como dizia a minha mãe. Vai lá fora "-tire as calças e pise em cima!".
Quem sabe isso não é uma nova "performance"...
Usando e abusando de Mirisola. Os "Gagliassos da vida" vão adorar!
Tá em dúvida? Só a Yoko Ono pode esclarecer.

Merdolência e Absinto






Acordo tarde, olho pela janela, uma mulher nua à espreita, garrafas de absinto pelo quarto, dor de cabeça....engov...coquetel molotov...

Um livro de Jack Kerouac jogado na cama. Um gato perambulando pela poltrona rasgada. Mulher nua à espreita. Cortinas ao vento.

Cheiro de absinto.

Hoje não sairei do quarto, de Kerouac, do gato malhado, das garrafas jogadas, da mulher nua à espreita. O ambiente me convida ao puro deleite do ócio.

Viva Sêneca e Aristóteles.

Olho no espelho. Olhar de reprovação. VAGABUNDO. Merdolências de uma infância católica, do sentimento católico da culpa enrustida.

"O trabalho dignifica o homem"... "Deus ajuda quem cedo madruga"..."quem trabalha sempre alcança"

insolência...incoerência, merdolência.

Mas.... um dia chego lá! Como Rimbaud às avessas.

Desconstruo as convicções mais arraigadas. Aquelas das entranhas que foram embutidas com o passar dos anos.

ONde andará Dulce Veiga? Guilherme de A Prado





Antes de começar esta crônica esclareço que sou primo do diretor! O que significa que o conheço desde os tempos em que fazia filmes experimentais com a família na Fazenda Santa Helena com sua Super-8 e me proibia(aos 12 anos) de entrar no set/quarto de hóspedes da Vovó quando estava filmando "As Taras de Todos Nós". Não sei porquê??
Então fui a convite da Tia Dida na Avant Premiére em Ribeirão Preto do filme "Onde Andará Dulce Veiga?", dele, Guilherme de Almeida Prado.
Chega o tão esperado dia.
Cinemark, Sala 8, sentei mais no fundo; mãe do Guilherme atrás, outra tia na frente, pai e mãe do lado, prima do outro e mais uma infinidade de parentes e amigos!!!!
Constrangedor não? "-E se o filme não for bom?...." "E se eu não entender nada?"...Já estava ensaiando às caras e bocas e a falsidade para o acender das luzes após à exibição. Para um cara tímido como eu esta é uma das piores situações. Saia justa pura!
Guilherme dá uma pequena palestra antes do filme. As explicações não ajudam, aliás me colocam mais uma vez na defensiva! Ensaio em silêncio os comentários vagos e imprecisos para serem dados com cara de patso na saída.
Para piorar Guilherme nos diz exatamente o que eu não queria ouvir. Que o filme quebra todas as regras cinematográficas e paradigmas e que apresenta nove finais; filme para se ver várias vezes.. "vários filmes no mesmo filme..."(????) - Meu Deus!!!! esta introdução toda para mim só tem uma explicação: FILME CABEÇA! urgh! bleargh!!!!
Apagam-se as luzes.(Guilherme sentado no chão) A primeira cena nos apresenta um quarto surrealista com pinturas do rosto pop de Che, uns esboços de Picasso na parede, algumas repetições de imagem "a la" Andy Warhol! O personagem de Eriberto Leão tem uma discussão repetida e enfática com a personagem de Julia Lemertz e sai voando pela janela que a cada momento nos apresenta uma paisagem diferente! Uau....Julio Cortázar puro! Realismo mágico....Ai Ai Ai... Meu Deus!!! Será que esta loucura toda vai se sustentar????
E por incrível que pareça a coisa toda em seu contexto flui bem. MUITO BEM!!!!
A união dos amigos, do ótimo texto de Caio Fernando Abreu com o ótimo e experiente cineasta Guilherme de Almeida Prado é uma das mais felizes dos últimos tempos. Como Batman e Robin, Stanley e Hardy, Jonathan e Jennifer Hart...
A história criada por Caio sobre o desaparecimento de uma atriz nos anos sessenta e sua busca por um jornalista/detetive têm toda uma relação com o cinema meio retrô e noir de Guilherme, que não dispensa eu suas cenas as antigas máquinas de escrever, discos de vinil, delegacias fétidas, toca-fitas, pianistas desiludidos em bares neon, personagens ambíguos e de sexualidade dúbia, vestidos longos e verdes e as fachadas reluzentes dos bares de outrora.
Guilherme também não dispensa trabalhar com quem gosta! Matilde Mastrangi, Maitê Proença, Christiane Torloni(impagável); Nuno Leal Maia(fazendo o único papel em que fica bem!); dentre outros....
E cada cena é uma aula de cinema...cada beco escuro revela uma surpresa, um monge, um abajur, um tecido, um beijo estranho, uma peruca, uma música....
A música é um caso a parte. Bem tratada, assim como o som ambiente do filme! Até a Carolina Dieckmann canta!??? - e escapa do ridículo(o mesmo não posso dizer de Eriberto Leão!)
Enfim o tempo passa...passa bem e no final no acender das luzes ouço palmas sinceras e só me resta escolher meu final predileto(do guarda-chuva de Jacques Démy) dar os parabéns sem nenhuma falsidade para o Guilo e um comentário agradável para a Tia Dida. (Graças aos céus!!!)
Sem dúvida uma ótima noite!!!!!
Saimos rindo e falando que o Guilo quer ganhar dinheiro! Essa história de fazer filme para ser assistido várias vezes....
Acho que meu primo sonhador até que enfim foi tocado pelo Rei Midas!
Deus queira! Ele merece.

o cinema novo morreu ou será que fui eu?


O estudante de cinema fã de Glauber saiu de São Paulo aquela manhã no vôo das 7:00 e foi para o Festival de Cinema de Brasília. Gastou todo o seu dinheiro na viagem;
Chegando no Espaço Cultural Renato Russo um suntuoso tapete vermelho lhe aguardava! Canapés, bebidinhas coloridas, gente descolada com cavanhaques aparados e carecas reluzentes; pessoas todas muito parecidas fazendo o estilo “intelectual cool de boutique”.
Não era nada disto que esperava encontrar na Capital Federal. Deslocado e com sua roupa sem grife começou a pensar quando aquelas pessoas iriam adquirir consciência da pobreza e sair do estado de inércia social.
A primeira exibição mostrava um filme sobre a “bossa nova” para ele no pior estilo hollywoodiano. O segundo filme era uma comédia romântica em que atores conhecidos das novelas macaqueavam aquela velha estória repetida várias vezes e que no fundo só servia para duas coisas: exibir caras e bundas e produtos para serem usados nas caras e bundas . Os descolados aplaudiam em pé!.
Cansado e deprimido saiu para o saguão para ler um jornal: “Favelados insistem em comer carne condenada” Uau! Era uma noticia de peso sobre uma carne estragada enterrada no aterro sanitário de Brasília junto com rejeitos hospitalares e desenterrada pelos favelados locais que a dois dias patrocinavam na favela um estranho churrasco à despeito do risco de intoxicação. A fome falara mais alto. E isso tudo a poucos quilômetros do Festival acético e bem comportado em que estava. Da civilização à barbárie. Do” mundinho” ao” mundão real”.
O estudante de cinema fã de Glauber com sua câmera super 8 em riste e com uma idéia na cabeça partiu para a favela para compreender a fome e sua estética tão enaltecida pelo cinema novo.
Esperava encontrar a cultura da fome minando a sua própria estrutura em busca de uma estética capaz de expressar a realidade e o imaginário brasileiro e que ao mesmo tempo causasse um impulso transformador e revolucionário. A miséria dourada e engajada de Jorge Mautner.
Mas...que desilusão....
Chegando lá deparou-se com churrasqueiras improvisadas em latões imundos e uma carne seca e salgada sendo repartida pelos moradores do local numa intangível festa. Rostos tristes e conformados sem qualquer esperança perambulando pelo chão de terra batida e árida. Jorge Mautner? Glauber? Quem?
Logo relacionou-se com eles que mesmo desconfiados lhe ofereceram a malfadada carne. Lembrou-se de Glauber e que para compreender a fome era necessário “violentar a percepção, os sentidos e o pensamento”. Aceitou em decorrência e até que a carne não era ruim.
Porém saciada a fome física a realidade nua e crua veio de súbito no comentário de um favelado que observando a sua câmera em riste lhe perguntou “– E aí moço! Vai sair na Globo?”
Triste concluiu que não é chegada a hora da revolução na América Latina. A consciência da própria pobreza ainda não chegou quer no Festival dos descolados, quer na Favela dos desgraçados. Na verdade “somos todos iguais, braços dados ou não”. (já dizia Geraldo Vandré)
O estudante de cinema fã de Glauber, para desopilar e desintoxicar, passou o resto da noite com uma terrível dor de estômago no centro de saúde local voltando no dia seguinte para São Paulo com sua câmera entre as pernas.
Largou a Faculdade de Cinema e pichou no muro do MIS, (Museu da Imagem e do Som) “Aqui jaz Glauber Rocha”
Enquanto isso... o Presidente Lula(que até então não tinha entrado na estória) comia uma chuleta temperada à moda mineira, cozida na grelha e acompanhada de uma boa porção de fritas, arroz, feijão e salada no Restaurante Gijo’s em São Bernardo do Campo.